sábado, 13 de julho de 2024

Conservadorismo brasileiro: Dos grotões ao meio urbano

 

O pensamento médio brasileiro é o que vem do sertão. Quem o percebeu foi Guimarães Rosa. Na metade dos anos 50 do século XX o meio intelectual e cultural fervilhava com a arquitetura moderna, Oscar Niemeyer, a Bossa Nova, a indústria automobilística e com um presidente que a tudo isto apoiava e enunciava um Brasil novo. Era o presidente Bossa Nova Juscelino Kubitscheck. Mas outro Brasil contrastava com aquele urbano, moderno, ‘civilizado’ e cheiroso que se apresentava na televisão recentemente introduzida nos lares. O Brasil arcaico insistiu em seu desejo de permanência e Guimarães Rosa o descreveu em Grandes Sertões: Veredas, publicado no mesmo ano da posse daquele presidente. Este Brasil que não era litorâneo, nem cosmopolita já o havia descrito Euclides da Cunha, Oliveira Vianna e Victor Nunes Leal.

A migração de parcela da população interiorana para centros urbanos não implicou mudança de valores. A consciência conservadora migrou dos grotões para a periferia dos centros urbanos, mas não perdeu sua essência; teimou em sua permanência associada à religiosidade, agora com novos padrões. Num país periférico temos uma massa que vive na periferia do que há de bom para alguns. Seus valores e crenças permanecem nesta parcela da sociedade brasileira, à margem das novas relações que se estabelecem no mundo globalizado. O desenvolvimento tecnológico lhe deu novos meios para se conectar, difundindo fake News, com maior capacidade de divulgação antes limitadas a boatos paroquianos. Na defesa da pauta de costumes, que é assunto da sociedade e não do Estado, elege quem enche os bolsos com emendas secretas. O analfabeto político, mas eloquente, participa do processo com o “galo na testa” e inimizade com vizinhos e familiares, para mostrar a fidelidade aos seus “valores”. “Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo”, nas palavras de Bertold Brecht.

O conservadorismo se apropria de meios contemporâneos de tecnologia indispensáveis para sua permanência e constitui a modernidade conservadora que reage e se impõe de vez em quando. A Consciência Conservadora no Brasil é título de livro clássico de Paulo Mercadante, de cuja falta devemos ressentir. Entender o Brasil profundo, não apenas da periferia, mas também dos grotões, é fundamental para quem almeja comunicar-se com ele. A Zona Sul do Rio de Janeiro e os Jardins em São Paulo têm relevância social e concentram significativa parcela da riqueza nacional, mas a decisão sobre o destino do país não se limita a estes espaços privilegiados. A “Faria Lima” tem poder de pressão sobre as opções governamentais e políticas a serem implantadas. Mas há poder de decisão na periferia e grotões onde um trabalhador precarizado se acha “empreendedor” e um micro proprietário rural se acredita parte do agrobusiness, sem saber que o mundo do agronegócio é feito de commodities negociadas nas bolsas de valores dos países centrais do sistema internacional.

O Brasil profundo não se intimida com a modernidade e a racionalidade e elege os seus expoentes, incultos e iletrados, mas representativos dos valores que lhe são próprios. O voto é apenas uma expressão das relações sociais sedimentadas e que não se dobram aos valores da civilidade. Parcela da intelligentsia, autoproclamada vanguarda intelectual, que se considera progressista por defender pautas politicamente corretas financiadas por instituições internacionais de fomento, é incapaz de compreender a força deste reacionarismo enraizado. Seus discursos não contemplam os interesses concretos da massa.

Na República Velha, na posse da terra o coronel assentava seu domínio. É a constituição da propriedade fundiária privada o que ainda sustenta o poder nos grotões, ameaçando comunidades indígenas e quilombolas. Enquanto houver terra devoluta e riqueza natural a ser expropriada a expansão das fronteiras não cessará. Sem um programa de reforma agrária, que possibilite o aumento do número de proprietários e que limite o tamanho das propriedades, os donos do Brasil se fortalecerão. O latifúndio não é pop. Nos centros urbanos a questão da moradia está subordinada ao capital imobiliário especulativo.

Para governar, o Príncipe dos Sociólogos se rendeu e teve que barganhar. O atual presidente idem. A presidenta Dilma acreditou-se acima dos interesses concretos da bancada fisiológica e, demasiadamente, confiou na força das instituições e na sua integridade moral que nada serve no embate dos interesses inconfessáveis. O conservadorismo ameaça com o semipresidencialismo a fim de assumir o poder institucionalmente. Trata-se de mais um golpe, pois desconsidera o valor do plebiscito e da democracia direta. A sociedade brasileira já foi ouvida sobre a questão e escolheu o presidencialismo. Mas nem sempre o povo assiste bestializado, como descreveu Aristides Lobo, por ocasião do golpe militar que proclamou a República. Às vezes o povo reage, tomando decisões até mesmo contrárias aos seus interesses, cavando a própria sepultura pensando estar em busca de ouro.


Publicado originariamente no jornal O DIA, em 13/07/2024, pag. 12. Link; https://odia.ig.com.br/opiniao/2024/07/6881016-joao-batista-damasceno-conservadorismo-brasileiro-dos-grotoes-ao-meio-urbano.html

 


terça-feira, 2 de julho de 2024

MACHADO DE ASSIS: TALARICAGEM, CATARSE OU FAKE NEWS? ESTE É O ENIGMA!

 

O primeiro clássico da literatura brasileira que li foi A Moreninha. Ainda pré-adolescente minha mãe o entregou-me e explicou como se lê um livro. Primeiro o título e nome do autor. Depois as orelhas e contracapa, se tiver. Em seguida os dados sobre a edição, o sumário, a apresentação e o prefácio. Situado sobre o que se tem na mão começa-se a leitura. O livro tinha a biografia de Joaquim Manuel de Macedo apresentada por M. Cavalcanti Proença e prefácio de Raquel de Queiróz. Era um livro de bolso da Ediouro. Guardo-o como se guarda uma relíquia. Fiquei encantado com quem escrevera a biografia. Julguei ser alguém que sabia tudo de literatura, tudo sobre a obra e tudo sobre o autor. Não me enganei. Mais tarde soube que era o professor, literato e General Manuel Cavalcanti Proença, que introduziu o estudo de literatura na Academia Militar/AMAN, matéria suprimida depois do golpe empresarial-militar de 1964.

Quando conheci seu filho, o professor, literato e Coronel Ivan Cavalcanti Proença, cassado pela ditadura por seu legalismo, falei da admiração que sempre tive por seu pai, desde sempre. E pude conversar com ele sobre a mais clássica polêmica da literatura brasileira: o possível adultério de Capitu. Ivan Proença analisa sob o olhar de um crítico literário e afasta qualquer conclusão ou relação com a realidade. Para ele a obra de Machado de Assis tem a característica do enigma e, portanto, não faz sentido tentar chegar a uma conclusão. É um enigma e ponto, tal como o é o estilo machadiano!

