Golpe do Pix e
recuperação do valor perdido para estelionatários
A moeda (dinheiro), não é
valor em si. Trata-se de medida de valor. Sem a moeda a economia estaria
limitada às trocas de produto por produto. Mas nem sempre o que uma pessoa tem
é desejada por outra e isto dificultava as permutas. O dinheiro resolveu o problema,
pois com uma venda e o recebimento do dinheiro é possível a compra do que se
deseja. Inicialmente as moedas eram cunhadas em ouro. Valiam o que pesavam.
Posteriormente, surgiram as cédulas (notas de papel) cujo valor estampado podia
ser convertido em ouro no banco que as emitiu. Posteriormente os governos
substituíram as cédulas conversíveis em ouro por cédulas de valor legal, de
curso forçado, não mais correspondentes ao valor em ouro. Todos têm o dever de
aceitar. Recusar o dinheiro oficial é ilícito penal.
As redes bancárias e seus
correspondentes possibilitaram as remessas de dinheiro sem que ele precisasse
ser transportado. As transferências de valores foi uma facilidade e
possibilitou que as trocas se realizassem com muito mais segurança. E além das
transferências diretas de valores entre agentes bancários surgiram outras
modalidades eletrônicas de pagamento: cartão de crédito, cartão de débito,
boletos bancários, DOC, TED etc. Mas todas estas modalidades de pagamento
implicam despesas. A emissão dos boletos é cobrada, seja ao credor seja ao
pagador. Os administradores de cartões de crédito cobram do credor cerca de
cinco por cento do valor da transação. Considerando o fluxo de operações que se
realizam no mundo diariamente é possível dizer que as empresas de cartão de
crédito, pela simples intermediação do modo de pagamento, têm as maiores
rentabilidades dentre todas as demais atividades econômicas. Os DOCs e TEDs
somente podiam ser realizados em dias úteis, em horário comercial e mediante
alto custo.
Mas o Brasil, por meio
dos técnicos do Banco Central, elaborou um sistema de transferência imediato,
em qualquer dia e gratuito. Trata-se do Pix, um sistema de pagamento
instantâneo criado e gerenciado pelo Banco Central. Ele permite realizar
transferências e pagamentos de forma gratuita em questão de segundos,
funcionando 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive em feriados. O
ecossistema financeiro do país já atingiu a marca histórica de mais de 1 bilhão
de chaves cadastradas. Pessoas físicas podem registrar até 5 chaves por conta,
enquanto empresas podem cadastrar até 20 chaves, além de QR Codes ou digitação
direta dos dados bancários tradicionais do destinatário. Tudo é muito simples,
prático, seguro, instantâneo e gratuito.
Mas nem tudo são flores.
As empresas transnacionais que lucravam com os pagamentos por meio de cartões
ou outras modalidades eletrônicas de transferência de valores não ficaram
satisfeitas com a criação dos técnicos brasileiros, funcionários públicos do Banco
Central. A redução de seus ganhos lhes faz pretender o fim de tal modalidade
nacional de pagamento. O Pix se tornou um tema de interesse e soberania
nacional. Por ser instantâneo e gratuito, ganhou tamanha relevância que o
governo dos EUA o acusa de prejuízos aos rivais estadunidenses e condena o
sistema de pagamentos brasileiro. O Banco Central brasileiro é acusado de usar
seu poder regulador para desfavorecer prestadores de serviços dos EUA.
Além dos ataques das
empresas estrangeiras, notadamente das estadunidenses, o PIX tem servido aos
golpistas, dada a simplificação da transferência de valores entre contas. Mas
os técnicos do Banco Central estabeleceram mecanismo de recuperação de valores
transferidos fraudulentamente. Trata-se do MED, sigla para Mecanismo Especial
de Devolução. O MED é uma ferramenta criada pelo Banco Central para ajudar
vítimas de fraudes, golpes ou falhas operacionais a tentarem recuperar o
dinheiro enviado via Pix.
Com o acionamento do MED
junto ao banco do correntista os recursos na conta de quem os recebeu são
bloqueados. Uma vez acionado o banco do correntista ele se responsabiliza por
acionar o banco para onde os valores foram transferidos, que aciona o banco subsequente.
Com o MED, o sistema
acompanha o caminho do dinheiro por vários bancos ou contas (contas de passagem
ou laranjas) para tentar bloquear e recuperar o dinheiro onde quer que ele se
encontre. Se o banco do correntista ou algum dos subsequentes por onde o dinheiro
passou não tomar as providências devidas ele fica responsável pelo
ressarcimento ao correntista lesado. O banco tem que demonstrar que tomou as
providências. O acionamento só termina quando o dinheiro é sacado pessoalmente.
Mas neste caso quem fez o saque fica identificado. As instituições financeiras
envolvidas têm um prazo de até 7 dias para analisar o caso. Se a fraude for
confirmada e houver saldo na conta do recebedor, o valor é devolvido para a
vítima. O PIX, sistema eletrônico de transferências, possibilita o rastreamento
do dinheiro, até que seja sacado pessoalmente. O Poder Judiciário, em defesa
dos consumidores, tem condenado os bancos omissos no dever de rastreamento em
ressarcir à vítima do golpe.
O MED pode ser acionado
sempre que presente um golpe de engenharia social, ou seja, quando o
correntista é enganado a fazer um PIX, tal como nas invasões de conta, uso não
autorizado, crimes de extorsão, falhas operacionais do sistema, além de outros
casos. O MED não se aplica em casos de erros de digitação de valores,
desacordos comerciais ou desentendimentos entre fornecedores e consumidores,
arrependimento de compra e saques diretamente feitos pelo correntista.
A vítima de golpe tem até
80 dias para registrar a comunicação de fraude junto ao seu banco e a
instituição financeira tem o prazo de 7 dias para análise e 4 dias para a
confirmação da fraude e devolução do valor.
O acionamento do MED pode
ser feito na agência bancária, nos canais de comunicação com o banco ou
diretamente no aplicativo, bastando acessar o extrato do Pix, localizar a
transação, contestá-la, relatar o golpe e acionar o MED. É importante guardar o
número do protocolo para responsabilizar o banco do correntista ou o
subsequente para onde foi remetido o dinheiro, caso não haja atuação para
impedir o proveito pelo falsário.
O PIX, além de
espetacular modalidade de pagamento assume, neste momento, perfil de soberania
nacional pois sua manutenção é expressão de defesa dos interesses do povo
brasileiro.
Publicado
no jornal O DIA em 17/10/2026. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/joao-batista-damasceno/2026/10/7313024-golpe-do-pix-e-recuperacao-do-valor-perdido-para-estelionatarios.html
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