Devolvam o nosso ouro
A cada vez que equipes
brasileiras de práticas desportivas disputam campeonatos com equipes de outros
países um sentimento de brasilidade invade o coração dos brasileiros e os
velhos bordões de um país colonizado se reacendem. Um deles é o grito para que
devolvam nosso ouro. O ouro reclamado, como se pudesse ser devolvido em forma
de medalhinhas, foi levado das Minas Gerais para a Europa e contribuiu para o
desenvolvimento do capitalismo industrial na Inglaterra.
A violência para a
apropriação era cotidiana, com submissão de trabalhos forçados a pessoas
escravizadas trazidas da África e punição a quem se rebelava contra o pagamento
do “quinto”. Foi aguçada com o esquartejamento de Felipe dos Santos e
Tiradentes. Contribuindo com os exploradores não faltaram os traidores, dentre
os quais Joaquim Silvério dos Reis.
O que Portugal cobrava
pela extração do ouro não era imposto. Era um arrendamento. As terras haviam
sido apossadas e expropriadas dos seus habitantes nativos e a Coroa Portuguesa
a arrendava mediante o pagamento da quinta parte de tudo o que fosse produzido.
Quando reclamamos do que foi entregue ao Estado português nos referimos apenas
a um quinto. Mas as outras quatro partes, ou seja, os quatro quintos restantes
não eram entregues àquele Estado colonial. A aristocracia que dele se
apropriava é que deu fim a tais recursos em seu próprio proveito.
Não é ao Estado português
que devemos reclamar de terem levado nosso ouro, nem devemos ficar limitados à
apropriação desta riqueza no passado. O ouro não foi a única riqueza da qual
fomos expropriados. O Brasil foi e continua sendo espoliado e suas riquezas
remetidas para o exterior em prejuízo do povo brasileiro. A lógica colonial que
nos tornou presa da apropriação por grupos estrangeiros se mantém e nossas
riquezas continuam sendo remetidas para grandes corporações ou grandes fundos
de apropriação, denominados fundos de investimento.
Eliminados do campeonato
mundial de futebol de 2026 pela Noruega, além da análise das habilidades
técnicas e táticas das duas equipes, faltou-nos avaliar outras diferenças entre
os dos países. Enquanto a Noruega é a 12ª produtora de petróleo do mundo o Brasil
é o 7º maior produtor, sendo que o pré-sal corresponde a 80% deste montante.
Isto a mídia não mostra. No imaginário e no noticiário brasileiros os países
petrolíferos estão no Oriente Médio. Nossas riquezas são cotidianamente
apropriadas por empresas estrangeiras. São empresas as apropriadoras das
riquezas. Os governos de seus países apenas dão cobertura para o saque, assim
como foi a ocupação do Nordeste brasileiro pela Companhia das Índias Ocidentais
(WIC), com o apoio do Estado holandês.
Com menor produção
petrolífera a Noruega constituiu um Fundo Soberano e entrega aos seus cidadãos
qualidade de vida e certeza de futuro invejável. Mas os brasileiros destituíram
a presidenta que defendia o pré-sal e constituímos o orçamento secreto, as emendas
pix e a continência à bandeira dos EUA. Não quero medalhas. Quero que nossas
riquezas deixem de ser apropriadas em prejuízo do povo brasileiro.
Publicado
originariamente no jornal O DIA, em 11/07/2026, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2026/07/7276035-joao-batista-damasceno-devolvam-o-nosso-ouro.html