Nesta semana chegou-me às mãos um livro usado editado pela Nova Fronteira, em 2008, intitulado “Quem é Capitu?”. Organizado por Alberto Schprejer, textos de quatorze notáveis tentam responder à pergunta: Luis Fernando Veríssimo, Lya Luft, Luiz Fernando Carvalho, Lygia Fagundes Telles, Mary Del Priore, Fernanda Montenegro, Silviano Santiago, John Gledson, Roberto DaMatta, Gustavo Bernardo, Luiz Alberto P. de Freitas, Daniel Piza, Otto Lara Resende e Carla Rodrigues.

O texto do Otto eu o lera quando publicado na Folha de S. Paulo, em 1992. Eu era leitor do Otto e senti sua morte como de alguém com quem tivesse convivido pessoalmente. Substituiu-o na coluna da Folha Carlos Heitor Cony, que também escreveu sobre Capitu, mas não foi incluído no livro. Custei acostumar ler a coluna do Cony, tendo sempre o Otto como referência da primeira leitura depois do café da manhã.

Muitos outros autores e textos poderiam ser incluídos na obra, além de Cony. Não faltam polemistas quando se trata da obra, notadamente depois do livro “O Enigma de Capitu”, de Eugênio Gomes, de 1967. Aparentemente até o surgimento desta obra era certo o adultério de Capitu. Este livro foi quem trouxe a dúvida. É o que escreveu Dalton Trevisan, com quem concordou Otto Lara Resende.

As conclusões dos autores da obra são diversas.

Fernanda Montenegro não reconhece o adultério, nem o nega. Sua compreensão da relação está em consonância com aqueles que acreditam Bentinho seja tal como Otelo e escreve: “Os olhos mostram o que desejamos ver por meio deles. É sempre também o reflexo, a projeção de quem olha. (...) Bentinho descreve seu próprio olhar, olhando Capitu”.

Luiz Fernando Carvalho não responde à pergunta e retoma a questão do enigma surgido a partir de 1967 e diz que “O benefício da dúvida que Santiago acaba por nos conceder com seu relato é que finda sendo sua verdadeira redenção”. Mas ao afirmar que “as omissões – propositadas ou apenas falha de memória – nos fazem intuir que algo parece sempre fora do lugar”, permite uma interpretação equivalente à que deu Luiz Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes, descritas adiante.

Mary Del Priori é enfática: “Capitu traiu pois Bentinho conhecia a regra das Escrituras e não a exerceu com competência: ‘Vós maridos, coabitai com vossas esposas’. Em resumo, se Capitolina não dormia, é porque Bento, seu marido, adormecia de cansaço”. Tal como numa “tragédia de costumes” rodriguiana seria Bentinho que haveria de pedir à Capitu perdão por ser corno.

A crônica de Gustavo Bernardo é narrada por Simão Bacamarte, que acaba por internar todos na Casa Verde de Itaguaí, inclusive o próprio Machado de Assis, convertido em personagem de suas obras.

Carla Rodrigues, numa sofisticada narrativa fundada em Freud, Derrida, Lacan e Nietzsche, se aproxima da discreta narrativa de Luiz Fernando Carvalho, que igualmente identifica algo fora do lugar: “Os deslocamentos se multiplicam aqui: Machado desloca o privilégio da feminilidade de Capitu e faz aparecer também em Bento/Casmurro. (...). A feminilidade se transforma no elemento traiçoeiro: das verdades asseguradas, das certezas definitivas, da estabilidade. É com esse feminino que Bentinho se depara, primeiro em Capitu, depois em sua própria reconstituição narrativa: o feminino que indica a ausência de certezas em que se apoiar, o feminino da instabilidade e da impossibilidade de chegar à verdade”. A leitura de Carla Rodrigues tem por referência sobretudo a obra de Helen Caldwell, O Otelo brasileiro de Machado de Assis.

Lya Luft admite o enigma e diz que “não sei o que de verdade houve, não sei qual é a verdadeira Capitu, nem se tive (sic) esse romance ou se aquilo tudo existiu, provavelmente não saberei nunca”.

 Silviano Santiago absolve Capitu: “Instado a dizer quem é Capitu, respondo: Capitu é o ciúme – ou seja, é a malícia de Dom Casmurro; é a ‘regra de composição’ do romance machadiano. (...) O ciúme é o esterco literário de Capitu, garantia de seu florescimento em mulher secreta ou enigmática, pouco importa”.

John Gledson igualmente coloca Capitu numa posição de passividade, incapaz de optar seja pelo adultério, seja por um dos personagens. Diversamente de Virgília, personagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas que faz expressa opção pelo casamento e pelo adultério, Capitu teria sido incapaz de qualquer opção. Deixou a vida levá-la. “... as mulheres de Machado frequentemente ‘optam por não optar’; no caso de Virgília, isto significa ter um casamento feliz e um adultério feliz ao mesmo tempo, ou usar a religião como uma veste, uma roupagem interior, aconchegante, mas que não é para ser vista de fora. No caso de Capitu, a frase tem outro significado: seria possível argumentar que, mais corajosa e de uma classe social diferente da de Virgília, ela de fato tenta optar, fazer a escolha, mas acaba, fatalmente para ela, por ser forçada a não optar, a aceitar uma solução de meio-termo em que nenhuma das questões reais envolvidas no seu casamento não trazidas à superfície”.

Otto Lara Resende escancara a denúncia do adultério de Capitu. Tratando em crônica na Folha de S. Paulo, em 08 de janeiro de 1992, de uma questão do vestibular de uma universidade paulista, afirma categoricamente que “a hipótese aí estampada, de que Capitu não traiu Bentinho, um Bentinho paranoicamente ciumento qual Otelo, está fundamentada em “O enigma de Capitu”. Apareceu de fato no ensaio de intepretação de Eugênio Gomes, publicado em 1967. (...) Dom Casmurro saiu em 1900. Machado morreu em 1908. Nenhum crítico nesses oito anos jamais ousou negar o adultério de Capitu. Leiam a carta do Graça Aranha, amigo pessoal do Machado: ‘Casada, teve por amante o maior amigo do marido.’ Voltem ao artigo de Medeiros e Albuquerque. Dar o Bentinho como ‘o nosso Otelo” é pura fantasia. Bestialógico mesmo”.

