domingo, 7 de junho de 2020

OBSTRUÇÃO JUDICIAL


Em atrito com Bolsonaro, STF tem meios escassos de controle e limite a seus ministros

Corte tem em impeachment de juiz maior sanção, mas medida é considerada muito improvável

6.jun.2020 às 14h07


SÃO PAULO

Pressionado nos últimos anos pela opinião pública e agora sob cerco do bolsonarismo, o STF (Supremo Tribunal Federal) tem escassos meios previstos em lei de controlar ou limitar a atividade de seus integrantes.
Instituições como o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) ou o Congresso praticamente são alijadas de atividades de supervisão dos trabalhos da corte.
A única sanção mais ao alcance de outros Poderes, considerada por especialistas uma bomba atômica a ser usada em hipóteses remotas, é o impeachment de ministro, que cabe ao Senado avaliar.
Embora desperte críticas, esse modelo de autonomia e estabilidade quase total é concebido para evitar a influência política sobre o Judiciário ou retaliações de outros Poderes por decisões tomadas.
Iniciativas controversas dos ministros nos últimos anos despertaram discussões sobre os limites de atuação dos integrantes da corte.
Uma dos principais foi o inquérito da fake news, aberto em 2019 por determinação do próprio presidente do tribunal, Dias Toffoli, que também indicou o relator, Alexandre de Moraes. Os alvos são suspeitos de fazer ameaças e ofensas a integrantes do tribunal.
O presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar há duas semanas, após operação de busca e apreensão no âmbito dessa investigação: “Ordens absurdas não se cumprem”.
O tom beligerante estimulou ainda mais apoiadores que semanalmente fazem protestos antidemocráticos em Brasília pedindo o fechamento da corte e do Congresso.
Bolsonaro e os críticos do tribunal também questionam a excessiva individualização de ordens de ministros, como a expedida também por Moraes em abril que barrou a posse de Alexandre Ramagem, aliado do presidente, na direção-geral da Polícia Federal.
Liminares também reverteram indicações para ministérios nos governos Dilma Rousseff e Michel Temer. Se abre margem para questionamentos, essa autonomia gozada pelos ministros também protege a corte de intervenções desmedidas do Executivo.
Em democracias menos consolidadas, há vários precedentes de destituição de integrantes da mais alta corte por pretextos aleatórios do governo da ocasião. No Brasil, a ditadura militar ordenou a aposentadoria de ministros não alinhados.
Pedidos de impeachment no Supremo Tribunal Federal se avolumaram no Congresso nos últimos anos, mas não houve nenhum caso de afastamento consumado.
O professor de direito constitucional Miguel Godoy, da Universidade Federal do Paraná, diz que o impeachment implica em provar uma falha funcional grave, que represente um crime de responsabilidade.
Os pedidos que chegam ao Senado contra os ministros costumam visar, por outro lado, o teor de decisões tomadas.
“Juiz não pode ser responsabilizado pela compreensão jurídica que tem. A não ser que atue de maneira dolosa para fraudar, o que não me parece o caso”, diz ele, a respeito do inquérito das fake news.
O professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) no Rio Ivar Hartmann, que pesquisa o Supremo, diz que, como o impeachment é visto como algo fora de cogitação, a corte fica sem outras alternativas de controle, o que contribui para excessos dos ministros.
“Deveria haver outros mecanismos além do impeachment para violações de menor grau. Algum mecanismo de moção, de suspensão, que tenha um efeito simbólico. [Por exemplo:] remover determinado processo da relatoria e ser sorteado entre outros ministros. Seria algo de bastante impacto para os ministros, veriam como uma punição severa.”
Hartmann diz que o Senado, que também é quem aprova as indicações de novos ministros do tribunal feitas pelo presidente da República, poderia exercer esse papel.
Existe, no entanto, um equilíbrio delicado nos interesses intercruzados entre Poderes: há no tribunal inquéritos e processos que têm como alvos os próprios congressistas.
O professor também considera que poderia ter havido um efeito positivo na chamada “CPI da Lava Toga”, que senadores novatos tentaram abrir sem sucesso em 2019, desde que a comissão se prestasse a discutir procedimentos do Judiciário, e não o teor das decisões.
O Conselho Nacional de Justiça, criado em 2004 e que supervisiona as atividades do Judiciário, não tem jurisdição sobre os ministros da mais alta corte do país.
Em 2001, ato do então presidente da corte, Marco Aurélio Mello, alimentou debate sobre punição ao ministro.
Ele concedeu habeas corpus a um militar condenado por tráfico e embasou sua ordem em argumento que, disse, havia sido respaldado por decisão de uma das turmas da corte anteriormente, o que não havia acontecido de fato.
A situação provocou bate-boca em plenário com a então colega Ellen Gracie e foi discutida pelos 11 ministros em sessão administrativa a portas fechadas. Pressionado pelos pares, Marco Aurélio acabou admitindo publicamente que havia errado, e a libertação foi revogada.
Punições internas por meio do regimento interno do tribunal são improváveis, já que caberia aos colegas tomar a iniciativa contra um ministro.
Preceitos desse regulamento, como o que estabelece prazos para a retomada de casos sob pedidos de vista, não provocam sanções em caso de descumprimento.
Em 2019, estudo da Fundação Getúlio Vargas analisou três décadas de pedidos de suspeição (questionamento sobre a isenção de um magistrado em uma causa) e mostrou que todos foram arquivados no tribunal, a maioria de maneira individual.
O poder dos ministros em obstruir discussões também é questionado.
Em 2014, o ministro Luiz Fux autorizou de maneira liminar o pagamento de auxílio-moradia no Judiciário e por anos não liberou a causa para julgamento dos colegas. Só revogou suas decisões em 2018 depois de o governo federal aceitar conceder reajuste salarial à magistratura.
“Não se sabe quais os critérios de conduta judicial que nós podemos cobrar dos ministros do Supremo. É um problema antigo no Brasil”, diz o professor do Insper Diego Werneck Arguelhes, que pesquisa cortes constitucionais.
Nesse sentido, ele entende que a fixação de mandatos para os integrantes do tribunal, como o estabelecido em outros países, é benéfica. Hoje, os ministros são aposentados compulsoriamente aos 75 anos.
Para o professor de ciência política da Universidade Federal de Santa Catarina Luciano Da Ros, que estuda o Judiciário, a única bandeira que une os 11 ministros que compõem a corte é a preservação de seus poderes individuais, o que obstrui possíveis iniciativas de aperfeiçoamento.
“Se o ministro A tomou uma decisão que foi malvista pelos outros, ela é ‘aceita’ pelos demais porque, em um momento subsequente, o ministro B ou C pode ser aquele a tomar uma decisão malvista pelos colegas. Nesse contexto, dificilmente existe uma ação disciplinar clara, orientação de rumo.”
Para os acadêmicos, os questionamentos à corte são desdobramento da superexposição que seus julgamentos e decisões passaram a ter na última década. A partir do julgamento do caso do mensalão, em 2012, o tribunal esteve cada vez mais no centro do debate político, que incluiu episódios da Operação Lava Jato e a discussão sobre a prisão de condenados em segunda instância, como o ex-presidente Lula.
Agora, as circunstâncias de ataques à corte por manifestantes extremistas podem acabar tendo até o efeito inverso, de barrar o debate por mudanças em seu modo de funcionamento.
Para a professora de direito constitucional Vera Karam de Chueiri, da Universidade Federal do Paraná, o momento exige cautela em propostas de mudanças.
“Pode-se fazer as críticas, tecer críticas, mas neste momento elas têm que ser pensadas nesse contexto maior, de quem quer dinamitar instituições”, diz.
ALGUMAS DAS MEDIDAS CONTROVERSAS DO STF NOS ÚLTIMOS ANOS
Inquérito das fake News
Em março de 2019, o presidente do STF, Dias Toffoli, decidiu por conta própria instaurar um inquérito para apurar ofensas e ameaças contra ministros da corte. A medida se baseia em um artigo do regimento interno que trata da ocorrência de crimes nas dependências do tribunal. Ele indicou o ministro Alexandre de Moraes para relatar o caso.
Desde então, o inquérito já serviu, por exemplo, para censurar a revista online Crusoé, para determinar buscas contra o ex-procurador-geral Rodrigo Janot, que havia dito que planejou matar um ministro da corte, e, no fim de maio, contra empresários, blogueiros e outros aliados do presidente Jair Bolsonaro
Decisões individuais sobre o Executivo
Desde 2016, medidas individuais da corte impediram a posse do ex-presidente Lula na Casa Civil, da então deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) no ministério de Michel Temer e, mais recentemente, de Alexandre Ramagem na direção da Polícia Federal.
No caso do petista, o argumento era de desvio de finalidade. As decisões despertaram debate sobre os limites da atuação do Judiciário sobre o Executivo
Causas 'seguradas'
O poder dos ministros em obstruir discussões também tem sido questionado. Em 2014, o ministro Luiz Fux autorizou de maneira liminar o pagamento de auxílio-moradia no Judiciário e por anos não liberou a causa para julgamento -- só revogou suas decisões depois de o governo federal aceitar conceder reajuste salarial à magistratura.
Em 2015, houve mobilização de entidades para que o ministro Gilmar Mendes liberasse voto sobre o financiamento de campanhas eleitorais por empresas, que ficou pendente por mais de um ano

