Um golpe militar destituiu a monarquia após a abolição da escravatura e tentou-se um poder centralizado. Mas logo os Senhores Rurais destituíram os marechais e lotearam o Estado, instituindo a supremacia do mando local. O mandonismo local foi o império dos coronéis. Além do voto de cabresto, a descoberto, a fraude eleitoral era generalizada. Operou-se a descentralização política, mas não a democratização. Além das instituições, os senhores rurais se apropriaram das terras públicas a pretexto de indenização pela abolição da escravatura.
A democracia
representativa na Primeira República foi uma farsa. Pressentindo o que
aconteceria naquelas circunstâncias, em 1893, Assis Brasil publicou um livro
intitulado "Democracia Representativa: do Voto e do Modo de Votar".
Uma segunda edição foi publicada em 1895, ano no qual os coronéis tomaram
definitivamente o poder, afastando o Marechal Floriano Peixoto. O segundo
presidente civil da República, Campos Sales, instituiu o que se denominou
“política dos Estados”, mais tarde renomeada de “Política dos governadores”.
Tratou-se de um compromisso recíproco pelo qual o mando local garantia os votos
necessários para assegurar a eleição dos preferidos do poder central e em troca
o poder central deixava o exercício do poder local nas mãos dos coronéis. Remessas
de recursos, tal como emendas parlamentares atuais, garantia a saúde financeira
dos coronéis. Do ajuste dos coronéis um era escolhido para governar o Estado da
federação. Mas em alguns momentos, em decorrência de conflitos, houve Estados
com dois governadores ou duas assembleias legislativas.
A desorganização do
serviço público foi total na Primeira República. A desorganização era
necessária para que os coronéis pudessem empregar os seus apaniguados e colocar
a Administração Pública a seu serviço. Inexistia garantia de atendimento no
serviço público por direito. Nem mesmo a magistratura gozava de garantias
funcionais, como escreveu o ministro do STF Victor Nunes Leal no clássico livro
“Coronelismo, Enxada e Voto”.
O Rio de Janeiro revive,
no presente momento, quadro similar à da Primeira República. A classe política
se auto implodiu. A administração pública foi tomada por interesses
não-republicanos. O vácuo de poder levou o presidente do Tribunal de Justiça,
Desembargador Ricardo Couto, a assumir interinamente as funções executivas do
Estado. E em pouco tempo, e sem necessidade de auditoria profunda, deparou-se
com o que demandava correção. Diz-se que na falta de gato o rato sobe na mesa.
Parodiando, pode-se dizer que o rato depois de se refastelar no queijo, dormia
sobre a mesa.
Uma das medidas do
governador em exercício foi a exoneração de ocupantes de cargos comissionados
que não tinham lotação física, nem jamais haviam acessado o sistema de
informática pelo qual pudessem exercer suas atividades por trabalho remoto. Não
é incomum a existência de ocupantes de cargos comissionados que ganham sem
trabalhar ou ganham para dividir o salário com quem os nomeou. O episódio da
apropriação do dinheiro público por meio de nomeação de servidores que não
trabalham e que dividem o que ganham com quem os nomeou, ocorrido na Assembleia
Legislativa do Rio de Janeiro, e que a mídia apelidou de “rachadinha” é
emblemático. Mas não se deve chamar tal modalidade de roubo de “rachadinha”. O
nome jurídico é peculato.
O número de exonerações
pelo governador em exercício já ultrapassa 1.000 comissionados. A breve
reestruturação administrativa já resulta numa economia de cerca de R$ 50
milhões.
Além das exonerações dos
cabos eleitorais que recebiam sem trabalhar, o governador em exercício promoveu
mudanças administrativas, com extinção de cargos criados para empregar
apaniguados políticos e bloqueou a liberação de R$ 730 milhões, aprovada no último
dia de gestão do governador condenado, para municípios do interior do estado.
Uma das secretarias receberia R$ 250 milhões, para a realização de um único
projeto, sem destinação informada. O repasse de verbas para garantir o apoio do
poder local era uma das práticas na Primeira República. Hoje temos as emendas
parlamentares.
Os múltiplos problemas
estruturais da Primeira República levaram-na ao colapso e ao triunfo da
Revolução de 1930. Em 1931 o livro de Assis Brasil recebeu uma terceira edição
e Getúlio Vargas o nomeou para a comissão que elaborou o Código Eleitoral de
1932 no qual ficou assegurado o voto feminino e o voto secreto. Getúlio Vargas
organizou a Administração Pública e criou o Departamento de Administração
Pública/DASP para a formação do quadro de pessoal e despolitização do serviço
público. Pelo DASP os servidores recebiam adequada formação para adequada
prestação do serviço público.
Em tempos contemporâneos
o Estado do Rio de Janeiro criou a Fundação Escola de Serviço Público/FESP e
Fundação Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro/CIDE atual Centro
Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de
Janeiro/CEPERJ, que jamais formaram ninguém. A CEPERJ foi a instituição
utilizada pelo governador condenado para remuneração com proveito eleitoral.
Outras instituições
igualmente foram e são utilizadas para fins não-republicanos. Nem toda
instituição pública de formação profissional realiza suas finalidades. Não raro
é meio de apropriação de recurso público. A desorganização do serviço público é
um projeto político.
Publicado originariamente
no jornal O DIA, em 02/05/2026, pag. 12. Fonte: https://odia.ig.com.br/opiniao/2026/05/7243266-joao-batista-damasceno-a-intencional-desorganizacao-da-administracao-publica.html