Luis Fernando Veríssimo se manifesta por meio de um personagem, que é detetive particular, contratado por Bentinho para descobrir o que faz Escobar e narra: “Juro que uma vez os vi, num momento descuidado, de mãos dadas, o que me pareceu natural entre colegas de tantas coisas”. Na sua atividade profissional de investigador viu Escobar entrar com uma mulher “num quarto alugado por horas e ocupado por duas” e não fez constar do relatório entregue ao cliente “o nome de quem acompanhava Escobar no quarto sórdido da Lapa. Era d. Capitu”. Mas o que deveria ser um encontro entre os quatro para esclarecer a situação revelou-se trágico:

Na hora acertada, cheguei à praia, onde já estavam os dois ex-seminaristas. Escobar lia o meu relatório. Com dificuldade, pois sobrara pouca luz do pôr do sol. Só levantou a cabeça para me olhar quando terminou a leitura. Sacudiu o relatório e disse:

- A mulher que estava comigo não está aqui.

Comecei a responder, mas Bentinho me interrompeu.

- Não interessa quem era a mulher.

- Como, não interessa?

Fui eu que fiz a pergunta, espantado. Não interessava que a mulher era a d. Capitu?

- O que interessa – continuou Bentinho – é que você me traiu.

Levei alguns segundos para entender. A alegoria moral não era bem a que eu esperava. Bentinho ainda estava falando.

- Essa mulher é só uma. Você dever ter me traído com muitas”.

Millôr Fernandes não fez por menos. Além de afirmar o adultério ainda descreve cenas das quais resultam a conclusão de uma relação homoafetiva entre os dois ex-seminaristas:

PUBLIQUEI, ATRAVÉS DE ANOS, no Estadão, no O Dia e no Jornal do Brasil – ao todo aproximadamente dois milhões de exemplares -, ‘pesquisa” sobre Dom Casmurro, a obra magna de Machado de Assis. Como minha página era a capa exterior dos jornais citados, e o assunto era picante – se Escobar, ‘herói’ do romance, tinha ou não tinha comido a Capitu, eterna e tola discussão entre beletristas -, devo ter alcançado pelo menos cem mil desprevenidos. Bom, não apenas mostrei que Escobar comeu a Capitu, como, não sei não, acho que tirei Dom Casmurro do ‘armário’.”.

Luiz Alberto Pinheiro de Freitas deixa em suspensa a possível infidelidade de Capitu, ainda que afirme que “havia sido criada uma propensão ao encantamento de Capitu por Escobar, em virtude da fragilidade de Bento e das qualidades de Escobar”. Igualmente aponta o encantamento de Bentinho por Escobar: “Contudo, com um pouco mais de certeza, poderemos interpretar que o ciúme delirante de Dom Casmurro fala, como mostrou Freud, muito mais do seu desejo por Escobar do que do desejo por Capitu. Então horrorizado diante de sua paixão homossexual, ele poderia dizer: Eu, Bento, não amo Escobar; é ela, Capitu, quem o ama – ao que o psicanalista responderia: bela denegação!”.

Roberto DaMatta faz coro com a Eugênio Gomes: “A proeza de Machado de Assis foi transformar um drama cultural num enigma. Se nos adultérios comuns há sempre uma culpada, neste há mistério”.

 Daniel Piza igualmente coloca em questão os comportamentos de Bentinho: “Numa cena que também poderia ser de uma história romântica, Bento até espera um último aceno de Escobar antes de dobrar a esquina” e  quando Ezequiel reaparece: “Depois diz que fará uma viagem científica à Grécia, Egito e Palestina com dois amigos. Bento Pergunta: ‘De que sexo?’. O filho responde que as mulheres são da moda, não entendem ruínas.”

Por fim, Lygia Fagundes Telles, também no sentido da incerteza: “E daí, houve mesmo a traição? Olhei-o nos olhos e respirei fundo. Ah! Confesso que não sei, não sei. É tudo misterioso como aquele mar acima de qualquer suspeita com suas ondas espumejantes arrebentando nas pedras”.

Muitos literatos escreveram sobre a obra. Em publicação na Folha de S. Paulo de 28 de março de 1999 temos os seguintes trechos de textos ou depoimentos:

José Veríssimo: "(‘Dom Casmurro’ trata de) um homem inteligente, sem dúvida, mas simples, que desde rapazinho se deixa iludir pela moça que ainda menina amara, que o enfeitiçara com a sua faceirice calculada, com a sua profunda ciência congênita de dissimulação, a quem ele se dera com todo ardor compatível com o seu temperamento pacato." ("História da Literatura Brasileira").

Lúcia-Miguel Pereira: "Capitu, se traiu o marido, foi culpada ou obedeceu a impulsos e hereditariedades ingovernáveis? É a pergunta que resume o livro. (...) Há a ideia central de saber se Capitu foi uma hipócrita ou uma vítima de impulsos instintivos. Em outras palavras, se pode ser responsabilizada." ("Machado de Assis").

Augusto Meyer: "Capitu é o melhor exemplo daquilo que Bentinho afirmava, a propósito de si mesmo: "Chega a fazer suspeitar que a mentira é, muita vez, tão involuntária como a transpiração". Capitu mente como transpira, por necessidade orgânica." ("Capitu", em "Textos Críticos").

Antonio Candido: "Dentro do universo machadeano, não importa muito que a convicção de Bento seja falsa ou verdadeira, porque a consequência é exatamente a mesma nos dois casos: imaginária ou real, ela destrói sua casa e a sua vida." ("Esquema de Machado de Assis", em "Vários Escritos").

Antonio Callado: "Respeitemos um dos dogmas da nossa literatura, que é o da maculada conceição do filho de Capitu com Escobar. Cultuemos a sua infidelidade e não afastemos de nós a negra inveja que sentimos de Escobar." (Na Folha, em 12/10/1994).

Dalton Trevisan: "Até você, cara - o enigma de Capitu? Essa, não: Capitu inocente? Começa que enigma não há: o livro, de 1900, foi publicado em vida do autor - e até sua morte, oito anos depois, um único leitor ou crítico negou o adultério?" (Na Folha, em 23/5/92).

Roberto Schwarz: "("Dom Casmurro') solicita três leituras sucessivas: uma, romanesca, onde acompanhamos a formação e decomposição de um amor; outra, de ânimo patriarcal e policial, à cata de prenúncios e evidências do adultério, dado como indubitável; e a terceira, efetuada a contracorrente, cujo suspeito e logo réu é o próprio Bento Santiago, na sua ânsia de convencer a si e ao leitor da culpa da mulher. Como se vê, uma organização narrativa intrincada, mas essencialmente clara, que deveria transformar o acusador em acusado. Se a viravolta crítica não ocorre ao leitor, será porque este se deixa seduzir pelo prestígio poético e social da figura que está com a palavra." ("A Poesia Envenenada de Dom Casmurro", em "Duas Meninas").

Em artigo na Folha de S. Paulo, em julho de 1999, Carlos Heitor Cony, também da Academia Brasileira de Letras, depois de ter sido testemunha de acusação num julgamento simulado que teve o ex-ministro do STF Sepúlveda Pertence como presidente do júri, sentenciou: “Capitu traiu o marido. Nem por isso merece ser condenada. Entre os moradores da rua Cabuçu que condenavam o Pires por adulterar o leite, e o Cristo que perdoou a adúltera, fico mesmo com o Cristo”.