   




OBSTRUÇÃO JUDICIAL

O que se em feito em alguns tribunais é "obstrução judicial", por meio de pedido de vista ou retardamento na submissão de liminar ou processo ao órgão colegiado para julgamento.

No STF a prática da “obstrução judicial” foi escancarada pelo Ministro Nelson Jobim. Vindo do Parlamento, onde  a prática da obstrução é meio de propiciar conversações, o ministro Jobim a praticou em larga escala no STF, conforme era denunciado pelo jurista Dalmo de Abreu Dallari. 

Embora o regimento interno do STF/RISTF disponha que o pedido de vista implica devolução dos autos na segunda sessão subsequente, já tivemos ministros que ficaram anos com vista ou se retardaram a liberação do processo para julgamento. Tenho ciência de uma petição protocolada no STF em 2006, somente foi juntada após sua aposentadoria do relator, ministro Joaquim Benedito Barbosa.

Um debate necessário é sobre a manutenção do pedido de vista após a segunda sessão ou inabilitação de quem em tal tempo não se achar apto a julgar, bem como a ineficácia, ope legis (pro força de lei), da liminar não confirmada ou submetida na primeira sessão subsequente a que tiver sido deferida.

Assim:
1)   Se o julgador pedir vista e não trouxer o processo na segunda sessão subsequente, estaria - de pleno direito - inabilitado em participar do julgamento, por desconhecimento da causa.

2)   Deferida a liminar, antes da oitiva da parte contrária, o relator deveria colocar a decisão para reapreciação e confirmação na primeira sessão subsequente, sob pena de perda imediata e, por força de lei, da eficácia.

sábado, 6 de junho de 2020

O Brasil e seus projetos

“...prometem se infiltrar entre os manifestantes para promover arruaças e lhes imputar responsabilidade. Se o governador tem o comando das polícias estaduais e compromisso com a democracia cabe-lhe ordenar que os órgãos de segurança impeçam a atuação das milícias contra os manifestantes. Afinal, é livre a reunião, mas sem armas. A Constituição que prevê tal garantia não ressalva que deputados, policiais e milicianos possam ir a reuniões públicas com suas armas, mesmo que tenham autorização para porte legal em outras circunstâncias”.

