segunda-feira, 26 de maio de 2014

Liberdade religiosa


“Disse o juiz que "ambas as manifestações religiosas não continham traços necessários de uma religião, a saber, um texto base (Corão, Bíblia etc), ausência de estrutura hierárquica e ausência de um Deus a ser venerado". Neste sentido, o xintoísmo, o hinduísmo e o budismo também não seriam, para ele, religiões. A fé precede o texto e o dispensa; no budismo não há deidade, no hinduísmo há pluralidade de deuses, e no xintoísmo não há hierarquia. A decisão que se refere aos cultos afro-brasileiros como "reuniões de macumba" confunde a prática religiosa com o instrumento de percussão nela utilizada, a exemplo dos bairros periféricos, onde popularmente se nominavam os pentecostais tradicionais de ‘os bíblias’."
 
Jean Bodin, ao conceber a teoria do poder divino dos reis, pretendeu justificar a escolha da religião pelo soberano e evitar que as sociedades mergulhassem em guerra civil. Se o rei era escolhido por Deus, deveria saber qual a verdadeira religião. Tal concepção evitou guerras civis, mas possibilitou a matança daqueles que não adotaram a religião oficial. A tirania se apossou do discurso religioso e com ele justificou perseguições e extermínios, como ocorre sempre quando o Estado seleciona um grupo para justificar sua atuação punitiva. A fundação da cidade do Rio, em 1565, ocorreu neste contexto de guerras religiosas. Fugindo de perseguições religiosas, protestantes e calvinistas franceses ocuparam a Ilha de Villegagnon em 1555. Contra eles, combateram Mem de Sá e Estácio de Sá, que os exterminaram. A separação da igreja e Estado, princípio adotado por nós com o advento da República em 1889, tenta evitar a preferência estatal por qualquer religião.

No presente momento, o Rio é tomado por discussão sobre liberdade e tolerância religiosa. Não apenas em decorrência de desrespeitos que se praticam contra crenças populares, mas em razão de fundamento não jurídico de decisão judicial.
 
Ao analisar pedido de retirada de vídeo postado na internet, no qual uma religião se afirma em contraposição a outra de natureza popular, um juiz aproveitou para expor concepção pessoal do que seja religião e das características que um sistema de crenças deve conter para ser considerado tal. Disse o juiz que "ambas as manifestações religiosas não continham traços necessários de uma religião, a saber, um texto base (Corão, Bíblia etc), ausência de estrutura hierárquica e ausência de um Deus a ser venerado". Neste sentido, o xintoísmo, o hinduísmo e o budismo também não seriam, para ele, religiões. A fé precede o texto e o dispensa; no budismo não há deidade, no hinduísmo há pluralidade de deuses, e no xintoísmo não há hierarquia. A decisão que se refere aos cultos afro-brasileiros como "reuniões de macumba" confunde a prática religiosa com o instrumento de percussão nela utilizada, a exemplo dos bairros periféricos, onde popularmente se nominavam os pentecostais tradicionais de "os bíblias".
 
Diante da reação da sociedade, o juiz buscou se retratar, dizendo que "a crença no culto de tais religiões, daí por que faço a devida adequação argumentativa para registrar a percepção deste Juízo de se tratarem os cultos afro-brasileiros de religiões, eis que suas liturgias, deidade e texto-base são elementos que podem se cristalizar, de forma nem sempre homogênea". Não houve retratação ou esclarecimento. Manteve-se a ideia de que uma religião há de ter texto-base e deidade. Em matéria de fé, nenhum juiz tem competência, e o Estado somente deve intervir para garantir a liberdade religiosa.

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 25/06/2014.

domingo, 18 de maio de 2014

Os porões dos tribunais

“Quando da aprovação da ‘Comissão da Verdade’, militares reformados, dentre os quais o coronel do Exército — acusado de tortura durante a ditadura —Carlos Alberto Brilhante Ustra, lançaram manifesto intitulado ‘Alerta à nação’, dizendo que a ‘Comissão da Verdade’ era um “ato inconsequente de revanchismo explícito e de afronta à Lei da Anistia”. Subscreveram-no de soldados a generais e um único magistrado: um desembargador do Tribunal de Justiça.