As três propostas de leitura de Dom Casmurro feitas por Roberto Schwartz estão presentes nos textos da publicação que me chegou às mãos: romanesca, patriarcal-policial e a leitura contracorrente, retirando o holofote sobre Capitu e direcionando-o para Bentinho, tal como sugerem escancaradamente Otto Lara Resende, Luiz Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes, e – sofisticadamente – Luiz Fernando Carvalho, Carla Rodrigues, Luiz Alberto Pinheiro de Freitas e Daniel Piza.

Mas e se a obra for autobiográfica e Machado a tiver escrito como um mea culpa ou catarse, explicitando o que não poderia dizer publicamente e às claras? Há criminosos que decorridos tempos de seus delitos procuram autoridades e relatam o que cometeram, sem o que jamais se saberia sobre a autoria do delito. Trata-se de modo de se liberar de algo que aflige; que se pensa sobre alguma situação ou pessoa. A catarse em tal caso é compreendida como um desabafo e, assim, a pessoa experimenta um estado de alívio por ter posto para fora o que lhe atormentava.

Machado de Assis era gago e epilético. Eventual desconforto na alma poderia lhe corroer, também, neurologicamente. Há argumentos e fatos defensáveis de acordo com a preferência do interlocutor. Talvez, também por isso, a obra e a vida do autor sejam interessantes.

Antonio Carlos Villaça transpõe a literatura para a realidade. Assim, a obra deixa de ser romance e assume a natureza de crônica. Diversamente de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, que foram anteriormente publicados, capítulo por capítulo, em folhetins, Dom Casmurro foi escrito na forma definitiva de livro, no vigésimo aniversário da morte do amigo José de Alencar, ou seja, de 1897 a 1898. É dele a afirmação: “Teria Machado como inspiração dona Georgiana, a inglesinha, a mulher de Alencar, tão sua amiga, que ele conhecia intimamente. Era grande frequentador da casa de Alencar. E, quando este morreu prematuramente, aos quarenta e oito anos, em 1877 teve o maior choque de sua vida. Um choque tremendo. Ficou doente. Foi para Friburgo. Nunca a morte lhe causou uma impressão tão profunda. Continuou amigo de Mário de Alencar. Jantava com ele aos domingos, na casa de Botafogo. E ia vê-lo diariamente na Biblioteca da Câmara. Era como um filho. Dom Casmurro é um romance que se inspira na vida, na vida real. Num drama existencial. ‘Consolava-os a saudade de si mesmos’, como escreveu no Memorial de Aires”.

Villaça foi direto e objetivo ao afirmar não só a relação entre Capitu e Escobar, do qual resultou o infante Ezequiel, como subtrai a obra do campo da criação literária e a coloca como narrativa da realidade. Para ele a obra é biográfica e Machado de Assis tinha um caso com a mulher do amigo José de Alencar.

Machado de Assis fundou a Academia Brasileira de Letras e ocupou a cadeira nº 23 cujo patrono é seu amigo José de Alencar, instituidor da literatura brasileira. Alguns dos autores do livro que acabo de ler foram ou são membros da ABL. Nenhum deles negou a infidelidade de Capitu. Três foram as categorias de respostas à pergunta: Capitu traiu Bentinho, a obra é uma narrativa de um marido ciumento e paranoico e a terceira categoria na qual estão Otto Lara Rodrigues, Luiz Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes: O affair era entre Bentinho e Escobar.

Para Antonio Carlos Villaça, Machado de Assis era um Talarico, gíria que expressa quem tenta ou tem relacionamento com mulher de um amigo ou conhecido; é o fura-olho.

Além de transar com a mulher do amigo, Machado de Assis teria tirado da sua experiência pessoal o fio condutor do mais celebrado romance da literatura brasileira.

Machado nasceu em 1839 e seu melhor amigo era José de Alencar, 10 anos mais velho, filho de um padre. José de Alencar foi casado com Georgiana  Augusta da Gama Cochrane, (Georgiana Cochrane Alencar, depois de casada), 17 anos mais jovem que o marido, com quem teve seis filhos, dois homens e quatro mulheres: Augusto Cochrane de Alencar, Elisa Cochrane de Alencar, Clarice Crochrane de Alencar, Mário Cochrane de Alencar, Cecy Cochrane Pinto Alencar Alves e Adélia Cochrane de Alencar.

Quando José de Alencar morreu em 1877, Georgiana, a Inglesinha, tinha 31 anos e seis filhos. Machado de Assis tinha 38 anos. Mas só o órfão Mário de Alencar, nascido em 1872, “era como um filho” para Machado de Assis. E foi por toda a vida, tendo ingressado na Academia Brasileira de Letras em 1905, tornando-se desde logo figura de relevo na sua administração.

Foi Humberto de Campos em seu Diário Secreto quem possibilitou a difusão da história de que Mário de Alencar poderia ser filho de Machado de Assis, oportunizando a interpretação de que José de Alencar, filho de padre, era o Bentinho; Machado de Assis, o Escobar; Georgiana Cochrane, a Capitu e Mário de Alencar (M. de A.), o Ezequiel. Mas outro M. de A., que também era querido de Machado de Assis, pode ser o Ezequiel. E o próprio Humberto de Campos faz a confusão.

Realizando pesquisa para sua tese de doutorado, a historiadora literária Mara Cristina Vergueiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), disse ter confirmado a existência do que desde a publicação dos Diários Secretos de Humberto de Campos se tornou tema de especulação pública: o affair de Machado de Assis com a mulher de José de Alencar. A prova seria um romance inédito de Machado de Assis intitulado Georgiana.

A tese é controversa. O doutor em Letras Domício Proença Filho, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, acredita que é preciso cautela antes de atribuir tal romance ao escritor: “É um estilo ousado, transgressor e atirado demais para o próprio Machado”, observa. “Ele até chegou a cometer lá seus desvios de estilo, mas só quando era mais novo. Não acredito que ele tenha sido capaz duma prosa tão atrevida com Georgiana, mulher de seu grande amigo e patrono na ABL”.

O professor Castelar de Carvalho, autor do Dicionário de Machado de Assis e membro da Academia Brasileira de Filologia diz que “Machado era zeloso das tradições. Sempre foi conhecido por prosas corretas e estilo sóbrio. Por que querem lhe atribuir agora esse romance adúltero, com vícios e impurezas?”.

Não faltam dentre os que afirmam a infidelidade de Capitu a relação com Georgiana Cochrane, a Inglesinha, mulher do amigo José de Alencar. Os dois que mais enfaticamente relacionaram a obra com a realidade foram Humberto de Campos e Antonio Carlos Villaça. Este foi contundente.

