quinta-feira, 3 de junho de 2021

Baixada Fluminense, lugar onde o AI-5 não foi revogado, nem os órgãos de repressão desmantelados.

 


Eu conheço profundamente a Baixada Fluminense. Conheço quase todos os bairros e com certeza todas as principais vias de locomoção, de Magé a Itaguaí, incluindo parte da Zona Oeste e Vila Militar na Cidade do Rio de Janeiro.

Atuei dezenas de anos na Baixada Fluminense, onde fui juiz por quase 18 anos do início de 1995 ao final de 2012. De 2006 a 2008 fui juiz da Zona Eleitoral cujo cartório ficava há poucos metros do lugar dos assassinatos narrados na matéria cujo link se encontra abaixo.

Sempre soube que os 'matadores' têm salários pagos por empresários, cargos comissionados em prefeituras ou contratos de trabalho com órgãos públicos. Os 'matadores', na verdade, são agentes paraestatais; é a mais perversa PPP/Parceria-Público-Privada. Se não recebem diretamente de órgãos públicos recebem de empresários que contratam com o poder público. Arma, munição e veículos custam dinheiro e alguém paga. Neste momento estão assanhados. Mas, sempre tiveram atuação desde que foram instituídos os primeiros grupos com autorização para matar. Depois de institucionalizaram e ganharam novas formas e nomes.

Ao assumir a titularidade da Zona Eleitoral da Cerâmica (bairro da execução descrita na matéria abaixo), em 2006, perguntei ao chefe do cartório se tínhamos funcionários ou bens cedidos da prefeitura ou de empresários, colocados à disposição da justiça eleitoral. Ainda que fosse para o serviço seria inadequado para uma justiça encarregada de realizar o pleito eleitoral municipal. Sempre achei estranho que juízes, encarregados de julgar atos do poder público ou de empresários. Mas, alguns se locomovem em veículos lhes cedido para uso pessoal. Tinha e ainda os tem. Disse ao chefe de cartório que se tivéssemos iríamos devolver. A resposta foi negativa. Não tínhamos!

Recebi posteriormente uma informação de que 'matadores' estavam atuando com um veículo Gol branco da prefeitura e que estariam promovendo execuções nas madrugadas com o veículo oficial.

Até 2007, quando a polícia promoveu as execuções do Alemão e Coréia, à luz do dia e com filmagem, as execuções e chacinas eram feitas à noite. As chacinas do Alemão e Coréia são um divisor de águas. Em razão do acompanhamento das investigações a Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ, composta dentre outros pelo advogado, juiz de direito aposentado pelo AI-1 e defensor dos direitos humanos, integrante da Associação Juízes para a Democracia/AJD, João Luiz Duboc Pinaud, foi destituída. Parte da diretoria da OAB/RJ vivia um momento de namoro com o governo do Estado do Rio de Janeiro, visando ao pleito eleitoral de 2008.

A ciência de que 'matadores' estavam atuando com veículo oficial me impressionou. Não era fato submetido à minha competência funcional. Limitei-me às comunicações que poderia fazer.

Posteriormente o juiz Wanderley Rêgoi pediu-me que cedesse para a Zona Eleitoral que titularizava a funcionária municipal que trabalhava comigo. Disse que não tinha bens ou pessoas cedidas pela municipalidade ou por empresários. Ele me disse que tinha sim e que se eu não quisesse ceder que não o fizesse. Mas, que eu tinha. Em seguida me deu o nome da funcionária e sua matrícula. Pedi prazo para apurar.

Chamei o chefe do cartório ao meu gabinete. Voltei a indagar se tínhamos bens ou funcionários da prefeitura à disposição da Zona Eleitoral. Ele voltou a afirmar que não tínhamos. Pedi que lavrasse uma certidão da inexistência. Ele o fez. Em seguida narrei o que sabia e perguntei pela funcionária. Ele ficou amarelo.

Cientificado de que eu sabia da funcionária, seu nome e matrícula ele disse que a deixara em casa, sem trabalhar, pois se eu tomasse ciência dela eu a devolveria para a prefeitura.

Em seguida perguntei se tínhamos mais alguém à disposição. Ele disse que sim: um motorista. Perguntei que carro ele dirigia e o chefe do cartório me disse que era um Gol branco colocado pela prefeitura à disposição do cartório eleitoral há muitos anos. Fiquei gelado!

