“A nossa bandeira jamais será vermelha”, bradavam alguns em recente
tempo passado, como se ainda vivêssemos na Guerra Fria. As cores de nossa
bandeira foram resignificadas com a proclamação da República em 1889. No
Império, o amarelo era símbolo da Casa de Habsburgo, origem da imperatriz
Leopoldina, e o verde a cor da Casa de Bragança, dinastia a que pertencia D.
Pedro II. Os que bradavam o lema contra o vermelho apenas não sabiam que ele,
na bandeira de diversos países, expressa o sangue derramado nas lutas pela
construção dos direitos dos respectivos povos.
Várias bandeiras de estados federados brasileiros ostentam o vermelho em
homenagem aos que tombaram em luta pela construção dos direitos individuais,
sociais e pelas liberdades públicas. Ninguém jamais pretendeu alterar as cores
da nossa bandeira. Mesmo a primeira bandeira republicana, que tinha o formato
listrado da dos Estados Unidos, era verde e amarela.
Mas, no presente momento talvez devêssemos colocar uma tarja preta na
bandeira brasileira ou, mantidas as formas geométricas que a compõe, ser
totalmente exposta na cor preta. Seria um gesto de humanidade, solidariedade e
luto pelas mais de 300 mil vidas que foram ceifadas em decorrência das
calamitosas opções governamentais durante a pandemia do coronavírus que nos
assola.
Não foi falta de aviso. Cientistas, infectologistas e outros
profissionais competentes nos indicaram os caminhos a seguir. Mas, houve opção
política pela cloroquina, ivermectina, azitromicina e por um general no lugar
de um profissional da área de Saúde. A insanidade que norteou as opções foi
perversa, embora disfarçada de crendice. Optou-se por um tipo de imunização com
sacrifício de vidas humanas.
Dentre os principais meios de imunização estão a vacinação e a
contaminação em massa. O método da imunização do rebanho pela contaminação
implica em deixar um vírus circular livremente para que, rapidamente, o maior
número de pessoas se infecte e os que sobreviverem estejam imunizados. Trata-se
de um método desumano, pois implica no sacrifício dos mais vulneráveis. O outro
método científico, humano, solidário e fraterno implica na preservação das
pessoas até que se obtenham vacinas e todos possam, vacinados, voltar à vida
social.
O governo brasileiro optou pela imunização do rebanho pela contaminação,
ainda que tal processo implicasse a perda da vida dos idosos e das pessoas com
comorbidades. A imprensa noticiou que uma diretora da Susep teria saudado
este método, pois aliviaria o déficit das contas da Previdência Social. Outros
apontaram que a desejada morte de pessoas com comorbidades aliviaria as
despesas do SUS.
É desumano o que fazem com o povo brasileiro. Nossa história registra
similar descaso com a vida humana. Em 1918, sofremos um surto da gripe
espanhola, originária dos Estados Unidos. Em razão da primeira Guerra Mundial,
de 1914 a 1918, o mundo perdeu dez milhões de vidas. Mas, em 1918, em poucos
meses, morreram 50 milhões de pessoas em decorrência da gripe espanhola.
No Brasil, um dos mortos foi o presidente eleito Rodrigues Alves. Em
seu lugar assumiu o vice Delfim Moreira. Mas, por incapacidade mental e
impossibilidade de gerir a crise, foi impedido de continuar a presidência. Seu
governo durou apenas nove meses. Mas, foi tempo suficiente para possibilitar a
difusão da pandemia. Com explicações místicas e negacionistas, incentivou o
Carnaval de 1919, promovendo segunda onda da pandemia. O presidente Rodrigues
Alves, que governara o Brasil de 1902 a 1906 acreditava na Ciência e em 1904
autorizou Oswaldo Cruz a promover campanha de vacinação, o que levou
oportunistas e negacionaistas a incentivarem o povo a uma rebelião conhecida
como a Revolta da Vacina.
O governo ignorou, em agosto de
2020, oferta da Pfizer de 70 milhões de doses de vacina para entrega em
dezembro. Igualmente ignorou ofícios do Instituto Butantan, de julho, ofertando
60 milhões de doses ainda em 2020 e 100 milhões para 2021. Mais de 300 mil de
vidas já se foram. Outras milhares de vidas ainda poderão ser sacrificadas. Uma
CPI que apure tais ocorrências poderá levar os responsáveis ao Tribunal Penal
Internacional, por crime contra a humanidade. Estamos de luto! E precisamos
exigir responsabilização!
Publicado originariamente no jornal O DIA, em
27/04/2021. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2021/03/6113322-joao-batista-damasceno-mais-de-300-mil-mortos-brasil-de-luto.html