Ao analisar a estrutura social segregacionista persistente no Brasil, Darcy Ribeiro dizia que “a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. Darcy estudava o Brasil e buscava identificar seus problemas para poder transformá-lo. Mas, encontrava resistências daqueles que arquitetaram a nossa realidade iníqua e com ela lucravam. Só um projeto educacional muito bem elaborado possibilita a acomodação social e a manutenção da desigualdade social sem que os excluídos se rebelem.

A classe dominante executou seus projetos no Brasil e lucrou com suas execuções. Ao tempo da colônia, para impedir o desenvolvimento, era proibida qualquer manufatura. Tudo tinha que ser comprado de Portugal. A indústria inglesa é que supria a metrópole dos produtos e em troca ficava com o ouro das Minas Gerais. O ouro, a cana de açúcar e o café enriqueceram poucos e destruíram a vida de muitos reduzidos à escravidão. Os filhos da aristocracia podiam estudar em Portugal, mas inexistia qualquer educação para os demais. Mesmo os colégios jesuítas foram fechados em 1759 e não se colocou nada no lugar.

O golpe militar que instituiu a República em 1889 entregou o controle da vida cotidiana ao mando local e instituiu o coronelismo. Com a Revolução de 30, chefiada por Getúlio Vargas, o Brasil se tornou nação. Iniciou-se o processo de industrialização, foram editadas leis trabalhistas e o sistema de saúde deixou de ser, exclusivamente, o caritativo das Santas Casas. Os institutos de trabalhadores tinham sua própria rede de saúde.

Mas, o projeto nacionalista de um Brasil para os brasileiros foi interrompido com o golpe empresarial-militar de 1964 e os entreguistas executaram projeto que subordinava o Brasil aos interesses dos EUA. Os militares nacionalistas e os de esquerda foram expulsos das Forças Armadas. Ficaram os tenentistas e a tigrada da ‘linha dura’. Para os militares, o AI-17 foi pior que o AI-5. Mas, a ‘linha dura’ se sobrepôs e acabou por isolar até mesmo os companheiros mais ilustrados e, durante a abertura, tentou intimidar a sociedade colocando bombas na ABI, na OAB, na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, em bancas de jornais. Mas, uma
bomba explodiu no colo dos terroristas fardados, no RioCentro em 1981, obrigando-os ao recolhimento.

A abertura democrática se fez e em 1988 foi editada a Constituição cidadã. Mas, por não terem sido responsabilizados pelas atrocidades cometidas durante a ditadura, contra pessoas e contra a soberania nacional, empresários e agentes do sistema repressivo se sentiram a vontade para continuarem sua sanha golpista. A irresponsabilidade de governos democráticos que colocaram as Forças Armadas em papel de polícia reacendeu o gosto repressivo daqueles que não se adequaram à ordem democrática e ao Estado de Direito.

O sistema repressivo montado para perseguir os brasileiros durante a ditadura empresarial-militar contava com paramilitares que se notabilizaram por se chamarem de “esquadrão da morte” e que deram origem às atuais milícias. Estes grupos de agentes públicos e particulares, fora do serviço oficial, mas contando com apoio hierárquico, são uma ameaça à vida, à liberdade, à democracia e ao Estado de Direito. No presente momento, se preparam para enfrentar os que se manifestam pela democracia e contra o fascismo. E, prometem se infiltrar entre os manifestantes para promover arruaças e lhes imputar responsabilidade. Se o governador tem o comando das polícias estaduais e compromisso com a democracia cabe-lhe ordenar que os órgãos de segurança impeçam a atuação das milícias contra os manifestantes. Afinal, é livre a reunião, mas sem armas. A Constituição que prevê tal garantia não ressalva que deputados, policiais e milicianos possam ir a reuniões públicas com suas armas, mesmo que tenham autorização para porte legal em outras circunstâncias.




sábado, 23 de maio de 2020

Cloroquina e erro médico



Cloroquina e erro médico

Em meio à pandemia da covid-19, dois médicos foram exonerados do Ministério da Saúde e para o cargo nomeado, interinamente, um general, acostumado a dar e receber ordens. O general-Ministro da Saúde interino nomeou para assessorá-lo outros militares, igualmente não familiarizados com pesquisa científica, prática médica, cuidados hospitalares ou atuação em epidemia. Vigora a irresponsabilidade do Presidente da República que busca para o cargo quem endosse sua fé na cloroquina. É inadmissível que assunto de tal gravidade seja tratado sob viés ideológico ou como torcida de futebol em final de campeonato. Cloroquina atende ao “clamor da sociedade”, diz nota do Ministério da Saúde. Não há racionalidade ou cientificidade.

Ao horror da pandemia soma-se a irresponsabilidade de quem tem o dever de promover adequadas políticas públicas. Inicialmente tentou-se negar a existência do vírus, sob o fundamento de que era um golpe chinês para comprar as empresas no ocidente, depois que seria um resfriadinho ou no máximo uma gripezinha e ao final, mesmo duvidando da existência do vírus, acreditando-se no milagroso efeito da cloroquina.
Em razão da facilidade de transmissão de pessoa para pessoa tornam-se necessários o distanciamento social, o isolamento social (quarentena) ou lockdown. O tratamento da covid-19 é de suporte. A diminuição da mortalidade dos infectados está relacionada à oferta de infraestrutura adequada, a presença de médicos e equipes de saúde preparados e protegidos, a existência de leitos de internação e de UTI, assim como a presença de equipamentos de ventilação mecânica de boa qualidade e em número suficiente.

Nenhuma vacina, antiviral ou outro tratamento específico está disponível. Quase 200 ensaios clínicos com tratamentos e vacinas estão atualmente registrados. “Nenhum ainda foi aprovado em ensaios clínicos com desenho cientificamente adequado, não podendo, portanto, serem recomendados com segurança”, disse o Conselho Federal de Medicina (CFM). Cada substância cujos benefícios sejam testados deve ser comparada aos possíveis riscos para cada paciente.