Em agosto de 1999 Carlos Heitor Cony apareceu com outra possibilidade e escreveu na Folha de S. Paulo:

“Tornou-se um lugar-comum crítico: Machado de Assis jamais colocou em seus romances qualquer elemento autobiográfico. Recentemente, no centenário de ""Dom Casmurro", houve uma enxurrada de celebrações e estudos, a ninguém ocorreu que o caso de Capitu podia ser confessional.

“Conto o que li em diários e crônicas daquele tempo, mantendo as iniciais por conveniência, há parentes vivos da pessoa em questão.

“Todos sabiam da amizade filial de Machado por M. de A. - simples coincidência nas iniciais. Ao fundar a Academia, indicou-o como membro da primeira leva, o rapaz tinha então 20 e tantos anos, um único livro sem valor. Fisicamente, tinha traços de Machado, a mesma testa, o mesmo cabelo crespo, alguns tiques iguais.

“Indo a um médico, por causa desses tiques, teve diagnosticada a epilepsia – doença hereditária que tanto maltratara Machado. Tão discreto quanto o autor de ""Helena", viveu na sombra, passou anos fora do Brasil. Ninguém entendia o amor que Machado tinha por ele. Ninguém entendia como os dois poderiam ser tão parecidos fisicamente.

“Dos membros fundadores da Academia foi o último a morrer.

“Não fora a excepcional amizade de Machado, teria sido apenas um diplomata a mais.

“Foram pouquíssimos os contemporâneos de Machado que notaram, nele, a mesma coincidência do filho de Capitu, que se parecia com o amante dela e não com o pai do rapaz. Há testemunhos disso: o médico Afonso Mac-Dowell, que cuidava de vários acadêmicos, e Goulart de Azevedo, que contou a história a Humberto de Campos.

“Sendo verdadeira a suposição, fica encerrada a questão do adultério. O amante de Capitu era o próprio Machado”.

A discrição de Cony em nada ajuda a manter o anonimato do membro da ABL que seria M. de A., filho de Machado de Assis, sem que o seja Mário de Alencar. A revelação apenas afasta a relação de Machado de Assis com Georgiana Cochrane Alencar, a Inglesinha.

Cony diz que o filho de Machado de Assis tinha 20 e tantos anos, as iniciais do nome eram M. de A., foi um dos fundadores da ABL, dentre todos eles o último a morrer e que fora diplomata. A ABL foi fundada em 1897 e Mário de Alencar somente nela ingressou em 1905. Portanto, com esta descrição M. de A. não seria Mário de Alencar.

Dos 40 fundadores da Academia Brasileira de Letras apenas quatro poderiam usar as iniciais M. de A., sendo um deles Machado de Assis.

Antônio Mariano Alberto de Oliveira tinha mais de 30 anos quando a ABL foi fundada, mas era conhecido como Alberto Oliveira e se usasse o nome Mariano Alberto poderia ser M. A. Jamais M. de A.

Oliveira Lima e Graça Aranha tinham menos de 30 anos quando da fundação da ABL, mas suas iniciais não se compatibilizam com a descrição do Cony.

O outro é Carlos Magalhães de Azeredo. Nascido em 1872 tinha apenas 25 quando da fundação da ABL.

M. de A. poderia não ser Mário de Alencar, mas Magalhães de Azeredo.

De todos os fundadores apenas um, Carlos Magalhães de Azeredo, tinha pouco mais de 20 anos e viveu até a década de 60 do século passado. Em verdade não foi um fundador. Mas um dos dez convidados pelos trinta fundadores para formar o quantitativo de quarenta, tal como a Academia Francesa.

Carlos Magalhães de Azeredo era filho póstumo de Caetano Pinto de Azeredo (morto três meses antes de seu nascimento) e de D. Leopoldina Magalhães de Azeredo. Capitu pode ter sido inspirada em D. Leopoldina.

Apesar de toda a especulação, Cony termina o artigo com uma frase enigmática: “Sendo verdadeira a suposição....”.

A imputação é séria e há descendentes das distintas senhoras que podem se incomodar com tal correlação. Cony viveu até 2018 e apesar da descrição de quem poderia ser, não foi incomodado pelos parentes de M. de A.

Humberto de Campos e Antonio Carlos Villaça cuidaram de morrer antes que suas obras, que tratavam do tema, fossem publicadas.

Até 28 de março de 2005 o adultério era tipificado como crime no Brasil e a imputação falsa a pessoa, mesmo morta, poderia configurar crime de calúnia. Dos crimes contra a honra (injúria, difamação e calúnia) somente o último é punível no Brasil. Mas podem restar incômodos pessoais aos sucessores da Inglesinha ou do “Filho do Padre” José de Alencar, como o chamava D. Pedro II, ou aos descendentes da mãe do jovem fundador da ABL. Este talvez seja outro enigma porque os que fazem a relação com a realidade não o façam categoricamente, como o fez Antonio Carlos Villaça

Villaça morreu em 29 de maio de 2005, dois meses após a descriminalização do adultério, mas antes da publicação d’O Livro dos Fragmentos. Nem precisava ter morrido. Já não se poderia alegar imputação de fato criminoso à morta e não poderia ser acusado de calunia.

Dois outros triângulos amorosos que tiveram como protagonistas escritores brasileiros e, mesmo tendo resultado em violências, os sucessores dos personagens não se vexam de reconhecer as virtudes de seus antepassados: um é o caso da escritora feminista e sufragista Sylvia Thibau, que matou Roberto Rodrigues, irmão de Nelson Rodrigues. O outro é Euclides da Cunha, morto em legítima defesa por Dilermando de Assis, amante de sua esposa Ana Emília Ribeiro da Cunha. Dilermando, absolvido, casou-se com a viúva. Dilermando também se relacionou com Maria Antonieta de Araújo Jorge, prima do poeta J. G. de Araújo Jorge, com quem teve uma filha, a escritora Dirce de Assis Cavalcanti. Dirce nunca deixou de expor o problema no qual seu pai esteve envolvido e luta para mudar a percepção do público a respeito dele.

Os sucessores de Georgiana Cochrane e José de Alencar igualmente não hão de se incomodar com a conexão do romance com a realidade. Afinal, juntamente com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891), que formam a trilogia realista, Dom Casmurro (1899) tem um ligeiro e soslaio olhar para o Romantismo. Quanto aos parentes do outro M. de A. não sei o que lhes poderíamos dizer para enchê-los de orgulho por serem descendentes do Bruxo do Cosme Velho.

  

Publicado originariamente em https://www.criativos.blog.br/post/machado-de-assis-talaricagem-catarse-ou-fake-news-este-%C3%A9-o-enigma, no dia 02/07/2024.

domingo, 30 de junho de 2024

NOAM CHOMSKY VIVE E VIVE A INTELIGÊNCIA


 

Na terça feira (18) uma notícia se alastrou pelas redes sociais e jornais digitais comunicando a morte de Noam Chomsky. O estadunidense de 95 anos, linguista, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo e um dos mais renomados personagens do campo da filosofia analista estava em São Paulo para tratamento médico, acompanhado de sua mulher brasileira. Em menos de uma hora as empresas de comunicação começaram a apagar as matérias. Chomsky não só estava vivo como havia recebido alta hospitalar. A velocidade da vida contemporânea, a falta de recursos das empresas de comunicação e a necessidade de publicar antes da concorrência facilita a publicação de matérias sem prévia e adequada apuração.