Determinei que certificasse, novamente, que não tínhamos outro funcionário ou bem, além da funcionária, do motorista e do carro.

Pedi que ligasse para a funcionária e para o motorista para que viessem ao meu gabinete.

Quando o veículo chegou, analisei seus documentos, chassis, números nos vidros, placa e em seguida busquei informação sobre a placa do Gol branco que estava sendo usando em execuções noturnas. Ufa! A placa era outra. Respirei aliviado, mesmo sabendo que o outro veículo Gol continuava a atuar em outras mãos. Mas, não eram os funcionários que trabalhavam comigo.

Restitui os funcionários e o veículo à municipalidade, instaurei sindicância contra o chefe do cartório e fiz comunicação ao TRE/RJ daquela ocorrência. Igualmente comuniquei ao Ministério Público sobre o crime de falsidade contido na certidão lavrada pelo chefe de cartório.

Uma juíza me procurou dizendo que um ex-presidente do TRE/RJ queria conversar comigo sobre o “mal entendido” do chefe do cartório. Não me dispus a recebê-lo e pedi à 'colega' que não me trouxesse recados. Sabia quem fora o seu motorista do desembargador (ex-policial) e sua filha, nomeada para o Cartório de Notas de Suruí pelo Corregedor Geral de Justiça, quando eu era juiz em Magé em 1996.

Jamais tive ciência de qualquer providência tomada pelo Ministério Público em razão do crime de falsidade praticado pelo chefe de cartório da justiça eleitoral.

O TRE/RJ considerou o fato medianamente relevante e o sancionou, para mim, simbolicamente.

Nas eleições de 2012 eu era juiz eleitoral no bairro ao lado: Posse, onde 4 policiais militares foram protagonistas da maior chacina da história do local. Na época, eles estavam à paisana quando saíram de um bar, ao lado da Funerária São Salvador, com a missão de tirar a vida do maior número de pessoas que encontrassem pela frente. Trabalhadores diversos tiveram suas vidas terrivelmente arrancadas por esses agentes do Estado. O resultado foi um total de 29 mortos, 4 condenações e 1 pergunta: Até quando? Mas, esta história das 29 mortes, da funerária São Salvador e do desembargador, ex-presidente do TRE/RJ que queria falar comigo, será objeto de outra crônica.

Da mesma forma prometo outra crônica sobre o episódio da destituição da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ que estava apurando as chacinas do Alemão e da Coréia em 2007, por pessoas que hoje posam de boa gente defensora da dignidade da pessoa humana. Desde que o Capitão Zamith instalou os seus na Baixada Fluminense, as suas práticas não se alteraram. Na Baixada Fluminense o AI-5 não foi revogado, nem os órgãos de repressão desmantelados.

Em data recente uma ilustre desembargadora federal proferiu voto no qual narrava o custeio da subsistência de um militar que atuara na “Casa da Morte”, em Petrópolis, por empresário de transporte em Nova Iguaçu. Isto também vale uma crônica para estabelecimento dos elos que posso comprovar em decorrência de minha atuação consciente ao longo do período que – de um lugar privilegiado – via suas movimentações.

Muitos juízes atuam e deixam de atuar nas comarcas da Baixada Fluminense, passam pelas comarcas, e não conhecem as relações que nelas se estabelecem. São juízes do que escrevem para eles. Não têm sequer possibilidade de aquilatar os fatos que lhes narram.

Em cada dia trabalhado na Baixada Fluminense eu me inspirava no poeta Thiago de Mello: “Faz escuro mas eu canto”. Sou discípulo de Dom Adriano Hipólito e de Dom Mauro Morelli.

"Faz escuro mas eu canto,

porque a manhã vai chegar!"


P.S1.: A moradora que registrou a execução corre “risco de vida” (expressão usada por Machado de Assis).

P.S2.: A matéria contida no link abaixo expõe o vídeo gravado pela moradora. As cenas são fortes.

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/06/02/video-mostra-jovens-sendo-executados-em-nova-iguacu.ghtml

sábado, 29 de maio de 2021

QUEM NÃO BEBE NÃO VAI PARA O CÉU


Na última quarta-feira, 26, uma fala inusitada do Papa Francisco viralizou nas redes sociais. No vídeo gravado pelo padre Carlos Henrique Alves, de Divinópolis/MG, o Papa Francisco fez uma brincadeira bem humorada com o padre João Paulo Souto Victor, da Paraíba, que pediu ao Papa que rezasse pelos brasileiros. Em tom de brincadeira, o pontífice disse: "Vocês não têm salvação; muita cachaça e pouca oração".

