Luis Vaía Monteiro foi o
governador da Capitania do Rio de Janeiro de 1725 a 1732. Era rigoroso com o
erário e com a tentativa de estabelecer regras de atendimento ao interesse
público e da Coroa Portuguesa e ganhou o apelido de Onça. Não foram poucos os
conflitos nos quais se meteu com os políticos locais e com os religiosos.
Depois de um almoço, para o qual o convidaram, sentiu-se mal, caiu ao chão e
morreu. Não havia necrópsia e não se sabe a causa da morte súbita. Maledicentes
dizem ter sido envenenado. Embora fosse casado e tivesse seis filhos não se
sabe do destino dado à sua família. Após sua morte, quando alguém lembrava da
existência de alguma norma por ele editada, a resposta era certa: “Isto é coisa
do tempo do Onça!”.
Em sua gestão, devido às
invasões francesas ocorridas em anos anteriores, foram inaugurados os fortes da
Laje e da Ilha das Cobras, visando a impedir novos ataques. Demonstrando a
necessidade de combate à pirataria, conseguiu do rei português a incorporação
da Ilha Grande à província que governava. Promoveu a interiorização da
colonização fluminense com a fundação de São João Marcos, no Vale do Paraíba.
Luis Vaía, O Onça, era
extremamente rígido no cumprimento das ordens régias e seus conflitos com os
políticos e religiosos decorria, principalmente, do combate à cunhagem de
moedas falsas, contrabando do ouro por caminhos não oficiais e apropriação das
terras realengas, ou seja, pertencentes à Coroa Real, ou as compreendidas na
Sesmaria doada para construção da Cidade.
A retomada da Ilha das
Cobras, que estava em poder dos beneditinos, de onde tiraram pedras para
construção do mosteiro e igreja de São Bento, foi um dos conflitos nos quais se
meteu. O conflito da retomada atravessou séculos e somente foi solucionado no início
do século XX, com reconhecimento de que é público, porque não estava
compreendido nas sesmarias doadas aos religiosos.
Graças ao material
retirado da Ilha das Cobras e das cerâmicas trazidas da Fazenda de São Bento,
situada onde hoje é o Município de Duque de Caxias, os religiosos construíram
um dos mais importantes monumentos arquitetônicos da Cidade do Rio de Janeiro. Todo
carioca deveria conhecer ao menos a Igreja de São Bento e, se possível,
assistir a uma das missas celebradas com canto gregoriano, a começar pelos
professores de literatura ou artes, notadamente quando ensinassem sobre o
barroco ou rococó e gongorismo.
Tanto a retomada da Ilha
das Cobras, por um governador de elevado espírito público, quanto a construção
do complexo artístico e arquitetônico beneditino expressam valores que havemos
de cultivar. Dezoito anos após a morte de Luis Vaía, em 1750, subiu ao poder no
Reino de Portugal o Marquês de Pombal, outro extraordinário homem público. Foi
o Primeiro-Ministro de Dom José I até o ano de 1777, quando D. Maria I, A
Louca, o sucedeu. Sucedeu, mas não governou. O Príncipe Regente foi D. João VI,
dada a debilidade psíquica da mãe.
Tal como o Onça, Marquês
de Pombal, igualmente contrariou os interesses paroquiais, da nobreza
parasitária e de alguns religiosos. Era um estadista. Foi ele quem instalou o
Tribunal da Relação em 1752, que hoje é o Tribunal de Justiça do Estado do Rio
de Janeiro, e transferiu em 1763 a capital do Brasil da Bahia para o Rio de
Janeiro, visando a assegurar para a Coroa Portuguesa parte significativa do sul
do Brasil que pertenceria à Espanha, por se situar além do Tratado de
Tordesilhas.
Tanto no Estado quanto na
direção das ordens religiosas é possível encontrar indivíduos e gerações
capazes de feitos extraordinários. A construção das catedrais, no Brasil e no
mundo, é exemplo disto. Algumas levaram séculos para serem construídas. Isto significou
que aqueles que começaram as obras tinham a certeza de que as gerações futuras
dariam continuidade aos encargos que lhes fossem legados. Por outro lado,
decorreu da compreensão, de cada geração, de que a existência do que se faz
transcende ao tempo de vida de cada um dos operadores.
Se o passado grandioso se
pode fazer presente, igualmente as querelas. A propriedade da Ilha das Cobras
foi resolvida no início do século XX, mas não faltam sacerdotes que ainda se
mostram inconformados com a solução que reconheceu a titularidade do Estado.
Conversando com um padre sobre isto ele me disse: “Aquilo é nosso”. Objetei
dizendo que a questão fora resolvida. Ele replicou dizendo que a decisão, para
ele e outros, não era definitiva e que esporadicamente lembravam que o Estado
pode manter a posse, pois está consentida pelos proprietários. Retruquei
dizendo que se consideram proprietários deveriam reivindicar na justiça ou ao
menos requerer lhes fosse declarada a propriedade, ainda que não se dispusessem
à retomada. Ouvi que não fariam isto e que se o fizessem perderiam e o assunto
se encerraria definitivamente. Busquei concluir dizendo que eles jamais
reaverão a ilha da qual um dia tiveram posse para retirada de pedras e
construção do complexo arquitetônico. A resposta foi lapidar: “Agora não, mas
daqui há 100, 200 ou 300 anos ...”. Dei-me por vencido. A existência de cada um
de nós é curta, mas há instituições que se consideram eternas, pois falam em
nome de valores que se pretendem infinitos.
A concepção temporal
exposta nos parágrafos acima distingue aqueles que vivem a imediatividade da
existência e os que arquitetam o futuro e dentre eles se destacam o Onça e o
Marquês de Pombal.
Publicado originariamente
no jornal O DIA, em 07y/03/2026, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2026/03/7217772-joao-batista-damasceno-construtores-de-catedrais.html
