O Reino africano de
Daomé, escravidão e independência do Brasil
História é o conjunto de
ações, da vida e da organização das pessoas ao longo do tempo. Assim tudo o que
os seres humanos fizeram ao longo da sua existência e continuam a fazê-lo é
história. História é também o ramo do conhecimento que estuda como funcionou o
mundo, possibilitando compreender heranças culturais presentes nas relações que
mantemos na atualidade.
O profissional da
História atua como um detetive, reconstituindo os fatos e buscando sobre eles
estender sua compreensão. Fatos são ocorrências concretas no mundo natural que
se esvaem com a própria ocorrência. Dele restam apenas as versões ou vestígios.
A compreensão de nossa história nos permite buscar conhecer os valores que
permeiam nossas relações e nos ensina a pensar de forma crítica sobre nossa
realidade e nosso papel no presente.
A história da humanidade
é a história das lutas pela apropriação das riquezas pertencentes a outros
povos ou a outras pessoas no seio da própria sociedade. Na antiguidade, as
cidades-estados democraticamente deliberavam atacar outros povos, roubar o que tinham
e subjugá-los. Embora democrático, porque deliberado pela maioria em praça
pública, seu objetivo era autoritariamente submeter outros povos.
Mongóis e a chineses se
envolveram durante séculos em conflitos militares. As muralhas foram erguidas
para evitar a passagem de sua cavalaria. Os mongóis governaram a China de 1271
a 1368. Átila, o rei dos hunos, liderou vasto império entre os anos de 434 e
453 d.C.. Conhecido historicamente pelo epíteto de "Flagelo de Deus",
ele se tornou um dos maiores e mais temidos adversários do Império Romano. Na
Grécia Antiga os principais conflitos bélicos foram as Guerras Médicas dos
gregos contra os persas, atuais iranianos, entre os anos 499 a.C. a 449 a.C. e
a Guerra do Peloponeso entre os anos 431 a.C. a 404 a.C. Posteriormente a
Macedônia, sob o comando de Felipe da Macedônia, atacou as cidades gregas,
unificando o império legado a seu filho Alexandre, O Grande, cujo preceptor
fora Aristóteles. O Império Romano, em cujo território o sol não se punha,
durou de 27 a.C. a 476 d.C. Ocupou terras na Europa, Ásia e norte da África,
dentre as quais o Egito. A África teve grandes reinos, e não só o Egito, que
também digladiaram entre si.
A história das sociedades
é uma história de lutas externas para a pilhagem da riqueza de outros povos e
internas entre as classes sociais que as compunham. Os ricos sempre foram
ricos, também, porque se apropriavam dos bens dos pobres.
Na antiguidade, Egito e
Sudão estiveram ligados por diversos motivos, dentre os quais o uso do rio
Nilo. O Reino de Kush, região da antiga Núbia, sul do Egito e atual Sudão,
tinha o controle de minas de ouro e ferro. No século VIII a.C. os reis de Kush
conquistaram o Egito formando a famosa 25ª dinastia dos "faraós
negros", que governaram a região com coroas de duas serpentes. Os reis
cuchitas adotaram a tradição dos sepultamentos monumentais, razão pela qual no
Sudão há mais pirâmides que no próprio Egito.
As expansões marítimas
capitaneadas por Portugal e Espanha no século XV, pilhando e escravizando
outros povos, é apenas mais um capítulo na história da humanidade e da
imposição de trabalhos forçados aos povos subjugados. Ao chegar à África os
portugueses encontraram e incentivaram as guerras entre os povos. Muito antes
da chegada dos colonizadores europeus, o Sudão, já islamizado, escravizava o
povo de Darfur, os castrava no Egito e os vendia para o Oriente Médio. Isto a
partir do ano 672.
Foram os sudaneses que
instituíram a transformação de pessoas em mercadoria em larga escala, mais
acentuado grau de desumanização que se pode conceber. Os darfurianos ainda hoje
vivem as agruras sob as violências dos sudaneses. O genocídio em Darfur, oeste
do Sudão, foi o primeiro grande massacre em massa do século XXI, iniciado em
2003 e intensificado na década presente. O ataque aos darfurianos se
caracterizou por ataques sistemáticos aos grupos étnicos não árabes, resultando
em centenas de milhares de mortes e milhões de deslocados, configurando uma das
piores catástrofes humanitárias da atualidade monitoradas pela ONU.
As ameaças aos pobres e
vencidos em cada sociedade pode advir de forças externas, mas também de grupos
internos. O entreguismo a que determinados brasileiros se dedicam hoje perante
os EUA é prova de que nem todos os membros de uma nação defendem os interesses
comuns. Por vezes, interesses individuais se sobrepõem ao interesse da nação.
