sábado, 7 de março de 2026

Construtores de catedrais

Luis Vaía Monteiro foi o governador da Capitania do Rio de Janeiro de 1725 a 1732. Era rigoroso com o erário e com a tentativa de estabelecer regras de atendimento ao interesse público e da Coroa Portuguesa e ganhou o apelido de Onça. Não foram poucos os conflitos nos quais se meteu com os políticos locais e com os religiosos. Depois de um almoço, para o qual o convidaram, sentiu-se mal, caiu ao chão e morreu. Não havia necrópsia e não se sabe a causa da morte súbita. Maledicentes dizem ter sido envenenado. Embora fosse casado e tivesse seis filhos não se sabe do destino dado à sua família. Após sua morte, quando alguém lembrava da existência de alguma norma por ele editada, a resposta era certa: “Isto é coisa do tempo do Onça!”.

Em sua gestão, devido às invasões francesas ocorridas em anos anteriores, foram inaugurados os fortes da Laje e da Ilha das Cobras, visando a impedir novos ataques. Demonstrando a necessidade de combate à pirataria, conseguiu do rei português a incorporação da Ilha Grande à província que governava. Promoveu a interiorização da colonização fluminense com a fundação de São João Marcos, no Vale do Paraíba.

Luis Vaía, O Onça, era extremamente rígido no cumprimento das ordens régias e seus conflitos com os políticos e religiosos decorria, principalmente, do combate à cunhagem de moedas falsas, contrabando do ouro por caminhos não oficiais e apropriação das terras realengas, ou seja, pertencentes à Coroa Real, ou as compreendidas na Sesmaria doada para construção da Cidade.

A retomada da Ilha das Cobras, que estava em poder dos beneditinos, de onde tiraram pedras para construção do mosteiro e igreja de São Bento, foi um dos conflitos nos quais se meteu. O conflito da retomada atravessou séculos e somente foi solucionado no início do século XX, com reconhecimento de que é público, porque não estava compreendido nas sesmarias doadas aos religiosos.

Graças ao material retirado da Ilha das Cobras e das cerâmicas trazidas da Fazenda de São Bento, situada onde hoje é o Município de Duque de Caxias, os religiosos construíram um dos mais importantes monumentos arquitetônicos da Cidade do Rio de Janeiro. Todo carioca deveria conhecer ao menos a Igreja de São Bento e, se possível, assistir a uma das missas celebradas com canto gregoriano, a começar pelos professores de literatura ou artes, notadamente quando ensinassem sobre o barroco ou rococó e gongorismo.

Tanto a retomada da Ilha das Cobras, por um governador de elevado espírito público, quanto a construção do complexo artístico e arquitetônico beneditino expressam valores que havemos de cultivar. Dezoito anos após a morte de Luis Vaía, em 1750, subiu ao poder no Reino de Portugal o Marquês de Pombal, outro extraordinário homem público. Foi o Primeiro-Ministro de Dom José I até o ano de 1777, quando D. Maria I, A Louca, o sucedeu. Sucedeu, mas não governou. O Príncipe Regente foi D. João VI, dada a debilidade psíquica da mãe.

Tal como o Onça, Marquês de Pombal, igualmente contrariou os interesses paroquiais, da nobreza parasitária e de alguns religiosos. Era um estadista. Foi ele quem instalou o Tribunal da Relação em 1752, que hoje é o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, e transferiu em 1763 a capital do Brasil da Bahia para o Rio de Janeiro, visando a assegurar para a Coroa Portuguesa parte significativa do sul do Brasil que pertenceria à Espanha, por se situar além do Tratado de Tordesilhas.

Tanto no Estado quanto na direção das ordens religiosas é possível encontrar indivíduos e gerações capazes de feitos extraordinários. A construção das catedrais, no Brasil e no mundo, é exemplo disto. Algumas levaram séculos para serem construídas. Isto significou que aqueles que começaram as obras tinham a certeza de que as gerações futuras dariam continuidade aos encargos que lhes fossem legados. Por outro lado, decorreu da compreensão, de cada geração, de que a existência do que se faz transcende ao tempo de vida de cada um dos operadores.

Se o passado grandioso se pode fazer presente, igualmente as querelas. A propriedade da Ilha das Cobras foi resolvida no início do século XX, mas não faltam sacerdotes que ainda se mostram inconformados com a solução que reconheceu a titularidade do Estado. Conversando com um padre sobre isto ele me disse: “Aquilo é nosso”. Objetei dizendo que a questão fora resolvida. Ele replicou dizendo que a decisão, para ele e outros, não era definitiva e que esporadicamente lembravam que o Estado pode manter a posse, pois está consentida pelos proprietários. Retruquei dizendo que se consideram proprietários deveriam reivindicar na justiça ou ao menos requerer lhes fosse declarada a propriedade, ainda que não se dispusessem à retomada. Ouvi que não fariam isto e que se o fizessem perderiam e o assunto se encerraria definitivamente. Busquei concluir dizendo que eles jamais reaverão a ilha da qual um dia tiveram posse para retirada de pedras e construção do complexo arquitetônico. A resposta foi lapidar: “Agora não, mas daqui há 100, 200 ou 300 anos ...”. Dei-me por vencido. A existência de cada um de nós é curta, mas há instituições que se consideram eternas, pois falam em nome de valores que se pretendem infinitos.

A concepção temporal exposta nos parágrafos acima distingue aqueles que vivem a imediatividade da existência e os que arquitetam o futuro e dentre eles se destacam o Onça e o Marquês de Pombal.

 

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 07y/03/2026, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2026/03/7217772-joao-batista-damasceno-construtores-de-catedrais.html