“A separação de poderes foi concebida para evitar a junção de interesses que devem se controlar reciprocamente. As parcerias que se estabelecem entre órgãos que devem funcionar autonomamente podem implicar prejuízos para a ordem institucional. A notícia de que o oficial acusado de chefiar uma quadrilha no 6º Batalhão da PM ocupava cargo comissionado no âmbito do tribunal presidido por membro do Poder Judiciário que subscrevera o manifesto contra a ‘Comissão da Verdade’ é preocupante. Evidencia possibilidade da perda do distanciamento necessário ao Poder Judiciário para realização da justiça.”

A desorganização dos serviços públicos pelos coronéis na 1ª República visou a reforçar o mando pessoal e afastar as objeções da institucionalidade. A Revolução de 30 reorganizou o Estado e deu nova feição à realidade brasileira. Ainda nos restam traços daquele período de construção das instituições e da identidade nacional. Mas do Estado Novo herdamos também a polícia especial, reforçada pelo general Riograndino Kruel em 1958, que pode ser considerada a avó dos atuais grupos paramilitares chamados de milicianos.

Cada sistema político instaurado deixa suas marcas depois de revogado. É o passado que insiste em se fazer presente. A ditadura empresarial-militar teve um efeito deletério sobre os órgãos públicos, que foi o inchaço das repartições civis e empresas estatais com militares, em cargos e empregos, por deslavado nepotismo ou protecionismo, mas também visando à coleta de informações sobre demais agentes públicos e cidadãos.

A desmilitarização da estrutura do Estado foi penosa, e a ela reagiu a linha-dura do regime, que detonava bombas pela cidade para demonstrar sua imprescindibilidade, até o dia no qual uma explodiu no colo de um deles no Riocentro, em 1981. A reforma administrativa realizada no governo Collor extinguiu o Serviço Nacional de Informação, o SNI, promoveu disponibilidades e demissões de servidores; atingiu injustamente muitos funcionários públicos, mas foi a pá de cal no empreguismo e aparelhamento militarista das repartições civis e empresas estatais.

No Rio, atualmente vivencia-se o processo de militarização das instituições civis, com verdadeiros batalhões alocados em órgãos públicos, nem sempre em atividades típicas. Quando da aprovação da ‘Comissão da Verdade’, militares reformados, dentre os quais o coronel do Exército — acusado de tortura durante a ditadura —Carlos Alberto Brilhante Ustra, lançaram manifesto intitulado ‘Alerta à nação’, dizendo que a ‘Comissão da Verdade’ era um “ato inconsequente de revanchismo explícito e de afronta à Lei da Anistia”. Subscreveram-no de soldados a generais e um único magistrado: um desembargador do Tribunal de Justiça.
A separação de poderes foi concebida para evitar a junção de interesses que devem se controlar reciprocamente. As parcerias que se estabelecem entre órgãos que devem funcionar autonomamente podem implicar prejuízos para a ordem institucional. A notícia de que o oficial acusado de chefiar uma quadrilha no 6º Batalhão da PM ocupava cargo comissionado no âmbito do tribunal presidido por membro do Poder Judiciário que subscrevera o manifesto contra a ‘Comissão da Verdade’ é preocupante. Evidencia possibilidade da perda do distanciamento necessário ao Poder Judiciário para realização da justiça.




Publicado originariamente no jornal O DIA, de 18/05/2014, pag. 16. Link: http://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2014-05-18/joao-batista-damasceno-os-poroes-dos-tribunais.html

domingo, 11 de maio de 2014

Marcha da Maconha

“Uma criança ou adolescente pode ter dificuldade em comprar bebida alcoólica ou cigarro na maioria dos estabelecimentos comerciais do país, pois é regulamentado, mas nada a impede de adquirir o tipo de droga ilícita que quiser. Aqueles que ganham com o comércio ilegal têm razões justificáveis, por seus interesses, para a manutenção do proibicionismo e a guerra às drogas. Legalização já!”