O emprego da mão de obra
escravizada na América Portuguesa foi obra dos colonizadores, assim como no
Império, o foi da aristocracia, mas igualmente contou com a ganância de muitos
dirigentes africanos. Quando da independência do Brasil, em 1822, a classe
dominante angolana pretendia permanecer ligada ao Brasil. Com isto não se
poderia dizer que havia tráfico internacional de pessoas. Quem impediu ficasse
Angola como colônia do Brasil, ou região ultramarina brasileira, foi a
Inglaterra. Outro reino africano que se empenhou em prol da escravização foi o
Reino de Daomé.
A relação entre Daomé
(atual Benim) e o Brasil, quando da nossa independência, foi marcada por uma
intensa atividade diplomática, pois a classe dominante daquele país estava
diretamente interessada no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.
Entre o final do século XVIII e meados do século XIX, Daomé enviou várias
missões diplomáticas à América Portuguesa (antes da independência) e ao Império
do Brasil (após a independência) para garantir privilégios comerciais, armas de
fogo e a continuidade da venda do que diziam ser seus prisioneiros de guerra.
No período de 1795 a 1805
o Reino de Daomé consolidou-se como um estado altamente militarizado, cuja
economia dependia fortemente do comércio de pessoas escravizadas. Naquele
período, duas grandes expedições diplomáticas vieram à Bahia visando a estreitar
laços com compradores brasileiros e com as autoridades portuguesas. Os
embaixadores daomeanos buscavam assegurar o fornecimento contínuo de pólvora,
tecidos, tabaco e, principalmente, armas de fogo europeias. O armamento era
fundamental para que Daomé continuasse suas guerras de expansão contra reinos
vizinhos (como Oió), gerando novos prisioneiros para o tráfico.
Em 1810, Portugal, sob a
regência de D. João VI, assinou o Tratado de Aliança e Amizade com a
Grã-Bretanha, prevendo a restrição gradual do comércio escravocrata. A reação
do monarca de Daomé, Rei Adandozan, foi imediata e enviou correspondências
diretas ao príncipe regente cobrando a manutenção dos antigos compromissos e
requerendo privilégios alfandegários exclusivos para seus navios comerciais no
Brasil. O Rei Adandozan enviou uma bandeira e um trono real de presente a D.
João VI. O trono foi preservado e integrado à coleção de etnologia do Museu
Nacional da UFRJ.
Com a Independência do
Brasil, em 1822, Daomé agiu rapidamente para a defesa de seus interesses
econômicos, contrários aos interesses humanitários de tantos quantos estavam
sujeitos à escravização. Assim, como o Brasil foi o primeiro país a reconhecer
a independência de Angola em 1975, com reconhecimento do governo formado pelo
marxista MPLA contrário aos EUA, o reino africano de Daomé foi um dos primeiros
países a reconhecer formalmente a independência do Brasil. Visava a manter as
rotas de comércio de pessoas escravizadas com Salvador e o Rio de Janeiro.
Em 1824, um embaixador
daomeano veio ao Rio de Janeiro com uma carta do Rei Guezô. Sob a influência de
ministros de tendências abolicionistas, o governo brasileiro deu uma recepção
fria à missão. O navio daomeano não foi saudado pelas fortalezas e D. Pedro I
não fez qualquer retribuição aos presentes recebidos, resultando no retorno
humilhado do embaixador e no esvaziamento das relações formais oficiais do
nascente império brasileiro com aquele reino africano.
Daomé foi um poderoso
reino da África Ocidental, criado por volta de 1600 pelo povo Fon no Planalto
de Abomei e cresceu muito ao dominar reinos vizinhos e se tornou uma grande
força na região. O reino de Daomé participou ativamente do comércio atlântico de
pessoas escravizadas, trocando prisioneiros de guerra por armas de fogo,
tecidos e tabaco com europeus e brasileiros. O porto de Uidá foi um dos maiores
pontos de saída de africanos escravizados para as Américas, sobretudo para o
Brasil. No final do século XIX, o reino lutou contra a invasão da França, mas
acabou derrotado, virando colônia francesa. Em 1960 conquistou sua
independência com o nome de República do Daomé, mas em 1975 mudou o nome Benim,
que conserva atualmente.
As classes dominantes em
cada país não têm compromisso com a felicidade dos seus povos. Se hoje os EUA
se dispusessem a restabelecer a escravização de pessoas e o quisesse a
brasileiros, os entreguistas da atualidade não titubeariam em nos entregar como
mercadoria e ainda de nós se despediriam fazendo continência para a bandeira
estadunidense. Joaquim Silvério dos Reis vive entre nós. Mas também há os
Tiradentes que querem a Independência do Brasil.
Publicado originariamente
no jornal O DIA, em 05/09/2026. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/joao-batista-damasceno/2026/09/7298319-o-reino-africano-de-daome-escravidao-e-independencia-do-brasil.html






