Morreu Marcelo Cerqueira. Sua trajetória é marcada pela defesa das liberdades e da democracia. Deveria ser sepultado de pé, tal com se faziam com os guerreiros espanhóis para
continuarem as lutas pela eternidade.
Eu conheci, pessoalmente,
o Marcelo em 1985 quando foi candidato a prefeito do Rio de Janeiro. O
candidato a vice-prefeito era João Saldanha. Andei com o João Sem Medo por
muitos lugares na campanha. João era irascível. No Alojamento de Estudantes da
UFRJ, depois de um debate com os estudantes, quis sair no braço com um
provocador. Não foi tenso. Foi engraçado. O provocador queria desfazer a
provocação, mas toda vez que se aproximava do João era ameaçado de levar um
bofetão. Nós incentivámos o João e ríamos da situação.
O Marcelo era de uma
ironia fina que jamais vi em outra pessoa. Elegante e respeitoso, chegava a ser
zombeteiro, sarcástico ou sátiro sem se tornar ofensivo ou escarnecedor.
Há uns 30 anos ocorria na
Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro/AMAERJ, debates às
segundas-feiras pela manhã. Não havia pagamento para os palestrantes. Marcelo foi
convidado para uma dessas atividades. Antes que os trabalhos começassem estávamos
conversando no entorno de uma mesa de café. Um desembargador, nomeado pelo
quinto constitucional, para se aproximar do Marcelo, começou a falar que também
gostava de Direito Constitucional etc. Dizia estar fazendo mestrado em Portugal
e que estava estudando a necessidade de limitação dos interesses individuais em
proveito do interesse público. Afinal, dizia, as liberdades particulares não
poderiam se opor aos interesses públicos, sob pena de se tornar uma
libertinagem. E desandou a falar contra as liberdades. Marcelo ouvia aquilo sem
reação, provavelmente achando uma chatice, mas sem interromper o “palestrina”. Mas
eu interrompi o orador inconveniente e lhe disse que para atacar as liberdades não
precisaria fazer mestrado em Portugal, bastaria ler os livros de Marcelo
Caetano, sucessor de Salazar e que imigrara para o Brasil depois da Revolução
dos Cravos. Marcelo virou o rosto para o lado para rir e não constranger o locutor.
O desembargador que desejava disciplinar as liberdades nunca mais sequer me
cumprimentou. Pelo menos enquanto esteve em atividade. Depois de aposentado
tentou fazê-lo.
Defensor de presos
políticos contou-me que advogava para Darcy Ribeiro quando foi preso na Ilha
das Cobras, onde estava o cliente. Darcy ao vê-lo chegar começou a comemorar. “Viva!
Viva! Meu advogado chegou! Vou ser solto!” Ele se aproximou do Darcy e falou: “Darcy,
deixa de ser bobo! Eu também estou sendo preso!” Disse-me que enquanto estiveram
presos todos os dias o Darcy indagava sobre sua situação. E que não adiantava
dizer nada saber, pois também estava preso. Num dia chegou Sobral Pinto. Ao verem
o velho defensor das liberdades chegar a depressão foi geral. Se até o Dr.
Sobral estava sendo preso, quem mais poderia advogar no Brasil naqueles Anos de
Chumbo? Mas Dr. Sobral trazia o habeas corpus para a soltura do Marcelo.
Darcy se indignou e se dirigiu a ele: “Como você que está preso por tão pouco
tempo e já está sendo solto se eu continuo aqui?” Marcelo disse que não tinha
resposta para o Darcy, nem estava ocupado com isto. Mas ele insistia. Depois de
várias indagações Marcelo respondeu: “Darcy, eu estou sendo solto porque meu
advogado é melhor que o seu”. Darcy, soltou um palavrão e saiu de perto dele
como um menino contrariado.
Além da sua trajetória e
permanentes compromissos com as liberdades Marcelo Cerqueira tinha uma característica
que que eu, mais que admirar, invejava: Era zombeteiro com discrição e por isso
não ofendia.

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