Realizou-se no Rio a Marcha da Maconha, ou melhor, marcha pela legalização das drogas. Havia gente de correntes diversas de opinião na defesa da regulamentação da produção, comércio e consumo, que o Estado finge poder controlar exclusivamente por meio de seu aparato repressivo. Aqueles que usam drogas não tinham motivo para estar lá. Afinal, têm fornecimento garantido. Mas os que não usam e são contra o tráfico tinham motivos de sobra para se manifestar. Ser a favor da legalização das drogas não implica ser a favor do seu consumo. O que se pretende é reduzir os efeitos danosos do proibicionismo. 

É o proibicionismo e a guerra às drogas que geram a violência contra crianças, idosos, trabalhadores e outras pessoas que jamais tiveram contato com drogas ilícitas, que pavimentam o caminho para a corrupção e que matam policiais mandados irresponsavelmente para o confronto. Morre-se e mata-se em razão da proibição em número assustador, quando os casos de morte por overdose são raros. A vida e a saúde pública não são defendidas com o proibicionismo, pois apenas serve para justificar o aparato repressivo e o controle da sociedade. 

A Lei Seca nos Estados Unidos incentivou o desenvolvimento da máfia, da qual Al Capone foi o ícone. Regulamentado o comércio de bebida alcoólica, a máfia estadunidense teve que buscar novos negócios. Pessoas que cultivavam videiras e proprietários de pequenos alambiques clandestinos puderam produzir para consumo familiar sem necessidade de se armar ante o risco da violência para roubo do produto proibido. 

A Leap (Law Enforcement Against Prohibition), que pode ser traduzida por Agentes da Lei Contra o Probicionismo, é uma entidade mundial composta por juízes, promotores e policiais que tem a missão de reduzir os efeitos danosos resultantes da guerra às drogas e diminuir a incidência de mortes, crimes e dependência decorrentes da proibição.

A Leap-Brasil advoga a eliminação da política de proibição das drogas e a introdução de uma política alternativa de controle e regulação, com medidas restritivas à venda e uso de drogas em razão da idade, da mesma forma que existem outras restrições para aquisição ou consumo de álcool, de tabaco, para direção de veículos e operação de equipamentos pesados.

Uma criança ou adolescente pode ter dificuldade em comprar bebida alcoólica ou cigarro na maioria dos estabelecimentos comerciais do país, pois é regulamentado, mas nada a impede de adquirir o tipo de droga ilícita que quiser. Aqueles que ganham com o comércio ilegal têm razões justificáveis, por seus interesses, para a manutenção do proibicionismo e a guerra às drogas. Legalização já!


Publicado originariamente no jornal O DIA, em 11/05/2014, pag. 18. Link: http://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2014-05-11/joao-batista-damasceno-marcha-da-maconha.html

domingo, 4 de maio de 2014

ESTADO, JUSTIÇA E FÉ

“Remoções são realizadas à margem da lei, pois a ordem jurídica não as autoriza, aproveitando-se da cegueira ou miopia dos órgãos encarregados de garantir o império da justiça. Ainda que realocações sejam autorizadas legalmente em casos necessários, não devem afastar a pessoa de suas referências, da possibilidade de convívio com seus familiares e dos grupos com os quais se relacione. Mas ao povo, toca-se. Nem gado, hoje, é tocado. Quando necessário, é transportado com maior cuidado que o dispensado a trabalhadores. Gado se guarda e se protege, pois tem valor econômico.

“Se há dinheiro para a Copa do Mundo, para obras faraônicas e para empréstimos a fundo perdido a certos empresários, há de ter também para assegurar direitos constitucionais, dentre os quais o de moradia.”

A ocupação da Catedral Metropolitana pelos despejados da Favela da Telerj, em decorrência de liminar deferida pelo Judiciário, expõe o calcanhar de Aquiles da política habitacional em nosso estado. O desalijo sem prévio cadastramento dificulta a implementação de política assistencial ou social. Despejados com truculência foram para a porta da prefeitura, onde permaneceram aguardando providências em seu proveito. Ao contrário de ajuda e solidariedade, receberam ameaças. Mães foram ameaçadas de perder a guarda dos filhos porque estavam em convívio familiar fora dos lares que não mais têm; sofreram a perturbação do sono noturno por sirenes da Guarda Municipal; crianças e mulheres grávidas foram retiradas da passarela do metrô, onde se protegiam da chuva durante a madrugada. Ao fim, foram de novo expulsos da porta da prefeitura com violência conjunta da Guarda Municipal e da Polícia Militar. Desrespeitou-se o preceito de que locais públicos são próprios para ir, vir e ficar. Abrigando-se da truculência estatal, foram para o único lugar onde, dizem, não sofreram violência: o pátio privado da Catedral; impróprio refúgio, mas necessário diante do que vivenciavam.