Papa Francisco sabia o que estava falando. Falou para um padre paraibano, mas estava sendo filmado por um padre mineiro. Nós mineiros somos incorrigíveis. Se Cristo tivesse andado por estas bandas nós o teríamos ensinado a transformar caldo de cana ou garapa em cachaça e não água em vinho.

Os puritanos torceram o nariz para a declaração do Papa. Mas se concebessem o Cristo que é descrito nos quatro evangelhos, tal como a narrativa que neles contém, veriam que há mais referências do filho de Deus bebendo ou andando com publicanos e pecadores que rezando. Somente numa vez Cristo ensinou os discípulos a rezar, que é o Pai Nosso. Mas também os ensinou a responder aos que lhes criticassem por estar andando com bebuns ou entrando nas tabernas: “Quem precisa de médico? Os sãos ou os doentes?”.

Senti-me lisonjeado com a fala do Papa. Sou cachaceiro. Aprendi desde pequeno a plantar a cana depois de escolher a espécie e o gomo, esperar o tempo para o corte, moer, fermentar e destilar. O prazer de beber somente aprendi mais tarde.

Mineiro que se preza é cachaceiro. Se não gostar de cachaça pode ser tudo, menos mineiro. Pode ser baiano a caminho do Rio de Janeiro, Capixaba que esqueceu onde é a divisa ou goiano atrás de outro depressivo para cantar uma música sertaneja narrando a dor de corno. Mas mineiro raiz não o é. No máximo, um mineiro nutella.

Mineiro que não bebe cachaça é um tipo de mineiro que estudou regência e faz todas as concordâncias nominais e verbais e que nunca teve bicho de pé, não fala uai e não sabe o que é um “trem bão demais da conta”. É uma espécie de mineiro light destinado à apresentação pra gringo. Não é mineiro de verdade.

Mineiro é cachaceiro com orgulho. E agradece quando seu valor é reconhecido. Depois de condenar uma igreja neopentecostal a fazer tratamento acústico, para permitir que a vizinhança dormisse, o advogado da igreja recorreu dizendo que era perseguição religiosa dos vizinhos e que tinha encontrado guarida num juiz que além de macumbeiro era cachaceiro. Não pratico qualquer religião. A ideia de que sou macumbeiro decorreu de uma palestra que fiz na OAB de Nova Iguaçu, onde falando do ideário de justiça que orienta os povos falei de Xangô e de sua eticidade. Não pude reclamar com o advogado. Afinal, acreditar que eu professasse tal culto não era ofensa. Igualmente não poderia reclamar dele ter dito que eu era cachaceiro. Imagina se eu o processasse e ele pedisse para fazer a exceção da verdade? Eu acabaria me tornando um cachaceiro com decisão judicial trânsita em julgado, qualidade que torna as sentenças imodificáveis.

Mineiro de verdade é cachaceiro, ainda que comedido. E se lhe tiram a cachaça ele entristece. Um amigo em Santa Margarida/MG andou tristonho, amoado, recôndido (mineiro contrariado fica amoado ou recôndido) porque suas cachaças estavam desaparecendo. A princípio pensou que fosse um sobrinho que estava bebendo, mas o sobrinho ainda não bebia cachaça. Depois começou a desconfiar que estivessem jogando, aos poucos, as cachaças fora.

Quando reclamava da situação não faltavam conselhos impróprios. Uns lhe diziam para ir para a Igreja, outros diziam que se apegasse à sua santa toda vez que quisesse beber e outros sugeriam que substituísse o armário onde guardava as cachaças por um oratório. Nenhuma das soluções lhe agradava.

Os amigos encontraram uma saída: fazer um oratório, com chave, onde ele pudesse colocar suas cachaças. Assim, quem olhasse para o oratório acreditaria na sua religiosidade. Mineiro é religioso, embora muitos sequer tenham fé no que transcende. Mas são exteriormente religiosos, tal como os fariseus ou sepulcros caiados. Os amigos fizeram o oratório!