Mas o CFM divulgou o Parecer nº 04/2020 liberando o uso da cloroquina, “para não causar polêmica”. Após analisar a literatura científica, o CFM reafirmou que não há evidências de que a cloroquina tenha efeito confirmado na prevenção e tratamento da covid-19 e o que deve nortear o tratamento é a autonomia do médico, ou seja, tirou o corpo fora e jogou a bomba no colo dos médicos.


Medicina não é ciência. É técnica que utiliza conhecimentos científicos e que deve ser adequadamente empreendida. O exercício da atividade médica é atividade de meio e não de resultado. O médico não está obrigado e curar ou salvar o paciente. Mesmo não se atingindo o resultado pretendido com o tratamento não há responsabilidade médica, se atuou adequadamente. Um médico há de empregar os conhecimentos já produzidos e os melhores meios ao seu alcance, visando a obter um resultado desejado, mesmo que não o atinja. E já é muito.


Doentes e familiares, não raro, esperam que a medicina seja um sacerdócio e os médicos heróis. Mas, devemos tratar a medicina como uma profissão que cuida de pessoas humanas e dos médicos esperar que sejam apenas profissionais responsáveis. Também já é muito.

Ao editar norma, “para não criar polêmica”, O CFM colocou sobre os ombros dos médicos a escolha de ministrar ou não uma substância cujos efeitos não estão comprovados. A morte de um paciente a quem for ministrada poderá ser considerada imperícia e ao médico caberá comprovar que era um meio cientificamente adequado de tratamento. A morte de quem não for ministrada poderá ser considerada negligência.

O Conselho Federal de Medicina, com sua decisão politizada, prestou um desserviço à classe médica, em momento no qual ela precisa de apoio para o desempenho adequado de suas funções.

sábado, 9 de maio de 2020

As vagas bloqueadas nos hospitais federais


Enquanto as autoridades federais implementam política que pode ocasionar dezenas ou centenas de milhares de mortes, em pequeno lapso de tempo, algumas autoridades estaduais e municipais têm buscado minimizar os efeitos danosos da escolha feita no âmbito federal.

Não é a oposição político-partidária que contrasta as opções dos entes da federação. É o tipo de projeto de cada um. A estratégia federal é a da “imunidade coletiva”, permitindo que a população se contamine em massa para que os sobreviventes voltem a trabalhar e produzir. Esta estratégia, desumana, voltada apenas para o lucro do empresariado, nunca foi implementada com sucesso em nenhum país e causa riscos de colapso do sistema de saúde. A segunda opção, com razões humanitárias, propõe tornar a propagação do vírus mais lenta e proteger o sistema de saúde de uma sobrecarga.

As medidas recomendas para evitar que todos se contaminem ao mesmo tempo são distanciamento social, quarentena (isolamento social) ou lockdown. O distanciamento social é uma estratégia de isolamento que restringe o contato entre pessoas, com deslocamentos apenas quando necessários. Isolamento social ou quarentena é meio restritivo da liberdade de locomoção e é medida necessária para os que apresentem sintoma, estejam infectados ou para pessoas advindas de lugares acometidos do surto epidemiológico. O isolamento pode ser demandado como prevenção de contágio ou para evitar a difusão de doença. Lockdown é o bloqueio de todas as atividades não essenciais. É interdição de toda atividade que não seja extremamente necessária à manutenção da vida e da saúde. O lockdown é medida recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), diante de casos graves de pandemias sobre as quais se tenha perdido controle.

No presente momento, o foco das medidas sanitárias não é, em si, a transmissibilidade do vírus causador da Covid-19. O principal objetivo é logístico, procurando evitar a concorrência por leitos e respiradores.

Reduzindo a velocidade de propagação da doença, os órgãos de saúde podem ganhar tempo para equipar os serviços e qualificar equipes com os condicionantes mínimos de funcionamento: leitos, respiradores, EPIs, testes laboratoriais e recursos humanos.

Mas, as medidas acima somente serão tomadas se houver objetivo de evitar a aceleração descontrolada da doença. Se o objetivo das autoridades federais for o darwinismo social, implicando eugenismo e genocídio, pelo qual se possibilita a maciça difusão da doença e morte daqueles que a ela não resistirem, nenhuma das medidas será tomada. Assim, sobreviverão apenas os mais fortes e capazes para o emprego nas atividades econômicas.

No Rio de Janeiro as redes estadual e municipais chegaram ao limite de leitos e vagas nas UTIs. Assim, não se compreende a negativa do governo federal em liberar os leitos dos hospitais federais. Talvez o projeto seja efetivamente deixar a parcela não produtiva da sociedade morrer, para economizar com despesas do SUS e previdência social. Mas, o ser humano não pode ser visto apenas por sua capacidade de produzir e consumir. Já passou da hora do governo federal liberar todas as vagas existentes nos hospitais federais, inclusive hospitais militares. É incompreensível que em tempo de paz tenhamos uma rede de hospitais custeados pelo erário público para cuidados exclusivos dos servidores públicos militares. É perverso que tenhamos uma rede ociosa quando a sociedade demanda de tais recursos. Mais que um crime de responsabilidade capaz de impeachment, o boicote do governo federal à vida dos fluminenses é crime contra a humanidade e o sujeita a julgamento no Tribunal Penal Internacional. Que todos tenham vida e que a tenham em abundância.