Os governantes estão tranquilos com a atual situação. Tratam-na como se fosse uma questão de fé a ser resolvida pela Arquidiocese. A questão é político-social e compete ao poder público, que apenas oferece a truculência do seu aparato repressivo, felizmente recusada pelo cardeal-arcebispo Dom Orani. Não é de hoje que governantes despidos de concepção adequada de suas funções consideram que problema social é caso de polícia.

Monteiro Lobato, no artigo ‘Velha Praga’, em 1914, escreveu se referindo ao povo: “Não há recurso legal contra ele. A única pena possível, barata, fácil e já estabelecida como praxe, é ‘tocá-lo’. Curioso este preceito: ‘ao caboclo, toca-se.’ Toca-se, como se toca um cachorro importuno, ou uma galinha que vareja pela sala.” 

Remoções são realizadas à margem da lei, pois a ordem jurídica não as autoriza, aproveitando-se da cegueira ou miopia dos órgãos encarregados de garantir o império da justiça. Ainda que realocações sejam autorizadas legalmente em casos necessários, não devem afastar a pessoa de suas referências, da possibilidade de convívio com seus familiares e dos grupos com os quais se relacione. Mas ao povo, toca-se. Nem gado, hoje, é tocado. Quando necessário, é transportado com maior cuidado que o dispensado a trabalhadores. Gado se guarda e se protege, pois tem valor econômico. 
Se há dinheiro para a Copa do Mundo, para obras faraônicas e para empréstimos a fundo perdido a certos empresários, há de ter também para assegurar direitos constitucionais, dentre os quais o de moradia.



Publicaado originariamente no jornal O DIA, em 04/05/2014, pag. 14. 
Link: http://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2014-05-03/joao-batista-damasceno.html




domingo, 27 de abril de 2014

Douglas seria Amarildo

“Participando do projeto ‘Diálogos sobre direitos humanos’, organizado pela OAB-RJ, estive ano passado no Caranguejo, favela acima do Pavão-Pavãozinho. Acima também da Favela Vietnã. É o topo do morro e o ápice da pobreza. Ouvi o relato de uma mãe sobre a morte de seu filho adolescente, após tortura e sobre a versão oficial de que “caíra do muro”. Não me surpreendeu a nota da Polícia Civil de que as escoriações no corpo de DG eram compatíveis com queda de muro. A versão era requentada. Já vi versões mais fantasiosas. No Caso Juan, a perícia — desmentida por exame de DNA — apontara que o corpo era de uma menina, e não do menino assassinado e jogado numa lixeira longe de sua casa. Mas a mãe de DG não se intimidou e declarou que seu filho tinha marcas de chutes nas costas e costelas, que não morrera pulando muro, mas pelas mãos do Estado, e que seria um novo Amarildo não fosse a comunidade, protetora e protestadora”.

A morte do dançarino Douglas Rafael, o DG, é mais uma decorrente da política de ‘pacificação’ de quem pensa ser possível construir a paz com a guerra. São raras as mortes por overdose. Mas, a pretexto de cuidar da saúde pública combatendo o comércio e uso de drogas, o Estado humilha e mata os pobres. A política de segurança de confronto aos direitos humanos é um incentivo à atuação ilegal e formação de grupos paramilitares que põe em xeque o Estado de Direito. 