Dentro do oratório, somente cachaças com nomes de santo: São Francisco, Santo Antônio, São Paulo, Santa Martha, Beata e claro, Santo Grau, produzida pela família do meu amigo Pepe no mais antigo engenho em funcionamento no Brasil e onde Tiradentes passava para beber algumas, enquanto articulava a Conjuração Mineira. Espero que esta lembrança não estimule nenhum bovino a dizer que a Conjuração Mineira foi coisa de cachaceiro fazendo balbúrdia. Meu conterrâneo o desembargador Cláudio Manoel da Costa não morreu em briga de botequim, nem Tiradentes deu sua vida por coisa pouca.

Os cachaceiros têm lugar na cultura brasileira e especialmente na mineira. Assim, como o escocês se orgulha do seu Whisky, os alemães de suas cervejarias locais e os franceses dos seus vinhos, precisamos tomar a cachaça como expressão da nossa cultura.

E se algum religioso implicar podemos usar a própria bíblia para retrucar: O primeiro milagre de Cristo foi transformar água em vinho. Somente depois cuidou de ressuscitar mortos, curar leprosos e andar sobre as águas. No Velho Testamento, no livro de Provérbios, que é um livro de sabedoria, há expressa recomendação para que se amenize o sofrimento do povo dando-lhe cachaça: “Dai bebida forte ao que está prestes a perecer, e o vinho aos amargurados de espírito. Que beba, e esqueça da sua pobreza, e da sua miséria não se lembre mais” (Provérbios, 31:6,7).

Quem condenou as bebidas foi São Paulo. Mas isto decorria de sua formação militar. Fora um oficial do Exército Romano. Imagina um pelotão bêbado! Se sóbrios os militares sempre fizeram arruaça, bêbados ou drogados são um risco para todos, inclusive para eles próprios. Depois os moralistas calvinistas deram corda à proibição. Quem não bebe e condena as bebidas pode ser paulino ou calvinista. Mas cristão não é.

Somente os que querem a infelicidade do povo lhes censuram os prazeres. O próprio filho de Deus experimentou os desprazeres feitos por religiosos sisudos e classe dominante perversa. A caminho do calvário, chegando a um lugar chamado Gólgota, que significa Caveira, lhe deram para beber vinho e ele aceitou. Mas estava misturado com fel e ele, depois de provar, recusou-se a beber (Mateus 27: 33,34).

Não é a cachaça que faz a pessoa comedida perder a cabeça. São João Batista não bebia o que tivesse sido fermentado, nem depois de destilado, e perdeu a cabeça assim mesmo. E o divino primo se referia àquele da seguinte forma: “Veio João Batista, que jejua e não bebe vinho, e vocês dizem: ‘Ele tem demônio’. Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e vocês dizem: ‘Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores’”. (Lucas 7: 33)

Na última ceia, o filho da divindade foi claro: se quiser entrar no céu e sentar-se comigo à mesa tem que aprender a beber: “Eu lhes afirmo que não beberei outra vez do fruto da videira, até aquele dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus” (Marcos 14: 25). Quem não bebe não terá direito a tal prazer.

Cachaceiros de toda a Minas Gerais, uni-vos e orgulhem-se!












sábado, 22 de maio de 2021

A mulher do general

Eu conheci Dom Adriano Hipólito, que foi bispo de Nova Iguaçu e um dos mais corajosos opositores à truculência exercida pelo Estado durante a ditadura empresarial-militar. Dom Adriano era um educador e parte da minha formação decorreu da leitura da Folha, por ele editada. Ele aproveitava o que queríamos ouvir e nos falava do que sabia ser necessário falar. Ele sabia que tínhamos desejo de justiça e nos instrumentalizava e encorajava para seguirmos em busca dela. E repudiava a idolatria à religião.

Foi com ele que aprendi que o fanatismo é o apego dos oprimidos contra a opressão, mas que acaba por ampliar os poderes dos líderes religiosos que enganam o povo e mantêm a opressão, a miséria, a fome e a ignorância. Foi com ele que aprendi o significado da expressão: “A religião é o suspiro do ser oprimido, o coração de um de um mundo sem coração e a alma de um mundo sem alma. É o ópio do povo”.