Chomsky é pouco conhecido da sociedade brasileira. Sua influência ocorre sobretudo nas universidades, no campo das ciências humanas, filosofia e letras. Mas neste momento em que tanto se discute sobre o modelo educacional no Brasil talvez devêssemos voltar nossa atenção para o que pensou ao longo da sua vida profissional. Não se trata de um iniciante, nem de alguém sem contribuição a dar num momento de tomada de decisão.

Noam Chomsky é Professor Emérito em Linguística do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde atua há mais de 40 anos. Crítico do behaviorismo ou comportamentalismo, empregado nas escolas cívico-militares, seus trabalhos contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Antes de receber seu doutoramento em linguística pela Universidade da Pensilvânia, em 1955, ele realizou a maior parte de suas pesquisas na Universidade Harvard. Chomsky pesquisa, escreve e ensina e é indiscutivelmente o mais importante intelectual vivo da atualidade.

Jamais ouvira falar de Noam Chomsky até que em 1984 caiu-me nas mãos um exemplar da revista COMUM, editada pela Faculdade de Comunicação Hélio Alonso, FACHA, do ano de 1981. Era o número 8 de uma série que atingiria algumas dezenas, todas digitalizadas e disponíveis na internet. Um banquete para quem se interessa pelos temas da comunicação, educação e linguagem.

O editorial daquela revista tratava da crise na universidade brasileira na definição política, teórica e ideológica, depois de longo período de autoritarismo que nos fora imposto pelo regime empresarial-militar e que fragilizara as instituições acadêmicas de tal forma, que se mostravam incapazes de compreender e acompanhar o processo de transformação política do país. Já cursando a faculdade de Direito, naquele ano decidi cursar também Ciências Sociais, área na qual acabei por concluir completa formação com mestrado e doutorado.

Darcy Ribeiro dizia que “a crise na educação brasileira não é crise: é um projeto”. Darcy compartilhava com Anísio Teixeira, autor do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932, e que fora jogado no poço de um elevador durante o Governo Médici, em 1971, a ideia de que é preciso educar para a vida e não apenas formar para certas finalidades. Em 1959 Darcy Ribeiro e Anisio Teixeira subscreveram outro manifesto sobre educação do qual resultou a primeira lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1961, no Governo Jango. Nos 460 anos anteriores faltaram-nos preocupação real com a educação. Darcy Ribeiro, além dos CIEPs (Brizolões) com educação integral em tempo integral, criou duas universidades: A Universidade de Brasília (UNB) e a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) que tem o seu nome.

Todos nascemos indivíduos. Tornamo-nos pessoas e pelos processos de socialização e interação, adquirimos outras qualidades, dentre as quais a de cidadãos. Educar é estabelecer as bases para a vida e a liberdade. Formar é moldar a uma forma pré-determinada para atender a interesses de terceiros. Educar é preparar a pessoa para a autorrealização. Formar é adestrar para responder a estímulo: Marcha! Alto! Direita, volver! Avança! Recue! Morra! Eis a questão a que querem subordinar os filhos da classe trabalhadora: robotização para torná-los vassalos úteis. Não se propõem escolas cívico-militares para os filhos da classe dominante.

Nesta coluna não há pertinência, nem espaço para discutir o que é o behaviorismo ou comportamentalismo, criticado por Chomsky, ou às ideias de um psicólogo chamado Skinner ou de Pavlov. Mas para exemplificar lembremos que Pavlov tocava um sino e dava comida aos seus cães. Em certo dia tocou o sino e não deu a comida. Os cães, adestrados a comer ao ouvirem o sino, salivaram tal como se estivessem diante da comida. A crítica de Noam Chomsky à psicologia behaviorista ou comportamentalista, que pretendem adotar nas escolas públicas brasileiras, decorre do fato de que seu objetivo é instituir previsão e controle sobre o comportamento das pessoas, afastando-as da introspecção e da reflexão. O método que se pretende implantar visa a conseguir um esquema unitário dos comportamentos automatizados e irrefletidos ou condicionamentos, sem distinguir a linha divisória entre o Ser Humano e um animal. Mas não somos bestas! Não somos gado! Não nos guiaremos como rebanho, pastoreados para o precipício. Chomsky vive! E vive a inteligência.

 

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 29/06/2024, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2024/06/6872973-joao-batista-damasceno-noam-chomsky-vive-e-vive-a-inteligencia.html


sexta-feira, 14 de junho de 2024

Sérgio Bernardes, um “arquiteto esquecido”?


O Brasil tem suas esquisitices. Não é à toa que não temos sequer um Nobel. Tal como os iconoclastas que destroem imagens religiosas e se opõem às suas venerações, sempre que nos surge um talento arranjamos jeito de lhe colocar defeitos. E não faltam os advogados do diabo. O Advogado do Diabo era uma instituição da Igreja Católica. Era aquele que argumentava contra a canonização dos candidatos, tentando descobrir quaisquer falhas em seu desfavor. Instituído em 1587 pelo Papa Sisto V, foi abolido pelo Papa João Paulo II em 1983, mas nem por isso deixa de existir. Se dependesse dos Advogados do Diabo, nem São Pedro seria santo. Afinal, foi pego na mentira.

Hoje completam vinte e dois anos da morte do arquiteto, urbanista e design Sérgio Bernardes. Dentre suas muitas obras está o Pavilhão de São Cristóvão. Depois de um incêndio que lhe destruiu o teto côncavo, abriga a Feira de Tradições Nordestinas. Sérgio Bernardes marcou o modernismo. É um dos principais nomes, mas permanece à sombra de Oscar Niemeyer e Lucio Costa, igualmente monstros sagrados da arte. O Rio de Janeiro é muito ingrato com artistas que lhe quiserem melhorar a qualidade de vida. Devemos a Lota Macedo Soares a beleza do Aterro do Flamengo, mas pouco se fala dela. O arquiteto Burle Marx, juntamente com ela, semeou o gigantesco jardim à beira-mar plantado de modo a que sempre esteja florido. Quando uma espécie encerra seu ciclo floral outra já entra em cena. Há uma comunidade de coletores de sementes, que se conheceu ao longo dos anos. Ultimamente, as maritacas têm acordado mais cedo ou comido as sementes antes que amadureçam, frustrando os coletores. Burle Marx deixou seu sítio para o Estado, aberto à visitação, e seu nome nele se perpetua. Affonso Eduardo Reidy é outro dos arquitetos de quem os cariocas pouco falam. Sua mais vistosa obra é o Museu de Arte Moderna no centro do Rio. Mas há outras esplendorosas.

