VIOLÊNCIA POLICIAL EM ESCOLA PÚBLICA
Duas ocorrências recentes no âmbito de instituições de ensino
demonstram o beco sem saída no qual está a educação no Brasil. Em Nova Iguaçu,
numa faculdade particular, um aluno do curso de Direito despiu-se,
integralmente, em sala de aula, e exibiu as genitálias para a professora. No
Colégio Estadual Amaro Cavalcanti, no Largo do Machado, Zona Sul do Rio de
Janeiro, um policial militar esbofeteou uma aluna e agrediu outro que tentava abrandar
a hostilidade.
A difusão, sem critério, das instituições de ensino superior,
no Brasil, por empresários ávidos por lucros, tem propiciado a matrícula de
todo tipo de aspirante a um canudo. Pessoas sem qualificação que lhes habilite ao
ensino superior ingressam, com facilidade, em instituições sem compromisso com a
produção e difusão do conhecimento. Os “empresários do canudo” promovem a
“democratização dos diplomas”, mediante pagamento.
O evento no Colégio Estadual Amaro Cavalcanti foi pior. A
presidenta e um diretor da Associação Municipal dos Estudantes Secundaristas do
Rio de Janeiro/AMES e um representante do Diretório Central de Estudantes da
Universidade Federal do Rio de Janeiro/DCE-UFRJ compareceram à escola pública
visando a colher assinaturas num abaixo-assinado requerendo fosse investigado
um possível assédio praticado por um professor. A direção da escola, sem adequados
métodos pedagógicos chamou a polícia para impedir a atividade estudantil, o que
resultou na agressão aos estudantes.
A presidenta da AMES foi esbofeteada. O secretário da
entidade levou um soco na boca. O autor da agressão foi um policial do BPChq/Pmerj,
Batalhão de Choque da PM. Não é despreparo policial. Eles são adestrados para
isto e a redes sociais registram depoimentos vangloriosos da truculência
aprendida para a “luta contra o mal” ou para o que entendem seja o mal. O
chamamento da polícia, para assunto que não demandava a força repressiva do
Estado, foi o reconhecimento pela direção da escola de que não tem qualificação
para resolver problemas educacionais por métodos pedagógicos e educacionais.
Sou professor há décadas. Se um professor precisa de polícia para interlocução
com alunos é porque lhe falta habilitação para a função. As autoridades são
acatadas pela legitimidade de suas ações. O uso da força é a fraqueza da
autoridade. Numa escola, sem a ameaça de mal físico, o método há de ser o
diálogo e os professores precisam usá-lo, sem o que não estarão preparados para
a função docente.
A palavra diálogo tem origem grega, formada
por “dia”, que significa, “por intermédio de” e “logos”, que
significa “palavra” ou “razão”. Diálogo é a busca do entendimento por meio da palavra.
Implica uma troca de ideias buscando o esclarecimento, o entendimento mútuo e a
construção dos sentidos do que se deseja expressar. Mais que para transmitir
informações, o diálogo se destina à busca do entendimento e o consenso
racional entre os indivíduos. Da discussão, racionalmente posta, nasce a luz.
Participei no início dos anos 80 da refundação da AMES, ainda
sob a ditadura empresarial-militar. Foi no Clube Municipal, na Tijuca. Naquela
época alguns policiais participavam de grupos de extermínio, chamados
esquadrões da morte. Mas atuavam na periferia e nas madrugadas. Somente em data
recente o aparato repressivo do Estado passou a matar durante o dia e a
promover chacinas. E somente agora tenho ciência de que estudantes são
esbofeteados por policial militar dentro de uma escola pública estadual, mesmo
ciente de que estava sendo filmado. Trata-se da banalização da violência
policial. As bofetadas que a estudante levou do policial militar, dentro da
escola, ardeu no meu rosto.
Em São Paulo, um policial militar é acusado de matar a
esposa. Nas conversas de WhatsApp, colhidas na investigação, ela reclamava da
falta de respeito porque ele lhe teria batido na cara. Ele respondeu dizendo
que sendo macho alfa a tratava como deve ser tratada uma fêmea beta. A
hierarquização das relações humanas é a fonte dos abusos. Os tapas na cara de
uma aluna, dentro de uma escola e sob filmagem, proferidos por um policial
militar, pode ser o indicativo da possibilidade de violações mais graves à segurança,
à vida e aos direitos dos cidadãos em circunstâncias menos publicizáveis.
A violação à integridade física e dignidade dos alunos
agredidos pelo policial militar não há de ser imputada tão somente ao agressor.
Quem de qualquer modo contribui para uma ocorrência há de ser por ela
responsabilizado. A direção do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti tem, também,
responsabilidade, por haver convocado o uso indevido da força para questão que
deveria ser resolvida pedagogicamente. Assim, demonstrou desconhecer a Lei do
Grêmio Livre, vigente desde 1985, bem como os princípios propostos no Manifesto
dos Pioneiros da Educação Nova de 1932, redigido por Anísio Teixeira, que
inspiraram o educador Darcy Ribeiro. Darcy e Anisio Teixeira foram os autores
da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, somente editada no
Brasil, tardiamente, em 20 de dezembro de 1961. Darcy, que tinha compromisso
com a educação, foi o autor da atual LDB, editada no mesmo dia e mês daquela, no
ano de 1996.
Diretoria de escola não é função para burocratas, nem para
agentes do aparato repressivo do Estado. As funções são diversas. Educar é preparar
para a vida e para a cidadania, tarefa para professores. Formar é colocar em
forma, tarefa para adestradores. Adestradores formam vassalos úteis, jamais
educam para a liberdade e para a cidadania.
Publicado originariamente em
04/04/2026, no jornal O DIA, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2026/04/7231029-joao-batista-damasceno-violencia-policial-em-escola-publica.html