Igualmente foi com ele que aprendi sobre a exploração religiosa por 'empresários da fé' que vendem as crenças como felicidade ilusória para afastar o povo da exigência da felicidade real. Ele falava que o apego ao rito religioso era a expressão de um mundo sem alma. E mais, dizia que deveríamos sempre buscar a essência que está no horizonte inalcançável para o qual olhamos e em direção ao qual devemos sempre caminhar.

Outro fraterno bispo, Dom Mauro Morelli, em 1987, publicou um artigo intitulado ‘Feijão na panela de pressão, uma questão para a Constituinte’. No Encontro Regional de Estudantes de Direito (Ered) daquele ano levei o artigo e li para meus colegas. O artigo é sobre a fome que volta a rondar os lares das famílias brasileiras. Somente um pai ou mãe que não tenha com o que alimentar seus filhos sabe o que é a dimensão da fome. Fome não é apetite. Não é o ronco no estômago de quem se atrasou para o almoço ou para o jantar que esfria na mesa. Fome é a ausência de certeza do que terá para comer no dia que raia ou nos dias que o sucederão. Fome é a desesperança de alimentação, que é direito social.

A 'Folha de Dom Adriano' era publicada pela Vozes, que igualmente editou o livro de Dom Mauro Morelli ‘Como fazer a Nova República’, que precisaremos refundar e desta vez realizar, depois que passar a tormenta que nos assola. Altivamente chegará o momento de nos opormos à destruição do país. A obediência, recato e ‘neutralidade’ diante dos que oprimem apenas nos tornam cúmplices dos algozes. Os poderosos não se saciam. O capital não tem limite para a acumulação. A conciliação que se fez com os banqueiros nas últimas décadas o demonstra. Depois dos anéis, exigem os dedos. E depois as mãos, os braços e por fim o coração.

Foi na 'Folha de Dom Adriano' que li um artigo sobre Davi, rei de Israel, contada no Velho Testamento da Bíblia. Durante uma sesta, Davi avistou, do seu palácio, uma mulher muito bonita tomando banho. Era Betsabá. Convidada para ir ao palácio tiveram relação e ela engravidou. Mas ela era casada com um general, Urias. O rei não perdeu tempo. Chamou Joab, chefe de seu exército e ordenou: “Coloque Urias na frente, onde o combate for mais renhido e desampare-o para que ele seja ferido e morra”.

Antes de colocar suas vidas e suas honras a serviço de quem está nos cargos ou no poder, todo general deveria se perguntar a que interesse serve. Os poderosos não respeitam os que lhes servem, apenas adoçam suas bocas com sinecuras enquanto se mostrarem como matéria prima para ser consumida nos seus apetites. Quem servilmente obedece pode estar comprometendo sua honra em favor de quem não merece tal sacrifício.


Publicado originariamente no jornal ODIA em 21/05/2021. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2021/05/6150513-joao-batista-damasceno-a-mulher-do-general.html


quarta-feira, 19 de maio de 2021

Moreira César, o assassino da campanha de Canudos (1896-1897)

No contexto à repressão ao arraial de Canudos, a chamada Campanha de Canudos, após o fracasso de duas incursões militares, o baiano Manuel Vitorino, presidente interino do Brasil, nomeou o coronel Moreira César para comandar uma terceira expedição militar. Vitorino na época era o vice-presidente da República, mas exercia interinamente a presidência no lugar de Prudente de Morais, que estava afastado por motivo de saúde.[1] A primeira fora comandada pelo tenente Manuel da Silva Pires Ferreira (1859 - 1925), tendo sido batida em Uauá (novembro de 1896), e a segunda pelo Major-fiscal Febrônio de Brito (1850 - ?), batida, por sua vez, em Tabuleirinho (janeiro de 1897).

Moreira César partiu do Rio de Janeiro para a Bahia em 3 de fevereiro de 1897, aportando em Salvador a 6 do mesmo mês. No dia seguinte partiu para Queimadas, onde chegou no dia 8 pela manhã, por trem expresso. Temendo que os sertanejos abandonassem o arraial, intensificou os preparativos para a partida da tropa em direção a Monte Santo. O seu efetivo era composto por mil e trezentos homens, seis canhões Krupp, cinco médicos, dois engenheiros militares, ambulâncias e um comboio cargueiro com munições de guerra e de boca.