*Jesus morreu, de coronavírus. Jornalista, cineasta, teatrólogo, morreu ontem Jesus Chediak. Nelson Rodrigues o chamava de "Jesus, figura diabólica". Era diretor cultural da ABI. Choremos por nós, que ficamos sem ele.



sábado, 25 de abril de 2020

Arminha, fake News e escolhas emocionais


Uma das armadilhas do comércio e da propaganda está em fisgar o consumidor pela emoção. Embora nos entendamos racionais, as emoções influenciam nossas escolhas mais que imaginamos. Durante a evolução humana as emoções vieram primeiro e permaneceram conosco. As sensações, não raro, falam mais alto que o raciocínio. Para decidir com menos esforço, nossa mente faz “atalhos”, reportando-se a experiências passadas. Por vezes decidimos, emocionalmente, sob o impulso do que nos remeteu a uma lembrança prazerosa ou para fugir de uma sensação desagradável.
Pesquisas qualitativas servem para orientar marqueteiros e induzir consumidores a escolhas emocionais e imediatas, sem reflexão. Para evitar os abusos, as agências de publicidade, os anunciantes e os veículos de comunicação constituíram o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) e os associados respeitam suas decisões. O Código de Defesa do Consumidor proíbe propaganda enganosa e impõe que a publicidade integre o negócio. Propaganda é cláusula do contrato em favor do consumidor.
As escolhas dos consumidores podem ser emocionais, assim como as escolhas políticas. Quem faz escolha racional facilmente se corrige quando erra. Diversamente é quem faz escolha emocional. Contra a escolha emocional não há como argumentar racionalmente. Daí a dificuldade de convencer uma pessoa que fez escolha emocional, de que atuou contra o seu interesse individual, da sua coletividade ou da classe a que pertença.
Em outubro de 2005 o Brasil realizou um referendo sobre a proibição da comercialização de armas de fogo e munições. A sociedade brasileira não aprovou o artigo do Estatuto do Desarmamento que proibida a comercialização de arma de fogo. O dispositivo legal foi rejeitado por 59 milhões de eleitores (63,94%) enquanto foi aprovado por apenas 33 milhões (36,06%). Foi uma votação com um dos menores índices de votos brancos (1,39%) e nulos (1,68%) da história recente da República. Ao contrário do que aconteceu no plebiscito de 1993, não foi possível votar fora de domicílio eleitoral e os brasileiros que viviam no exterior não puderam participar, pois não houve votação nas representações diplomáticas brasileiras.
O noticiário do mundo cão, a propaganda de que a defesa pessoal é possível a todos independentemente de preparo, a difusão da cultura do medo e outras medidas que fundamentaram as escolhas levaram a sociedade àquela decisão. A sociedade brasileira votou contra o dispositivo do Estado do Desarmamento, mas as forças políticas e as instituições ignoraram o resultado. O Estado atuou em sentido contrário à vontade popular e manteve a criminalização da conduta vencedora no referendo. Pouca gente percebeu, com o resultado do referendo, a característica violenta da sociedade brasileira, forjada com o genocídio dos povos originários e escravização dos africanos. Em outras questões a opinião e os interesses das camadas populares foram negligenciados e disto decorreu a insatisfação que as tornaram presas fáceis do fascismo em ascensão, concepção política que atua com a insatisfação popular e escolhas emocionais, onde é difícil o convencimento com a racionalidade.
Em momento no qual um vírus nos coloca a todos em quarentena, não nos questionamos o que foram os vírus trazidos da Europa na época da colonização e que exterminaram parte da população originária. Sem exercício da razão, há os que negam o perigo, apesar do crescente número de mortos pelo mundo. O grupo que governa o Brasil é apenas o subproduto da cultura da classe dominante brasileira, sequioso apenas por lucro. A difusão de fake News e a desqualificação da informação de qualidade são apenas meios de dificultar a reflexão


sábado, 11 de abril de 2020

Coronavírus e efeito manada

Fato social é um conceito sociológico que diz respeito às maneiras de agir dos indivíduos de um determinado grupo e da humanidade em geral. Os fatos sociais moldam a maneira de agir das pessoas pela influência que exercem sobre elas. São conjuntos de hábitos sociais que influenciam os comportamentos individuais. Os fatos sociais são hábitos sedimentados no seio das sociedades. Diferem do efeito manada ou comportamento de rebanho, que igualmente tem sido objeto de estudos para compreender o porquê de determinados comportamentos humanos.
Efeito manada é a tendência humana de repetir ações de pessoas influentes, por se acreditar no caminho indicado pelo líder. O nome é dado graças à semelhança com o que ocorre no reino animal, especialmente com espécies que vivem em comunidades. O efeito manada ocorre quando todos os integrantes de um grupo partem numa mesma direção, seguindo os indivíduos considerados mais fortes. Em muitos casos, este comportamento é motivado pela necessidade de proteção, porque, juntos, estes animais têm mais chances de sobreviver ao ataque de um predador. Mas, quando ocorre com os humanos, os efeitos podem não ser tão positivos.
Diversamente do efeito manada, o comportamento de manada é um termo usado para descrever situações em que indivíduos em grupo reagem todos da mesma forma, embora não exista direção planejada. Igualmente o termo designa comportamento animal. Por analogia também se aplica ao comportamento humano, em contexto de desinformação e incertezas.
Em tempo de difusão de um vírus estranho aos nossos organismos, as incertezas, a desinformação e a politização de assunto técnico têm propiciado comportamentos estranhos de indivíduos que se acreditam racionais. Assim, tem sido o tratamento a ser dado diante da difusão do coronavírus. A informação e a racionalidade são os melhores meios de evitar os efeitos danosos da pandemia.
Quando da pandemia de Gripe Espanhola em 1918, que matou o presidente Rodrigues Alves, igualmente as opções médicas se misturaram com as opções políticas. A 1ª Guerra Mundial durou de 1914 a 1918 e matou 8 milhões de pessoas. A Espanha não esteve na guerra e a imprensa pode divulgar a pandemia. Daí o mundo acreditou que o vírus era espanhol. Mas, foi levado para a Europa por soldados estadunidenses. Nos países em guerra a imprensa foi censurada e proibida de falar do vírus, o que também foi sugerido no Brasil. A falta de informação ajudou a difusão daquela pandemia e propiciou a morte de 20 milhões de pessoas, em três meses!
Diante de uma situação como a que vivemos as opções políticas são: promover isolamento social e cuidar para que o menor número de pessoas se infecte ou deixar que todos se infectem, para que apenas os mais fortes sobrevivam e, com o vírus atenuado, imunizem os demais. Esta última opção é a chamada imunidade coletiva. Seu oposto é o isolamento social. As duas opções políticas têm seus efeitos, seja na ordem econômica ou no grau de letalidade.
Mas, o tratamento a ser ministrado aos doentes não é opção política. Somente os médicos podem indicar o que deve ser feito. O serviço prestado por um médico não é atividade de resultado, mas de meio. O melhor tratamento pode não resultar no efeito desejado. Mas, o melhor ao alcance do médico tem que ser ministrado. Dos médicos se exige que diagnostiquem o mal e lhe dê o tratamento mais adequado. Cloroquina pode ajudar? Talvez. Não há estudo comprovando o efeito. Mas, em alguns casos pode ser prejudicial. Cabe ao médico decidir. Neste momento, até reza pode ajudar um doente que acredite, aumentando sua autoestima e imunidade. Mas, a técnica médica há de ser fundada na ciência e, fora dela, os efeitos danosos podem resultar em responsabilidade por erro médico.