Denúncias de torturas, mortes e desaparecimentos se acentuaram desde o início das ‘pacificações’. O Rio de Janeiro é inovador em matéria de segurança pública desastrosa. Em 1958, o general Riograndino Kruel criou o primeiro esquadrão da morte; no início dos anos 60, Carlos Lacerda condecorou os ‘homens de ouro’ da polícia, e em 1994 o então secretário de Segurança, general Nilton Cerqueira, acusado de matar Carlos Lamarca, instituiu a ‘gratificação faroeste’, prêmio em dinheiro por ‘atos de bravura’: disparos, ferimentos ou mortes. 

Participando do projeto ‘Diálogos sobre direitos humanos’, organizado pela OAB-RJ, estive ano passado no Caranguejo, favela acima do Pavão-Pavãozinho. Acima também da Favela Vietnã. É o topo do morro e o ápice da pobreza. Ouvi o relato de uma mãe sobre a morte de seu filho adolescente, após tortura e sobre a versão oficial de que “caíra do muro”. Não me surpreendeu a nota da Polícia Civil de que as escoriações no corpo de DG eram compatíveis com queda de muro. A versão era requentada. Já vi versões mais fantasiosas. No Caso Juan, a perícia — desmentida por exame de DNA — apontara que o corpo era de uma menina, e não do menino assassinado e jogado numa lixeira longe de sua casa. Mas a mãe de DG não se intimidou e declarou que seu filho tinha marcas de chutes nas costas e costelas, que não morrera pulando muro, mas pelas mãos do Estado, e que seria um novo Amarildo não fosse a comunidade, protetora e protestadora. 

A ditadura empresarial-militar se esmerou em falsificar versões e laudos. O assassinato de Vladimir Herzog, o desaparecimento de Rubens Paiva e a bomba no Riocentro são exemplos do que é capaz o Estado Policial. O Caso Amarildo demonstra como se fabricam versões e se produzem provas para justificá-las. Quem parece tudo saber sobre segurança pública não pode alegar desconhecer estes fatos. 

Não apenas os facínoras que violam os direitos do povo hão de ser responsabilizados, mas também os que autorizam. O Ministério Público e o Judiciário podem se contrapor à violação aos direitos humanos, pois seus papéis estão relacionados à garantia dos direitos; não são partícipes da formulação de políticas públicas. Menos ainda quando atentam contra a dignidade da pessoa humana, fundamento da República. 
 



Publicado originariamente no jornal O DIA, em 27/04/2014, pag. 14. Link: http://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2014-04-26/joao-batista-damasceno-douglas-seria-amarildo.html



sábado, 26 de abril de 2014

EU DIGO NÃO À VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES


A SRA. PRESIDENTE (Inês Pandeló) – Agradeço a presença de Soraya Moreno, representante do Gabinete do Deputado Hugo Leal e também da Rádio Catedral; e de Maria Isabel da Conceição Nascimento, representante do Coletivo do Setorial de Saúde do PT no Estado do Rio de Janeiro. Terminando as falas da tribuna, ouviremos agora, na área do direito e juristas, o Dr. Juiz João Batista Damasceno, da Associação de Juízes pela Democracia. 

(Palmas)

O SR. JOÃO BATISTA DAMASCENO – Serei breve. Saudando a Mesa na pessoa da Deputada Inês Pandeló, Presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania, saúdo todos e todas. Queria fazer uma especial saudação à Senadora Benedita da Silva, de quem não sou eleitor – nunca fui –, pela sua coragem, pela sua vida, pela sua origem, pela sua trajetória, por sua coragem nos depoimentos que sempre presta. Ontem, quando ouvi sobre essa menina de nove anos – não vi a reportagem –, fiquei muito emocionado. Não sabia que estaria com a senhora hoje, mas me lembrei da senhora, pois uma vez a ouvi falando que aos sete anos havia sido vítima de violência sexual. A ocorrência desses fatos contra as mulheres, contra as moças e, sobretudo contra as meninas é muito grave. A senhora contribui para a eliminação dessa violência por ter a coragem de vir a público relatar esses fatos. (Palmas) Então, minha saudação especial à senhora por sua determinação de contribuir com esse fato.

