domingo, 16 de julho de 2023

Onde está Mariano?

Uma farsa foi montada. Um delegado substituto chegou a indiciar mais de 60 pessoas, inclusive a mulher e filhos do pedreiro, como membros de organização criminosa. Presa a família do pedreiro ninguém mais perguntaria por seu paradeiro. Nem todos os indiciados foram denunciados à justiça. Mas coube à juíza do caso remeter o processo ao Procurador Geral de Justiça para que ampliasse o rol de acusados. Mídia e instituições do sistema de justiça estavam irmanados com o projeto de segurança. Coube a um delegado indignar-se com a injustiça e elaborar relatório paralelo, trazendo à luz o que se urdia.

O documentário ‘Cadê o Amarildo?’ estreou ontem na Globoplay, 10º aniversário da prisão, tortura seguida de morte na UPP da Rocinha e sumiço com o corpo do pedreiro Amarildo, quando o Secretário de Segurança era o Delegado da Policia Federal José Mariano Beltrame, no Governo Sérgio Cabral. O ex-governador reapareceu. Mas fica a pergunta: Onde está Mariano?

O Caso Amarildo coincidiu com a indignação da sociedade brasileira com os recursos empregados na realização dos Grandes Eventos, notadamente, Olimpíadas e Copa do Mundo. Como sempre ocorre com os gastos militares a sociedade não fora informada que iguais valores eram gastos com as Olimpíadas das Forças Armadas, enquanto faltavam para hospitais, escolas, política de habitação, transporte, saneamento básico e outros indispensáveis à vida com qualidade.

Além das obras para os Grandes Eventos, vultosos recursos foram gastos na área de segurança para garantir os negócios dos cartolas. Com a política de segurança gastava-se mais que com educação e saúde, conjuntamente. A segurança dos negócios e os negócios da segurança são áreas pouco ou quase nada objeto de curiosidades e denúncias. Talvez decorra do fato de se tratar de área sensível, onde as controvérsias não se resolvem à luz do dia. Os personagens que saíram das sombras, dos porões e dos esgotos e assombram a democracia nos dão conta de quem são os que fazem negócios a pretexto de garantir segurança pública.

Quem não conhece os reais objetivos das políticas de segurança pode até se embevecer com os discursos, notadamente porque legitimadas pela mídia transformada em mera porta-voz das autoridades. Matérias sobre a área de segurança se limitam a reproduzir cegamente discursos de autoridades. Assim foi implantada a Política de Extermínio no Rio de Janeiro a partir de 2007.

Desde os Jogos Panamericanos de 2007 fora instituída no Rio de Janeiro a Política de Extermínio de pretos e pobres para que os eventos pudessem acontecer com segurança para os investidores. Naquele ano foram realizadas duas chacinas à luz do dia: as Chacinas do Alemão e da Coréia. Antes, as chacinas eram realizadas após o anoitecer ou nas madrugadas. Para exemplificar, lembremos das chacinas da Candelária e de Vigário Geral.

As Chacinas do Alemão e da Coréia foram um ponto de inflexão na política de segurança no Estado do Rio de Janeiro, caixa de ressonância para o Brasil. Havia um encantamento com o projeto de eliminação física de pessoas em conflito com a lei e setores diversos da sociedade acreditavam que a criminalidade se elimina eliminando quem eventualmente deveria, num Estado de Direito, ser processado e julgado. Um dos maiores líderes políticos da esquerda, em julho de 2007, comentando aqueles crimes do Estado, disse que “não se combate crime com rosas”. Juristas de uma comissão de defesa dos direitos humanos, que acompanhavam as investigações das execuções, foram destituídos pela direção da instituição que compunham.

Mas quem cria cachorro bravo deve ter cuidado porque ele pode sair de controle e morder até o próprio dono. Naquele período mais de vinte secretários de segurança dentre as vinte e sete unidades da federação eram delegados federais, com largo trânsito no Ministério da Justiça. O que se fez foi o embrião da Lava Jato e ascensão da direita odiosa. Em 14 de julho de 2013, menos de um mês da manifestação que reuniu mais de um milhão de pessoas no Centro do Rio de Janeiro, um morador da Rocinha foi conduzido coercitivamente para a UPP, sem mandado judicial que o autorizasse e sem que se tratasse de prisão em flagrante, e de lá não saiu vivo. Torturado para delatar o que não sabia em determinado momento clamava: “Me matem, mas isto não! Não façam isto comigo. Podem me matar. Mas isto não!”. A descrição é de um dos policias que estava no alojamento ao lado do local onde Amarildo era torturado. Não se sabe o que fizeram com ele a ponto dele pedir para ser morto ao invés de submetido a tal crueldade.