quarta-feira, 1 de abril de 2020

Aquele 1º de Abril, de Ivan Cavalcanti Proença


Naquele 1º de abril de 64, no cassino dos oficiais do tradicional Regimento “Dragões da Independência”, antes do almoço, recebo, de meu ordenança, o recado. O subcomandante, coronel Carnaúba, queria falar-me, urgente, no saguão do Corpo-da-guarda. Estávamos de prontidão, armados e eu, com o uniforme usual de um capitão de Cavalaria, botas e esporas, pronto para uma ação qualquer sem saber o que viria, ou se nada aconteceria como em tantos outros alertas. O sub-comandante confessou não saber quais oficiais seriam confiáveis na defesa da legalidade, pois foram ostensivas as visitas de oficiais do Estado Maior para aliciar os do Regimento. Cabe reiterar: não lhes era permitido entrar no quartel, mas alguns de nossos oficiais iam à calçada externa dialogar com os conspiradores.
Disse-me o coronel:
- Os golpistas estão muito ativos, vá ao Palácio Laranjeiras, veja o que ocorre e volte ao Ministério do Exército e, se necessário, assuma o comando das nossas Guardas e me comunique o que está acontecendo.
Mandei vir o jipe e – o óbvio – metralhadoras, capacete de aço, etc. Acompanhado de dois sargentos (por nós escolhidos), nos dirigimos ao Palácio. Tivemos a informação (verdadeira ou não) de que ali já não se encontravam o Gal. Assis Brasil ou o Cap. Eduardo Chuahy, e que o Presidente, de fato, deixara o local e viajara para Brasília. As versões eram confusas: o Presidente está em local seguro para resistir ao golpe, ou (o oposto) resolveu deixar o Governo. Cabe lembrar que o armamento pesado da tropa nas redondezas do Palácio era suficiente para inibir as manifestações que, àquela altura, ocorriam ali perto no Palácio Guanabara, onde Carlos Lacerda, acompanhado de golpistas civis e militares à paisana, armados todos, já alardeavam e brindavam vitória – foi o que soubemos, contado por um também perplexo tenente, que de lá chegara há pouco.
Voltei, urgente, ao Ministério do Exército, onde encontrei um clima no mínimo estranho; nenhum oficial superior (esclarecendo: de major para cima) – vários deles estavam reunidos no 2o andar – sabia informar (ou ainda não desejava fazê-lo) o destino do Presidente e ou o rumo dos acontecimentos. Olhavam-me (e bem me conheciam): eu, um capitão dos “Dragões”, tropa lá embaixo, em contacto com o Quartel. Não sabiam os conspiradores o que dizer-me, não se atreviam a dar ordens. Talvez nem soubessem, ainda, se estava ou não consumado o golpe. Sussurravam, usavam o telefone. Mas ali, entre generais e coronéis, não se encontravam o Ministro da Guerra (general Jair Dantas Ribeiro, meu ex-comandante no Colégio Militar), os comandantes de Região Militar ou de Exército.
Nenhuma grande autoridade à vista. Muito menos os generais fiéis ao governo. Entro, então, em contacto com meu Regimento, e relato ao coronel Carnaúba o que ocorria, inclusive a sensação, “no ar”, de que aqueles oficiais superiores no Ministério estavam ali para tentar bloquear resistências, inclusive do nosso Regimento, para consolidar o golpe e dar as novas diretrizes. Mas eu, no local, de certa forma perturbava, embora naquele momento me sentisse rigorosamente só. Onde todos, afinal? Até aí, apenas uma sensação. Os fatores constrangimento e a conveniente posição “em cima do muro” – além das dissimulações – hoje bem o sei, influíam também nas indefinições dos oficiais naquele momento ainda de expectativas.
Destino e Livre Arbítrio
Foi quando, bastante preocupados, dois sargentos também de meu Regimento, que foram verificar a nossa guarnição da Casa da Moeda, ali na lateral do Campo de Santana (ao lado do Largo do CACO, mas tudo é Praça da República), pedem-me para ouvi-los. Tinham um comunicado urgente e reservado. Fomos para um corredor, onde, muito tensos, me relatam que, no Largo do CACO (portanto, entre a Casa da Moeda e o Pronto-Socorro Sousa Aguiar), milícias, grupamentos, o que fossem, armados, e com várias viaturas, tinham cercado estudantes, centenas de pessoas (do povo, alguns a caminho da Central do Brasil), que assistiam a espécie de comício dos estudantes do CACO (da Faculdade Nacional de Direito) e da UNE, que, da sacada do prédio da instituição, conclamavam o povo a reagir ao golpe, inclusive com palavras de ordem como “Exército é povo”, “queremos armas”, etc. Os grupos repressores teriam atirado no povo para dispersá-los (o que foi confirmado, a seguir). O povo fugia para o Campo de Santana. Os estudantes se refugiavam na Faculdade. Os repressores apontavam-lhes as armas e ameaçavam jogar granadas de gás lacrimogêneo através das vidraças e janelas do prédio (e o fizeram mesmo) para obrigar os jovens a sair. Segundo o informe, tais grupamentos passaram a apontar suas armas (revólveres e metralhadoras) para a porta da Faculdade, à espera da saída dos estudantes. Enquanto isso, a guarnição do Exército, à frente da Casa da Moeda, baionetas caladas, se limitava a não permitir que o povo se aproximasse dali. Uma confusão geral. Ninguém sabia quem era o quê, nem o que fazer. Enfim e resumindo: quando surgiram os tais Grupamentos de repressão violenta, aos estudantes restou tentar abrigar-se na sede, e ao povo proteger-se atrás das árvores do Campo. Um parêntese: anos mais tarde, ao encontrar (eu aluno, ela professora na UERJ) Lília Lobo – membro hoje do “Grupo Tortura Nunca Mais” – esta me expõe: estava ali no largo e, com o tiroteio, ao invés de correr para o interior da Faculdade, conseguiu escapar para o Campo de Santana. E viu quando cheguei para intervir, antes de escapar do conflito.