Quero ser muito breve, embora, talvez, não seja possível, mas vou falar dentro do tempo de dez minutos.  Vamos comemorar dentro de três dias o Dia Internacional da Mulher. De onde vem essa data, essa comemoração, esse dia? Da história das tecelãs, das operárias da fábrica que teria pegado fogo nos Estados Unidos? Parece que existe uma origem mais distante: a luta das mulheres operárias pelos seus direitos no momento da Revolução Industrial. Parece que essa é a data mais remota da comemoração desse dia: a luta das mulheres operárias no momento da afirmação do direito e no momento de uma violência não especificada no incêndio de uma fábrica, mas de todas as violências que se pratica contra os excluídos, contra os pobres, contra os trabalhadores, contra os miseráveis, contra o campesinato... 

Estamos falando hoje de uma violência muito específica. Estamos aqui para engrossar essa campanha contra a violência à mulher, mas vivemos num mundo de muita violência: a violência institucionalizada, a violência das instituições, a violência da rua, a violência do trânsito, a violência no trato, a violência da indiferença e a violência que hoje está institucionalizada no nosso Estado. Mais de um orador chegou a tocar nela aqui, hoje, e eu não posso deixar de falar da violência do discurso oficial. 

O Governador[1], no ano passado, numa infeliz declaração, quando pensava que a entrevista já tinha terminado, disse que o ventre das mulheres faveladas é uma fábrica de reposição de mão-de-obra para o tráfico. (Palmas) Eu não estou me referindo a um Governador do passado, estou me referindo ao Governador em exercício do mandato atualmente no Estado do Rio de Janeiro, que disse que o ventre das mulheres faveladas é fábrica de reposição de mão-de-obra para o tráfico. Nessa época, Senadora Benedita, eu me lembrei da senhora também. 

Vamos falar de outras violências: a violência da política de extermínio que está em exercício no Estado do Rio de Janeiro[2]. Essa violência não vitima só aqueles a quem ela mata, não, vitima as mães daqueles que morrem nessa política de extermínio, vitima as irmãs daqueles que morrem, não é isso, Margarida[3]? As mães te procuram, as irmãs te procuram, e é uma violência. Não estou apontando especificamente para os planos de política pública. Há um modelo de política que quer erradicar a criminalidade quando crime é intrínseco a toda a sociedade, e ele não pode ser erradicado. Não existe guerra contra o crime. A guerra começa e acaba e tem um motivo específico para ser estabelecida. Crime não se combate com guerra, crime tem uma outra forma de ser tratado, porque não pode ser erradicado. 

Não vou entrar no discurso religioso, mas a transgressão é intrínseca ao ser humano. A lei mais irrevogável das que conheço é a da gravidade e os homens e as mulheres a revogaram. Hoje, ficam passeando por aí de avião, de foguete... Até a lei da gravidade, que era irrevogável, hoje está suplantada, portanto, essa transcendência da humanidade é intrínseca à própria humanidade. Não vamos conseguir com política alguma erradicar as transgressões, nem mesmo eliminando aqueles que transgridem. Por isso, fica aqui esse posicionamento – que não é pessoal, é da Associação Juízes para a Democracia – contra a política de extermínio que está sendo implantada atualmente e que vitima aqueles que morrem mais as mães e as irmãs daqueles que morrem.

Ainda estou em 1/3 do que tenho que falar. Vou correr para poder terminar.

Acho um momento muito importante o do lançamento dessa campanha, porque reforça não só a luta das mulheres, e sim a luta das mulheres na aliança com os homens contra essa nefasta prática social que é a violência permanente contra as mulheres. É óbvio que é preciso implementar mais direitos para as mulheres, para defesa das suas garantias de uma vida feliz. É preciso instrumentalizar as mulheres, e o orador que me antecedeu nos deu alguns indicativos, desde essa questão da impessoalidade. É fundamental chegar-se a um órgão e impessoalmente ser bem-tratado, não precisar de uma recomendação especial para o atendimento. Mas há muitas outras coisas que precisam ser feitas para instrumentalizar a defesa dos direitos das mulheres. 

Com relação à punição dos agressores, está aí a Lei Maria da Penha, que está chegando, está sendo implementada. Há aqueles que temem o discurso punitivo, mas é um instrumento também de que se deve lançar mão, subsidiariamente, quando as outras políticas não resultarem eficazes. Aí, sim, claro, a violência legítima precisa ser exercitada, e para tanto a Lei Maria da Penha.