O Estado agiu rápido. Logo convenceu a mídia de que Amarildo fora morto por traficantes em razão do que contara aos policiais. Uma farsa foi montada. Um delegado substituto chegou a indiciar mais de 60 pessoas, inclusive a mulher e filhos do pedreiro, como membros de organização criminosa. Presa a família do pedreiro ninguém mais perguntaria por seu paradeiro. Nem todos os indiciados foram denunciados à justiça. Mas coube à juíza do caso remeter o processo ao Procurador Geral de Justiça para que ampliasse o rol de acusados. Mídia e instituições do sistema de justiça estavam irmanados com o projeto de segurança. Coube a um delegado indignar-se com a injustiça e elaborar relatório paralelo, trazendo à luz o que se urdia.  

A partir do relatório policial que desmontava a farsa oficial e das manifestações que indagavam o paradeiro do pedreiro, o mundo passou a se perguntar “Onde Está Amarildo?” ou “Cadê o Amarildo?”. O documentário sobre o pedreiro assassinado pela Política de Segurança executada pelo Secretário José Mariano Beltrame estreia com material inédito sobre o caso que ganhou repercussão internacional, mas não aborda o papel da mídia que legitimou a ocorrência até que a voz das ruas impôs o aparecimento da verdade. Nem nos informa onde está Mariano.

 

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 15/07/2023, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2023/07/6671547-joao-batista-damasceno-onde-esta-mariano.html


domingo, 2 de julho de 2023

CULTURA, CONHECIMENTO E FAKE NEWS

 

Tendo saído do mundo da natureza vivemos no mundo da cultura. Muito do que fazemos não é natural, mas cultural. Alimentar-se ou hidratar-se é um ato biológico e determinado pela natureza. Como ou com o que se alimentar ou se hidratar é determinado pela cultura. Enquanto nós, os brasileiros, não nos alimentamos com insetos ou morcegos outros povos não se alimentam com camarão ou carne de porco. Uma amiga sul-coreana me falou sobre carne de cachorro, hábito alimentar em seu país. Achei estranho. Mas um amigo comum, árabe, que nos ouvia, interveio e me perguntou sobre nosso hábito de comer carne de porco, para ele, hábito alimentar tão estranho quanto os insetos, morcegos ou cachorros

Cultura é um conceito amplo que representa o conjunto de valores, tradições, crenças e costumes de determinado grupo social. A cultura embora dinâmica é recepcionada, vivida e transmitida por meio da comunicação ou imitação de uma geração para outra, sucessivamente. A cultura é um aprendizado social, vivenciado na família, na escola e nos demais grupos sociais nos quais o indivíduo se integre. Cultura é o patrimônio social de um grupo, traduzindo-se nos padrões dos comportamentos humanos e envolve conhecimentos, experiências, atitudes, valores, crenças, religião, língua, hierarquia, relações espaciais, noção de tempo, conceitos de universo e muitos outros que caracterizam e identificam um determinado grupamento.

A cultura na sociologia representa o conjunto de saberes e tradições de um povo. Estes são produzidos pela interação social entre os indivíduos de uma comunidade ou sociedade. Em sessenta momentos diferentes a Constituição da República se refere a cultura ou valores culturais. No artigo 5º dispõe sobre direitos e garantias fundamentais e expressa que qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ao patrimônio histórico e cultural.

A mesma Constituição dispõe que é competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios a proteção às obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, assim como impõe o dever de proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação, à ciência, à tecnologia, à pesquisa e à inovação. O poder de legislar sobre matéria cultural igualmente é definido concorrentemente a todos os entes federativos. 

No título que trata da ordem social a Constituição reservou seção própria para tratar da cultura e dispõe que o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, bem como impõe o apoio, incentivo, valorização e difusão das manifestações culturais. Dispõe
ainda a Constituição que o estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.