Retomando: um graduado nos garantiu que os repressores atiraram para o alto, a seguir na direção do povo, havendo feridos, levados ao Pronto-Socorro. Admito que aquilo ali acontecendo, ao lado do “meu” Ministério, de nossas guardas, foi uma enorme surpresa, antes do mais. Afinal, essa gente do golpe já estava tranquilamente na ofensiva. E nossa intervenção ou, pelo menos, resistência? Onde? Testemunhei, a seguir, boa parte daquele quadro de quase-massacre: correrias, estampidos, gritos. Soube que se tratava de grupos paramilitares (em suas viaturas), órgãos de repressão, inclusive do DOPS (cuja participação, no caso, nunca foi possível confirmar), grupos de ação anticomunistas, etc, cuja audácia chegara ao ponto de encurralar e tentar exterminar centenas de jovens universitários (cerca de 400) que se opunham, apenas em discursos e manifestações, ao golpe.
Imaginem o que se passou na cabeça de um também jovem capitão de Regimento de Guarda, legalista, tropa de elite – em constante contacto com a Presidência da República – diante daquelas cenas tão próximas do “seu” Ministério do Exército. Que certamente deveria manter a tal Ordem constituída, a legalidade. Manteria? Ali, ampliavam-se as dúvidas.
De qualquer modo, resolvi intervir mesmo, desse no que desse. Eram jovens indefesos, alguns nem tão mais moços que eu, inconformados com o rumo de tudo. Foi assim que – acompanhado de uns poucos subordinados, com metralhadoras, mas sabendo ainda que ali, na área do conflito, junto à Casa da Moeda, dispúnhamos de CAC (canhões anti-carro) e Carros de Combate (o popular tanque) – cheguei de jipe ao local, com a máxima presteza.
Só não sabia que, naquele instante, com aquela atitude, começava a mudar radicalmente minha vida, em todos os sentidos. Das 13 horas daquele dia 1o até as 18 horas, tudo aconteceu com uma rapidez incrível e surpreendente. Destino? Fatalismo? Meu livre arbítrio, de qualquer modo, entraria em ação. Até porque, mesmo se não houvesse tal episódio, certamente continuaria a manifestar-me contra o golpe – como já demonstrara em algumas ocasiões – e sofreria alguma forma de punição: transferência, repreensão ou detenção. Mas cassação, cabe revelar, não entrara nunca em cogitações, nas minhas, nem de companheiros legalistas. Mais tarde, soube que, se não aderisse após o golpe, seria cassado. Claro que não aderi.
Ao tomar conhecimento de minha história, amigos militares ou civis logo associam àquela coisa de “hora e lugar certos ou errados”, meio que se rendendo a certas leituras de destinação. Bobagem. As coisas são assim mesmo e, em não poucas ocasiões, caberá sempre livre arbítrio: tem que prevalecer sim. Por outro lado, isso de alguns civis e militares, médicos-legistas, torturadores, jornalistas etc, alegarem que cumpriam ordens (da Ditadura) ou exerciam sua profissão, é um álibi-balela. Cumprir ordem, ou limitar-se ao exercício da profissão, é espécie de destinação, fatalismo, que a vida impõe? Não é não. Livre-arbítrio, sempre uma boa companhia. Isto sim.
O conflito. Massacre frustrado
Àquela altura, a tarde já nublava, chove-não-chove. A seguir, chuva fina.
Chegando urgente ao local do conflito (aquele Largo do CACO), ainda vi algumas pessoas feridas sendo retiradas dali com a ajuda de outros populares. No prédio da Faculdade, vidros e ou janelas quebradas e portão aberto (quem iria fechá-lo sob pontaria?) – por essas aberturas haviam jogado as bombas de gás lacrimogêneo. O saguão de entrada estava todo enfumaçado. Vez por outra, um estudante colocava a cabeça na janela e pedia socorro. Avaliei o poder de fogo das ditas paramilitares, forças repressoras, com viaturas frágeis, kombis, apenas revólveres e velhas metralhadoras.
Mandei um dos subordinados (fardado, claro) advertir que se retirassem da área que estava sob nosso comando militar. De início, não recuaram nem se retiraram. A seguir, alguns deles foram deixando o local, outros permaneceram. Nós, em frente, à distância de uns 50 metros, tínhamos – como lembrei antes – razoável poder de fogo. Só após rigorosa ação, mais de advertência, é que, rápido, se retiraram e, segundo informaram-me, se refugiaram no pátio do Pronto-Socorro ali perto. Não é fato, como se afirma, que chegamos já atirando naquele inimigo. E contam – o que é a versão dos fatos... – façanhas que jamais pratiquei no episódio. O fato é que, isto sim, apontamos na direção deles, as variadas armas de que dispúnhamos no local.