Acho muito importante essa campanha direcionada aos homens. Falei outro dia com a Margarida[4], falei hoje com a Adriana[5], minha colega juíza da violência doméstica do Rio de Janeiro, sobre a cultura da misoginia. Converso com homens, falo com os meus amigos. Há homens que não gostam de mulher – não é no sentido sexual, não, porque nesse sentido eles gostam. Eles contam piadas de mulher, falam mal de mulher, tratam a mulher como um ser secundário, inferior. Eu acho que essa questão da cultura misógina precisa ser atacada. É preciso lembrar aos homens, primeiro, que eles têm irmãs, têm mãe – alguns talvez não tenham[6]. 

O pedido foi para que eu fizesse um depoimento pessoal: eu gosto muito das mulheres! Eu tive avós, tive mãe, tenho irmãs, tenho tias. Fui criado numa família de mulheres, que me ensinou a respeitar as mulheres, a tratar as mulheres com igualdade. Nesse sentido, acho que é muito importante difundir uma cultura antimisógina para que os homens passem a gostar de mulheres; para que um médico atenda uma mulher em seu consultório e a trate com respeito; para que um policial, homem ou mulher, receba uma mulher na delegacia e a trate com respeito; para que um juiz, numa cultura varonil com a qual até as mulheres embrutecem, passe a tratar as mulheres, os homens, as crianças, os doentes e os velhos com o respeito e com a dignidade que a pessoa humana merece. Esta é uma questão muito importante.
Parabéns à Deputada Inês Pandeló, à Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher por essa campanha endereçada aos homens, para que possamos minorar essa cultura misógina que está difundida em nossa sociedade.

Eu poderia tratar aqui também, mas não será possível, dos fatores da violência cotidiana. A violência é a ponta da lança, mas da ponta até o local onde a força se faz para que ela atinja há muita coisa. Vivemos uma cultura em que as pessoas estão raivosas. Muda um novo vizinho para o seu andar e você reclama que vai ser mais uma pessoa fazendo barulho, quando você poderia recepcioná-lo bem, como mais um companheiro que teria para dar bom dia ou boa tarde. Vivemos a cultura da violência e do isolamento, da tentativa do isolamento, tal como se isso fosse possível para a humanidade. 
Há muitos fatores de violência e precisaria de tempo para dissecá-los; há os fatores da judicialização, da briga permanente, do desagrado permanente. Aí entra a questão, que já foi falada aqui hoje, das políticas públicas. Parece-me que elas são geradas e gestadas para a infelicidade. Chegue a um hospital público, e falo porque lido cotidianamente com essa questão. Vejamos o caso do Hospital da Posse, por exemplo, dos hospitais públicos da Cidade do Rio de Janeiro, dos postos de vacinação. Não é possível imaginar que uma pessoa doente possa receber aquele tratamento. Não é possível imaginar que um médico que cuida de uma pessoa doente possa receber os tratamentos que têm recebido. 

Estou dando exemplos da medicina, mas poderia dar outros, como as políticas públicas da educação. Sou professor e sei: há o aluno que entra em sala agressivo, bate no professor. O professor ganha uma miséria, a diretora é indicada pelo cabo eleitoral de um bairro que é ligado a não sei quem, que é líder comunitário, que tem uma ligação com quem ninguém sabe mais quem é. 

É uma política de violência, é uma rede de violência institucionalizada que precisamos repensar, pois não adianta falarmos apenas das questões pontuais. Acho que precisamos, no barato, de duas coisas: pensar em relações sociais antimisóginas e gestar políticas públicas que propiciem a felicidade. Se existirem homens não-misóginos, que gostem de mulheres, eles jamais baterão nelas; não baterão nas mães, nas irmãs, nas vizinhas e muito menos nas mulheres que fazem carinho neles.

Eu digo não à violência contra as mulheres porque gosto muito das mulheres. 

Muito obrigado. 