A cultura pressupõe a passagem do estado de natureza para um estado civilizatório. A negação do conhecimento acumulado ao longo da história é a negação da cultura. É uma incompreensão do progresso da humanidade e exaltação da primariedade da vida. Há os que se orgulham da estupidez e os que revestem a incultura com a verborragia empolada.

Viver em sociedade implica estar integrado aos seus valores. As instituições foram criadas e são mantidas para dar referência para os comportamentos presentes e reduzir as incertezas do futuro. Como seres sociais somos capazes de dar significado ao que originariamente não o tinha. Os sociólogos designam este processo de reisificação ou coisificação. ‘Res’ é coisa em latim e é de onde provém as palavras república, que significa coisa pública, e reivindicar, que significa requerer uma coisa. No livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, há um diálogo entre o Pequeno Príncipe e uma raposa. Quando o menino vai partir a raposa lhe diz que para ela, até então, o trigal era coisa indiferente, pois raposas não comem trigo. Mas que a partir daquela data quando visse o vento no trigal se lembraria dos cabelos dele e que imaginaria que estivesse por perto. O trigal que antes era indiferente para a raposa ganhou um significado. Os símbolos diversos com os quais convivemos cotidianamente, e que dão sentido aos nossos comportamentos, igualmente foram construídos socialmente, seja a indumentária, os artigos religiosos ou práticas sociais diversas.

Conhecimento é cultura. Mas a falta de conhecimento formal não é ausência de cultura. Ao contrário. O conhecimento é apenas um dos elementos culturais de um grupo social. Afinal, todos conhecemos pouco e ignoramos muito. O conhecimento é limitado a apenas ao que foi objeto de nossa compreensão. Mas vivemos um momento no qual, sobretudo em razão das redes sociais, as opiniões estão sendo sobrepostas ao conhecimento. Assim, difundem-se as fake news, publicizam-se as opiniões despidas de fundamento e enaltece-se a estultice. Mas a sociedade caminha para frente e ocasionalmente corrige seus erros e excessos. A democracia é parte da cultura de um povo e nós a estamos construindo. Falta muito. Mas já demos significativos passos.

publicado originariamente no jornal O DIA, em 01/07/2023, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2023/07/6662834-joao-batista-damasceno-cultura-conhecimento-e-fake-news.html

sábado, 17 de junho de 2023

10 ANOS DAS JORNADAS DE JUNHO


No próximo dia 20 completarão 10 anos da maior manifestação popular carioca, dentre as muitas que se realizaram em 2013. Havia um milhão de pessoas nas ruas. Tudo transcorria como expressão legítima da democracia, até que se iniciaram confrontos de alguns poucos com o aparato repressivo do Estado, que se voltou contra todos.

Naquela e em outras manifestações foram muitos os registros de pessoas que promoviam atos de vandalismo e depois se refugiavam no meio dos policiais que reprimiam os demais. “Bandeira falsa” é expressão conhecida para designar este tipo de prática e consiste em uma ação hostil executada com o objetivo de atribuir ato impopular a quem não é seu verdadeiro autor, de modo a justificar, junto à opinião pública, a adoção de medidas de exceção – como repressão política, guerra ou golpe de estado.

Em 30 de abril de 1981 militares do Exército arquitetaram a colocação de bombas durante um show musical no Riocentro, onde matariam milhares de jovens. O objetivo da “linha-dura” do Exército Brasileiro era atribuir a carnificina a organizações de esquerda, justificar o aumento da repressão e impedir a abertura política. O plano fracassou porque uma das bombas explodiu no colo do sargento Rosário, matando-o, e ferindo o Capitão Machado, que - protegido - seguiu carreira até se reformar como coronel.

Grupos sociais diversos ainda disputam a narrativa sobre as Jornadas de Junho de 2013. Não é correto afirmar-se que eram atos preparatórios para o que seria o golpe parlamentar que destituiu a Presidenta Dilma, nem para a ascensão do obscurantismo que tomou conta do país no período subsequente. Ao contrário, a repressão às legítimas forças populares e a proteção estatal aos grupos truculentos foi que recolocou no palco político aqueles que desde o fim da ditadura empresarial-militar se escondiam nos porões.