Entrei no prédio, mandando que abrissem todas as janelas e portas, inclusive nos fundos – fumaceira insuportável do gás. Tínhamos as máscaras, mas não foi necessário colocá-las. Havia estudantes já sufocando, na escadaria e no chão. Dr. Walter Oaquim, hoje bastante conhecido, ex-Secretário de Estado, Advogado, Diretor do Flamengo, contou-me que já se preparava para pular do 2o andar dos fundos para o pátio da Rádio MEC, quando cheguei. No banheiro encontravam-se, acuadas, as hoje professoras Maria Helena e Cecília Coimbra. Muitos desses então jovens – hoje encontrando-se comigo – confessam que, quando me viram chegar e postar-me à frente da tropa, logo imaginaram: agora mesmo é que vamos ser executados. E se surpreenderam com o enfrentamento, a fuga dos grupos inimigos (!) e nossa ocupação do prédio.
Aplaudiram-me no salão do 2o andar, menos pelo que fiz e mais por alívio, mas cortei logo as euforias, comunicando que achava estar consumado o golpe, e que iria garantir-lhes a retirada tranquila, de dez em dez, ora pela Rua Moncorvo Filho, ora pelo Campo de Santana, evitando provável nova investida contra eles, preservando-lhes a retirada. Assim fiz por quase uma hora. Meus subordinados os acompanhavam por uns vinte, trinta metros. E, aos poucos, de dez em dez, os estudantes, pelas duas saídas, foram deslocando-se para suas casas, ilesos.
Hoje aí estão emprestando rumo digno às suas vidas. Este, o melhor aspecto de tudo. A seguir, os leitores conhecerão os nomes (não todos, é claro) de alguns daqueles jovens, estudantes da Faculdade de Direito (CACO) e da UNE. Hoje, reitero, são figuras notáveis no cenário brasileiro. Nas homenagens que os estudantes do CACO me vêm prestando todo ano – inclusive nomearam-me generosamente Presidente Perpétuo do CACO, sala e placa alusivas –, sempre lembro que não houve gesto heróico algum. O que deve ser registrado, por importante, é o fato de o Brasil contar com eles hoje, ainda nas lutas por uma sociedade melhor e mais justa. Provou-se que aquilo não era coisa de juventude rebelde (?), de jovens imaturos. Bendita juventude, aliás, aquela.
Eis os nomes de alguns desses jovens – hoje cinquentões ou sessentões – que ali estavam no CACO e com os quais (a maioria) sempre mantemos contacto, principalmente os do Grupo Tortura Nunca Mais: Professora e Psicóloga Cecília Coimbra, Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais.
Professora Flora Abreu, diretora do Grupo Tortura Nunca Mais. Professora Victória Grabois, diretora do Grupo Tortura Nunca Mais. Professora Maria Helena, diretora do Grupo Tortura Nunca Mais. Dr. Walter Oaquim, Secretário do Governo Estadual e vice-presidente do Flamengo F.C. Dr. Brandão Monteiro, Secretário do Governo Estadual. Dr. Celso Soares, advogado. Dr. Oscar Araújo, escritor. Professores César Guilmar, Victor Giudice e Rodolfo Motta Lima. Sr. José Rocha, produtor teatral. Sr. Acir H. da Costa, Funarte. Dr. Moisés Azhenblat, diretor do Teatro Casa Grande. Professor Luís Fernando de Carvalho, assessor do Governo Estadual. Dr. Alexandre Addor, Diplomata. Sr. Francisco das Chagas Monteiro, o Frank, ator e produtor de teatro, o Chiquinho do CPC.
A sucinta listagem acima foi feita por ocasião da pesquisa/entrevista de alunos de Comunicação da FACHA. Já se passaram muitos anos. Alguns dos citados já morreram, a maioria ocupa outros cargos ou segue outros projetos e ou se aposentou. Permanece o espírito de todos, sem esmorecimento, na certeza de que, jovens, já vislumbraram que era preciso desempenhar um papel digno, espécie de missão, profissão-de-fé, ao longo de sua existência. Muito distante, assim, daquela pregação reacionária, conveniente e preconceituosa, em torno de que “os jovens são assim mesmo”, “isso passa, vão se aburguesar logo”. “Coisa de juventude rebelde”. Esse rebelde é muito injusto, intuindo um inconformismo da idade, “fogo de palha”. Não foi não. O único mérito de minha ação reside no fato de poder constatar: aquela era, e é, uma brava gente brasileira.
Encerrado o episódio e tendo eu garantido a retirada dos estudantes do local, ao regressar ao Ministério do Exército naquela tarde do dia 1o de abril, imediatamente fui preso e enviado, por lancha, para a primeira prisão (Fortaleza de Santa Cruz) e, a seguir, para a prisão do Forte Imbuí, onde fiquei isolado. E a cassação não tardou. Ali iniciavam os 20 anos de repressões e perseguições.


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Este texto encontra-se na página 90 do livro "68 a geração que queria mudar o mundo relatos”, organizado e editado por Eliete Ferrer e publicado no Projeto Marcas de Memória, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça em 2011, na Presidência de Paulo Abrão.
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