Antes de acampar em Monte Santo, onde estabeleceu a segunda base de operações, Moreira César sofreu uma crise epiléptica, que se repetiria, com mais brandura, na Fazenda Lajinha, entre Monte Santo e Vila do Cumbe (atual Euclides da Cunha). Em Cumbe mandou prender o vigário local, padre Vicente Sabino dos Santos, sob a acusação de partidário de Conselheiro. O religioso foi solto posteriormente, por interferência do Estado-maior.

Próximo ao arraial de Canudos a expedição foi atacada por piquetes de homens de Conselheiro, sem que porém tenha havido enfrentamento.

 No dia 2 de março a coluna militar avançou sobre o Rancho do Vigário, a dezenove quilômetros de Canudos. Moreira César pretendia aproximar-se do arraial, permanecer um dia nas vizinhanças das margens do rio Vaza-Barris, bombardear a povoação e em seguida conquistá-la com a sua infantaria.

Na manhã do dia 3 Moreira César mudou subitamente de idéia, optando pelo ataque imediato. O arraial foi duramente castigado pelas peças de artilharia. O assalto final teve início após o meio-dia. Os defensores de Canudos defenderam-se a tiros a partir das igrejas velha e nova. Nos primeiros momentos as forças do exército conseguiram invadir o arraial e conquistar algumas casas. Foram, contudo, obrigadas a recuar, devido à pouca munição.

Após cerca de cinco horas de combate, Moreira César foi ferido no ventre, quando se preparava para ir à frente de batalha incentivar a tropa. Atendido pelos médicos, estes constataram tratar-se de ferimento mortal. O comando foi transferido ao coronel Pedro Tamarindo.

Após mais de sete horas de combate encarniçado, o coronel Tamarindo decidiu recuar. Moreira César faleceu doze horas após haver sido atingido, na madrugada de 4 de março de 1897, protestando que Canudos fosse uma vez mais atacado. Em reunião de oficiais, às 23 horas da noite anterior, fora decidida a retirada, dado o grande números de feridos. Moreira César mandou constar em ata que, se saísse vivo da guerra, pediria a exoneração do exército.

A retirada constitui-se uma das situações mais críticas em que o exército brasileiro esteve envolvido, uma vez que, batido, foi obrigado a percorrer os cerca de duzentos quilômetros que separam Canudos de Queimadas, primeira base de operações da tropa.

O ataque mal sucedido ordenado por Moreira Cesar é atribuído a seus constantes ataques de epilepsia. Estudos foram documentados por Elza Márcia Targas Yacubian como um dos casos em que a epilepsia mudou o rumo da história.


O assassinato do jornalista Apulcro de Castro, por Moreira César



O assassinato do jornalista Apulcro de Castro, por Moreira César (1883)

Apulcro de Castro era redator-responsável do jornal "Corsário" e foi assassinado por um grupo de militares na rua do Lavradio, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Anos mais tarde, Euclides da Cunha registrou à página 297 de "Os sertões" (1ª ed.) o episódio, que envolveu o jovem Moreira César:[3]

Foi em 1883. Um jornalista, ou melhor, um alucinado, criara, agindo libérrimo graças à frouxidão das leis repressivas, escândalo permanente de insultos intoleráveis na Côrte do antigo império; e tendo respingado sobre o Exército parte das alusões indecorosas, que por igual abrangiam todas as classes, do último cidadão ao monarca, foi infelizmente resolvido por alguns oficiais, como supremo recurso, a justiça fulminante e desesperadora do linchamento.

Assim se fez. E entre os subalternos encarregados de executar a sentença figurava, mais graduado o capitão Moreira Cesar, ainda moço, à volta dos 30 anos, e em cujos assentamentos havia já, averbados, merecidos elogios por várias comissões exemplares cumpridas. E foi o mais afoito, o mais impiedoso, o primeiro talvez no esfaquear pelas costas a vítima, exatamente na ocasião em que ela, num carro, sentada ao lado de autoridade superior do próprio exército se acolhera ao patrocínio imediato das leis…

O atentado acarretou-lhe a transferência para Mato Grosso, e dessa "Sibéria" canicular do nosso exército, tornou somente após a proclamação da República".