Eu conheci Sergio Bernardes quando ainda era estudante. Nas eleições de 1982 o regime empresarial-militar inventou o voto vinculado. O eleitor tinha que votar em candidatos de apenas um partido. Eram seis votos: vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, senador e governador. Um único voto em partido diferente o anulava. Foi uma forma que a ditadura arranjou para manter os currais eleitorais, garantir a fidelidade partidária nos grotões e inviabilizar os partidos de oposição que surgiam e não tinham como arranjar tantos candidatos quantos necessários para formar as nominatas. No Rio de Janeiro o povo queria Brizola governador depois de 15 anos de exílio, nacionalista e mais expressivo nome da oposição aos militares. Daí é que os eleitores começavam a preencher a cédula, de papel, pelo número do candidato a governador, que era 2, e depois preenchia o restante da cédula, sem sequer saber quem eram os candidatos, desde tivesse o número 2. Foi uma festa! Teve gente que apenas emprestou o nome para compor a nominata do partido, mas acabou eleita.

Em Nova Iguaçu Brizola deu um banho de urna nos adversários e graças a ele o partido igualmente elegeu o prefeito. Embora se tratasse de arquiteto internacionalmente renomado, Sérgio Bernardes deixou o confortável escritório na Avenida Sernambetiba e assumiu o cargo de Secretário de Planejamento e Coordenador-geral da Prefeitura de Nova Iguaçu e começou a apresentar seus projetos para a construção de uma cidade economicamente viável e agradável aos seus habitantes. Mas acostumados, como somos, a improvisos, temporalidades e jeitinhos seus projetos foram incompreendidos. Nas vezes que o ouvi expressou-se de forma prática, simplificando o que parecia ser complexo, mas sem pretensão de convencer o interlocutor.

Um dos seus projetos foi construir um porto interno na Baixada Fluminense. Ele propôs que não se construísse o porto de Itaguaí ou o que viria a ser o Arco Rodoviário Metropolitano no Rio de Janeiro. Ele propunha que se interligasse, por um canal, o Rio Iguaçu, que deságua na Baía de Guanabara em Duque de Caxias, ao Rio Guandu, que deságua na Baía de Sepetiba. Dizia que os portos do Rio de Janeiro e Itaguaí ficariam interligados e o canal serviria como porto interno, protegido, ao longo do qual poderiam se estabelecer indústrias e outras atividades empresariais. Durante o tempo em que falava a plateia se remexia como se aquilo fosse um projeto inexequível. Ao fim de sua palestra, ainda menino, me aproximei e perguntei a ele sobre a viabilidade de se construir um canal com tal dimensão. Ele não me falou dos canais de Suez, Corinto ou Panamá. Apenas me perguntou: “Você conhece o porto de Hamburgo?” Eu disse que não. Jamais tinha saído do país. Ele emendou: “Depois de conhecer me fale”. Na primeira vez que fui à Alemanha minha maior curiosidade era conhecer tal porto, para espanto de todos que diziam haver coisas melhores para ver. Hamburgo e seu porto estão a 110 km do mar, é o 3º maior da Europa e 15º do mundo. O projeto de Sérgio Bernardes até que era singelo. Ele era muito maior. O Brasil está perdendo a possibilidade de ser grande porque seus filhos e suas instituições estão se apequenando.

 

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 15/06/2024, pag. 12. Lnk: https://odia.ig.com.br/opiniao/2024/06/6864328-joao-batista-damasceno-sergio-bernardes-um-arquiteto-esquecido.html



domingo, 2 de junho de 2024

Razões da natureza e desmedida pretensão humana

 

No século XVIII eclodiu um movimento intelectual e político na Europa marcado pela valorização da razão e pela crítica ao absolutismo monárquico, O Iluminismo. O iluminismo defendeu a valorização da razão em detrimento da fé como forma de entender o mundo e os fenômenos da natureza. Era decorrência do racionalismo, corrente filosófica que trazia como argumento a noção de que a razão é a única forma que o ser humano tem de alcançar o conhecimento.

Tais transformações no modo de pensar e agir colocaram a pessoa humana no centro das existências e estabeleceu-se a crença de que o ser humano era o senhor da natureza. O iluminismo alterou completamente a forma com a qual as pessoas entendiam as relações estabelecidas no mundo em que viviam, influindo nas crenças, formas políticas, artes e todas as demais atividades humanas. Mesmo a forma com que se faziam os jardins foi alterada por aquele movimento.

Até o renascimento os jardins eram, em regra, cultivados pelos monges que plantavam ervas medicinais, verduras e algumas flores nos monastérios. O florescer do capitalismo, enriquecido com o ouro que ia das Minas Gerais para a Inglaterra, alterou o modo de vida da burguesia e da aristocracia. As casas ganharam feições suntuosas enfeitadas com jardins extravagantes. Um dos primeiros estilos de jardins foram os desenhados com plantas divididas em canteiros em forma de figuras ou em cercas vivas. Os jardins desenhados tornaram-se elaborados e geométricos, tendo aumentado a quantidade de plantas levadas da América, da África ou da Ásia, após os “grandes descobrimentos”. Não tardou para que as plantas também fossem objeto de intervenção em suas formas e as árvores e arbustos passaram a ser podados para que tivessem expressões geométricas ou formas de animais.

Na França o exemplo clássico de plantas podadas em formas geométricas é o Jardin Des Tuileries ou Jardim das Tulherias. No início do século XX, em decorrência do primeiro aterro feito nas praias que iam do Centro até onde hoje é a Urca foi construída uma praça no estilo do jardim francês. É a Praça Paris, na Glória, no Rio de Janeiro, com seus arbustos recortados em formas geométricas ou em forma de animais. Tal estilo representava a pretensão de domínio do homem sobre a natureza.

O progresso técnico e científico deu às sucessivas gerações a pretensão de domínio sobre a natureza, desprezando os danos ao meio ambiente e as consequências que tais intervenções poderiam ter.

A catástrofe que se abateu sobre a cidade de Porto Alegre precisa ser debitada ao desleixo das políticas governamentais que não cuidaram das barragens e comportas para evitar tamanhos danos, mas está, também, relacionada com as intervenções que se fizeram na região ao longo dos últimos séculos. A cidade de Porto Alegre cresceu avançando sobre o Rio Guaíba. Do fim do século 19 até a década de 1970, a cidade se expandiu sobre o manancial, apropriando-se de parte da enseada.

Eu estive em Porto Alegre depois da revitalização da orla, onde a arquitetura do espetáculo transformou os antigos galpões do porto em polo gastronômico e de diversão, com derrubada do muro que fazia a contenção das enchentes. De aterro em aterro, a cidade cresceu, diminuindo o leito original do rio para o escoamento das águas nas grandes chuvas.