Analisando a ascensão do obscurantismo nos últimos tempos o ministro Gilmar Mendes, do STF, abordou – em evento em Lisboa - o fomento a atos golpistas e ataques às instituições democráticas brasileiras. O ministro afirmou que o país "estava sendo governado por uma gente do porão", que exercia influência sobre "zumbis consumidores de desinformação". Também ressaltou o papel de agentes públicos que, presumivelmente, trabalharam com a ideia de um golpe militar e que representariam "um grande problema para a democracia atual". Conforme disse o ministro, haveria agentes públicos "adestrados" na "cartilha de um fanatismo político ignóbil".

O rumo que as coisas tomaram não era o que sociedade almejava quando se manifestou em 2013. A frustração com o que ocorria no Brasil foram as reais causas daquelas manifestações, que não foram compreendidas e propiciaram a retirada do povo das ruas, em decorrência de brutal repressão, liberando os espaços públicos para grupos truculentos, que jamais foram incomodados.

Antes das manifestações já se davam sinais do descontentamento. Os distúrbios num fim de semana no início de 2013, no subúrbio carioca, decorrentes do boato de que na segunda-feira os valores depositados a título de bolsa família seriam confiscados, levou milhares de pessoas aos caixas eletrônicos para saques. Quando o dinheiro acabava a multidão depredava a agência e seguia para outra. Longe de buscar interpretar o porquê da crença em tão abominável boato o então ministro da justiça requisitou a instauração de inquérito policial para tentar descobrir quem o havia difundido. Mais importante que o boato ou os danos que se causavam era tentar entender porque aquelas pessoas acreditavam numa fofoca tão despropositada. Isto não foi feito.

Os arranjos institucionais necessários para a governabilidade decepcionaram os que haviam depositado as esperanças numa democracia substancial. Ao invés das políticas públicas almejadas, o que tivemos foram grandes obras para grandes eventos, buscando distrair o povo e enriquecer poucos. Um jogador de futebol chegou a declarar que não se faz Copa do Mundo construindo hospitais.

A multifacetação da sociedade colocou em xeque as instituições. A precarização do mundo do trabalho dificulta a organização dos trabalhadores na defesa de seus interesses de classe. A aglutinação em torno de bandeiras particulares e discursos, por vezes antagônicos, se contrapõe aos interesses comuns da classe a que pertence a pessoa.

A insatisfação que se expressava em 2013 era contra a precarização da vida. Sem um projeto reconstrução efetivamente nacional, visando aos nacionais e destinado ao mundo do trabalho as esperanças se transformaram em decepção. O incentivo do Estado à formação de conglomerados para disputar mercado internacional não foi compreendido pela sociedade. Afinal, o controle de alguns conglomerados era de fundos de investimentos. O que presenciamos foi a formação de oligarcas, precarização do mundo do trabalho, e dispensa massiva de mão de obra a depender de programas assistenciais, ainda que não tenha se constituído em assistencialismo asfixiador da própria democracia.

Hoje vivemos sob escombros. Mas estamos vivos e fortes e já avistamos raios de luz. Mas precisamos nos livrar do entulho, removê-lo, continuar a caminhada para uma democracia substancial, bem como iniciar a reconstrução do país que almeja a classe trabalhadora do campo e das cidades.

 

Publicado originariamente no jornal O DIA em 17/06/2023, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2023/06/6653857-joao-batista-damasceno-dez-anos-das-jornadas-de-junho.html

10 ANOS DAS JORNADAS DE JUNHO

sábado, 3 de junho de 2023

A vitória do direito de defesa e do Estado de Direito


A indicação, pelo presidente da República, do advogado Cristiano Zanin para o STF é antes de tudo a vitória do Estado de Direito e do direito de defesa. Num momento de irresistível ascensão do fascismo, os que defendem as liberdades precisam ser alteados. O papel dos advogados é mal compreendido. Confunde-se a defesa do acusado com a defesa do fato imputado. Quando todos se voltam contra um, resta apenas uma esperança: alguém que o defenda.

Em processos rumorosos atuam contra o acusado a polícia, o Ministério Público, a mídia, a opinião pública, os diretamente interessados e, não raro, os demais agentes do sistema de Justiça. Alguém precisa submeter o linchamento ao devido processo legal e para isto existem os advogados. Quando independentes e altivos, os advogados são essenciais para a democracia e Estado de Direito. “O advogado é indispensável à administração da justiça”. Está na Constituição.