  1. Fonte:  Leopoldo M. Bernucci (2001). Ateliê Editorial, ed. Os Sertões: Campanha de Canudos. Edição comentada de Os Sertões, de Euclides da Cunha. [S.l.: s.n.] p. 425. ISBN 8574800139

quinta-feira, 13 de maio de 2021

AJD – ENCONTRO DE SALVADOR (2008)

No Encontro da AJD ‘Diálogos e Alteridade’ em Salvador, no ano de 2008, conversamos com J.J. Calmon de Passos. Eu gostaria de ter o autógrafo do processualista. Na véspera do encontro percorri a pé toda a cidade de Salvador em busca de uma livraria procurando um livro do professor.

Descobri que em São Salvador não havia livrarias. Nenhuma, com exceção da Forense que vendia livros próprios!

Em Salvador, em 2008, não havia uma única livraria. Somente papelarias onde também se vendiam livros didáticos. Fui a sebos. Conheci o Sebo do Brandão, no alto de um morro. Brandão, de quem já havia comprado livros pela Estante Virtual, me recepcionou muito bem, mas não tinha nenhum livro de J.J. Calmon de Passos. Ele queria me vender um exemplar original da tese do professor. Mas, queria que eu desse todo o dinheiro que tinha na carteira, o cartão de crédito com a senha, o talonário de cheques já assinado em branco, um rim e uma córnea. Não foi possível adquirir aquele exemplar raro. Contentei-me com as conversas e as fotos.

Ao chegar ao Rio de Janeiro separei os livros do professor para quando o encontrasse no futuro pedir o autógrafo. Mas, ele morreu na semana subsequente ao nosso encontro.

A partir daquele ano passei a olhar para a grandiosidade das cidades em razão da existência de bibliotecas públicas e livrarias.

No dia seguinte ao encontro com J.J. Calmon de Passos fomos a um terreiro que sofria assédio de igrejas neopentecostais.

Aquele terreiro fazia 100 anos e na data comemorativa fora tombado. Representava a resistência que também exercitamos.

Maurício Brasil, juiz que coordenava o núcleo da AJD na Bahia, diz: “Foi um dia histórico para a AJD, a 1ª vez que o conselho executivo sobe o morro, visita um terreiro de candomblé e é recebido com um café da manhã regado com a história do terreiro contada pelo sábio do Tumba Junçara. Foi o que fiz de melhor na minha gestão. Axé”.

Fui ao terreiro com a camisa do América F.C., vermelha e branca. Mas o time era tão ruim que Xangô, por justiça, não lhe poderia ajudar a vencer. Há coisas tão difíceis que são impossíveis até para Xangô. Nem com raios e trovoadas Xangô conseguiu ajudar o América. Mas, a rua Campos Sales ficou toda inundada.














1º ENCONTRO NACIONAL DA AJD - RECIFE

Neste encontro a AJD deliberou que iria se nacionalizar. Onde houvesse pelo menos 10 associados poderia ser instalado um núcleo da entidade.

A organização impecável pelos companheiros da terra de Frei Caneca, do Padre Roma, de Abreu e Lima, cujos nomes retificarei a postagem para incluir, nos propiciou um dos mais brilhantes encontros que já realizamos.

Prestamos homenagem a Francisco Julião. Sua filha compareceu para receber a homenagesm.

Paulo Bonavides e Raul Eugenio Zaffaroni foram palestrantes. Zaffaroni foi entronizado no Maracatu.

Por proposta do associado Fernando Mendonça (MA) foi fixado o quantitativo de 10 para a instalação dos núcleos.

No Rio de Janeiro éramos seis (tal como o romance de Maria José Dupré): Maria Lúcia Karam, Letícia, Casara, Alexandre, Haddad e eu. Buscamos novos associados e em 29/02/2008 instalamos o Núcleo da AJD-RIO. Os novos associados foram: Verani, Siro Darlan, Márcia Quaresma, André Tredinnick, Marcos Peixoto, Marcos Alcino, Regina Rios, João Luiz Duboc Pinaud, além de outras e outros que vou consultar a ata para corrigir a postagem.

A instalação do Núcleo da AJD-RIO aconteceu numa tarde aprazível, na Rua Aprazível em Santa Teresa, na sede do Instituto Carioca de Criminologia/ICC. Estiveram colegas de outros Estados. De São Paulo: Dora Martins, Kenarik Boujikian, Marcelo Semer, José Torres e do Amazonas: Luís Carlos  Valois.



Paulo Bonavides palestrou no 1o. Encontro Nacional da AJD, em Recife


Zaffaroni entronizado no Maracatu.