As cidades hoje são administradas tomando como referência o interesse do mercado. A urbanização do já urbanizado, comum nas cidades brasileiras, atende ao interesse do marketing político, bem como das empreiteiras, enquanto áreas na periferia demandam os mais elementares serviços de saneamento. A ausência de políticas públicas habitacionais subordina o direito de moradia à possibilidade de acesso à casa própria por meio do mercado imobiliário. Quem não dispõe de meios para aquisição de moradia, pelo mercado, improvisa a construção da própria casa própria em seus momentos de lazer, em loteamentos nem sempre regulares ou em áreas, não edificantes, não apropriadas pelo mercado imobiliário. Esta é a origem das favelas. Se tais áreas fossem edificantes a especulação imobiliária delas já teria se apropriado, tornando-as inacessíveis para os componentes do mundo do trabalho.

Em 2011 tivemos um desastre ambiental de grande proporção nas cidades serranas do Rio de Janeiro. Em 2020 idêntico fenômeno se abateu sobre o sudeste de Minas Gerais. Agora foi em Porto Alegre. É momento de solidariedade aos atingidos pela catástrofe no sul. Mas igualmente é preciso entender que tais eventos têm causas e que estas podem ser evitadas ou minoradas por adequadas políticas públicas e cuidado adequado como meio ambiente. Embora não seja hora de apontar o dedo para os culpados é preciso termos em mente quem são os responsáveis. Na mitologia grega, quando Édipo descobriu que a desgraça que se abatia sobre Tebas se devia ao fato de ter casado com a própria mãe, não se desculpou dizendo não saber do parentesco, nem disse que não era hora de buscar o culpado. Furou os próprios olhos e partiu da cidade.

 

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 01/06/2024, pag. 12.


sábado, 18 de maio de 2024

Discurso de ódio e política de cancelamento

A política de cancelamento e discurso de ódio que se praticam atualmente na sociedade, notadamente nas redes sociais, atinge sobretudo aos que expressam desejo de pertencimento ou visibilidade ou cujas atividades profissionais demandam interação com o público. Profissionais qualificados podem ser vitimados por cancelamento em razão de fato alheio à sua atividade laborativa. Vivenciamos a perda da função social da cidade, como espaço de socialização e convivência. A cidade tornou-se virtual.

Nem sempre quem promove discurso de ódio sabe o porquê o faz. Mais que o mal-estar da civilização para a qual a cultura nos socializa, vivenciamos o mal-estar nas interações difusas. O ponto de inflexão no Brasil foi registrado nas Jornadas de junho de 2013. Aquelas manifestações que, no Rio de Janeiro, perguntavam pelo corpo de Amarildo não podem ser interpretadas como um movimento organizado da direita, que efetivamente tomou as ruas em momento posterior. Desde quando a direita se ocuparia com o destino de um homem negro, favelado e pobre morto pela política de extermínio que se implantou neste Estado? As manifestações de junho de 2013 expressaram rejeição aos gastos com os grandes eventos nos quais o povo não poderia ingressar. A precariedade nas áreas da saúde, educação, saneamento, moradia e transporte coletivo foi o combustível que fez propagar aquele incêndio. O mal-estar difuso foi agregado a partir do surgimento das mídias sociais, que serviram para convocações de simultâneas ou sucessivas aglomerações durante um mesmo dia. Aqueles que se escondiam nos porões deixados pela ditadura empresarial-militar aproveitaram o momento e saíram de suas cavernas.

A política de cancelamento, discursos de ódio, mentiras, notícias falsas e fofocas preexistem ao atual momento. O que as difere das fake News é a larga e rápida difusão propiciada pelas redes sociais. A política do cancelamento está relacionada à destruição de reputações, tal como o discurso de ódio está relacionado ao linchamento físico, verbal ou noticioso outrora praticado, também, pelas mídias corporativas. As plataformas digitais dão eco ao discurso de ódio e aos cancelamentos e o mal-estar nas relações sociais são campo fértil para tais ocorrências. 

A formação de grupos sociais, física ou virtualmente, a partir de afinidades propicia a agregação, mas também a exclusão de quem não seja considerado apto a tal inserção. O ser humano nasce indivíduo e se torna pessoa. Com a aquisição de determinados atributos pessoais adquire status com os quais se relaciona socialmente. A cultura do cancelamento implica na destruição do status com o qual a pessoa se apresenta socialmente.

Vivemos em praças digitais que nos expõem a tribunais virtuais nas redes sociais, num processo de digitalização das relações e até em processo que se denomina metaverso. Metaverso expressa a confusão entre o real e o virtual, sem grande possibilidade de distinção entre um e outro. Mais que os cancelamentos com índices de rejeição, perdimento de seguidores em plataformas digitais, temos a transmudação da cultura do cancelamento em discursos de ódio com ameaças à integridade física ou à vida de pessoas,
extensivo a amigos e familiares.

O discurso de ódio e a cultura do cancelamento causam danos psicológicos e físicos, na medida em que impõem sofrimentos, dores, angústia e no plano econômico distratos de contratos e desfazimento de relações jurídicas estabelecidas. O cancelamento implica na ação de boicotar uma pessoa dentro de uma comunidade ou grupo social. Cancelar é negar o direito de uma pessoa ao pertencimento a um determinado grupo, deslegitimando-a; é conduta excludente. Busca-se negar o direito de pertencimento. O extremo do cancelamento é a política de extermínio de pretos e pobres na periferia, antes excluídos do conceito de pessoas humanas. O cancelamento virtual é uma forma de justiçamento, tal como o são os linchamentos e execuções sumárias.

Numa sociedade cada vez mais mediada pelas plataformas digitais e pelas redes nelas estabelecidas, os linchamentos morais podem – com facilidade – se transformar em violência física, com risco à própria vida dos cancelados. Um coach, famoso por suas mentiras, nesta semana, promoveu discurso contra jornalistas de uma emissora de televisão, tornando-os alvo de seus seguidores. Os jornalistas estão andando sob escolta. Não se pode confundir a liberdade de expressão com o incitamento a crime. Ainda que o famoso coach não tenha ordenado dano físico aos jornalistas, seu discurso de ódio propiciou tal efeito, pois seus seguidores passaram a ameaçar os jornalistas.

Os perigosos sentimentos coletivos da massa se expressam tal como os gritos do incentivador da barbárie. O discurso de ódio se traduz em excesso na liberdade de expressão, causador de danos e sujeita o incitador à responsabilização. O excesso na manifestação do pensamento é abuso de direito. A responsabilização, além da esfera civil, pode igualmente ser buscada na esfera penal, seja contra quem pratique o dano ou a quem o incitou. Afinal, quem de qualquer forma concorre para o crime incide nas penas a ele cominadas.

 

Publicado originariamente em 18/04/2024, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2024/05/6847754-joao-batista-damasceno-discurso-de-odio-e-politica-de-cancelamento.html