(Palmas)

Extrato da ata da  audiência pública da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro/ALERJ, intitulada “EU DIGO NÃO À VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES”. Reunião realizada no dia 05 de março de 2009, às 10 horas no Plenário. Disponível no link: http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/compcom.nsf/e36c0566701326d503256810007413ca/a986fa6a8f6a39898325757d0075f085?OpenDocument




[1] Referência a entrevista concedida pelo Governador Sérgio Cabral Filho ao jornalista Aluizio Freire, do jornal O Globo, publicada em 24/10/2007.
[2] Dirigindo-se ao Dr. Gilberto Ribeiro, delegado de polícia, então chefe da Policia Civil do Estado do Rio de Janeiro.
[3] Dirigindo-se à Dra. Margarida Pressburger, então presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ.
[4] Dra. Margarida Pressburguer.
[5] Juíza de Direito Adriana Ramos.
[6] Provocação a um dos componentes da mesa.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O Estado contra o povo

“Não há inteligência nem eticidade nos governantes. Remoções sob o fundamento de imprescindibilidade para obras públicas apenas se destinam a afastar os pobres das áreas nobres. Removidos são deixados ao relento, como foram os desabrigados da Favela da Telerj. Na madrugada, sirenes da Guarda Municipal impediam o sono dos miseráveis que permaneciam na chuva à frente da sede da prefeitura, reclamando direito constitucional de moradia. A parceria entre as três esferas de poder — municipal, estadual e federal — não tem sido em proveito dos pobres, mas da cartolagem.”

A presidenta Dilma Rousseff é a comandante suprema das Forças Armadas. Ela nomeia livremente o ministro da Defesa e só ela pode autorizar seu emprego no papel de polícia e contra a sociedade. Foi heroica sua atuação quando, aos 20 anos, acreditou que poderia vencer a truculência do regime empresarial-militar. Mas perdeu, juntamente com aqueles que tentaram derrubar o regime pela força, e suas ações serviram para legitimar o acirramento da repressão. Muitos foram presos, torturados, mortos, esquartejados e desaparecidos. A abertura política, que não significou efetiva democratização, decorreu de arranjo dos próprios setores conservadores que promoveram o golpe. Nos 50 anos do golpe, a presidenta continua acreditando na força como medida capaz de resolver os problemas sociais.

A força é o último recurso da autoridade para se recolocar no lugar desejado, a partir do momento em que é desafiada, deslegitimada ou desacatada. Mas a política de geração de miséria e ausência de políticas sociais é que deslegitima a autoridade. Ninguém vivendo na miséria — material ou existencial — legitimará o poder que lhe subordina. No máximo tolera por algum tempo. 

Não há inteligência nem eticidade nos governantes. Remoções sob o fundamento de imprescindibilidade para obras públicas apenas se destinam a afastar os pobres das áreas nobres. Removidos são deixados ao relento, como foram os desabrigados da Favela da Telerj. Na madrugada, sirenes da Guarda Municipal impediam o sono dos miseráveis que permaneciam na chuva à frente da sede da prefeitura, reclamando direito constitucional de moradia. A parceria entre as três esferas de poder — municipal, estadual e federal — não tem sido em proveito dos pobres, mas da cartolagem. 

Não adianta ao príncipe construir fortalezas se não tiver o apoio do povo. E não há como evitar o dissenso do povo se o produto da riqueza social não lhe é partilhado. Este dissenso é o que fortalece as instituições, pois lhe possibilita encontrar formas de resolução dos problemas sociais sem apelo para a força, para a truculência ou a eliminação física dos que se opõem. A paz sem voz não tem vida; é a paz dos cemitérios. Aqueles que governaram sob as armas por 21 anos, antes que fossem apeados do poder, promoveram transição lenta, gradual e segura. Com isto, salvaram suas cabeças e se garantiram a impunidade pelos crimes cometidos. Não esticaram a corda até que arrebentasse. Souberam ver que as armas — muito úteis contra os inimigos externos — não adiantam por muito tempo quando usadas contra o povo. Ao contrário, apenas o fortalecem e o agrupam pelo seu inconformismo. 
 


Publicado originariamente no jornal O DIA, em 20/04/2014, pag. 12. Link: http://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2014-04-19/joao-batista-damasceno.html