Advogados sempre foram malvistos pelos ditadores. Napoleão Bonaparte fechou a instituição que agregava os advogados na França e mandou cortar a língua de advogados que lhe faziam oposição. Hitler proibiu que os excluídos de direitos fossem defendidos por advogados, a quem qualificava como figuras desprezíveis. Mussolini, em uma só noite, mandou incendiar 40 escritórios de advocacia.

 No Brasil, o general-presidente João Figueiredo, numa das suas declarações estapafúrdias chegou a sugerir que o Maracanã fosse alugado para prender os advogados, como única forma de executar sua política. Durante a ditadura empresarial-militar no Brasil, advogados foram sequestrados e intimidados. Dentre as vozes que não se calaram durante o aquele regime estão Sobral Pinto, Modesto da Silveira, Heleno Cláudio Fragoso, Marcelo Cerqueira, Eny Moreira e o jovem Técio Lins e Silva.

O primeiro grande manifesto da sociedade civil contra o regime empresarial-militar ocorreu em agosto de 1977, quando o professor Goffredo da Silva Telles Junior, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, leu a ‘Carta aos Brasileiros’, na qual denunciava a ilegitimidade do governo e o estado de exceção em que vivíamos. Na carta foi proclamada a necessidade de restabelecimento do Estado de Direito e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.

Reconhecendo que não mais representava a sociedade, o regime procurou quem fosse seu interlocutor com ela. O papel coube ao presidente nacional da OAB, Raimundo Faoro.

Em suas defesas, diante do lawfare que se institucionalizou nos últimos anos, o advogado Cristiano Zanin atuou com desassombro. Em 2016 houve tentativa do então juiz Sérgio Moro de atacá-lo durante uma audiência, um dia depois de ter ajuizado uma ação contra o procurador do PowerPoint. O ex-juiz aproveitou seu momento de exercício de poder que o cargo lhe conferia para ironizar a defesa e sua linha de atuação. Em 2020 teve a casa alvo de mandado de busca e apreensão emitido pelo juiz Marcelo Bretas, numa clara intimidação. Em janeiro deste ano foi hostilizado em um banheiro no Aeroporto de Brasília. Impávido como Muhammad Ali atuou com admirável paciência.

O advogado Cristiano Zanin é da estirpe do Sobral Pinto. Dr. Sobral remeteu, em 18/09/1937, carta para Leocádia Prestes, que estava na Alemanha nazista tentando repatriar a neta, filha de Olga com Luiz Carlos Prestes, onde escreveu: “Perdemos o Dr. Lassance e eu, todo o dia de ontem no esforço, até agora vão, de levar um tabelião ao presídio onde está o filho de V.Exa., a fim de lavrar uma escritura pública de reconhecimento, por parte de Luis Carlos Prestes, de sua filha Anita Leocádia. Só encontramos má vontade e medo. Todos temem sofrer a campanha, que já está sendo feita contra mim, de serem proclamados delegados do Comintern, a soldo de Stálin. Certamente V.Exa. já se acha informada de mais esta perfídia inventada contra o modesto advogado, que, fiel discípulo de Jesus Cristo, tem sabido, até este instante, colocar os deveres de sua consciência religiosa acima de suas conveniências pessoais. (...) Consolo- me, porém, com as declarações do filho de V.Exa. feitas de público, de que ‘estando cercado, na Polícia Especial, só de vermes, apareceu-lhe, afinal, um homem’. Este homem fui eu. Mais adiante, na sua defesa oral, acrescentou: ‘O Sr. Sobral Pinto exerce a advocacia como um sacerdócio’. Que mais poderei eu ambicionar nesta causa, da parte deste meu cliente ex-officio? Da parte dos juízes e da administração quero muito mais ainda, pois, até agora, não me atenderam no que venho pleiteando: Justiça”.

Advogados hão de ser como Sobral Pinto, Modesto da Silveira e Cristiano Zanin em defesa de quem precisa ser defendido, em defesa das liberdades e da democracia. Sua nomeação não é um prêmio por sua atuação, mas reconhecimento de seu notável saber jurídico, reputação ilibada e compromisso com o Estado de Direito. O STF ganha um elevado magistrado, talhado na defesa do direito de defesa e o Brasil mais um ministro conhecedor do devido processo legal. Ganhamos todos!

 

 

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 03/06/2023, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2023/06/6645146-joao-batista-damasceno-a-vitoria-do-direito-de-defesa-e-do-estado-de-direito.html

sábado, 20 de maio de 2023

Rita Lee dialogou com os valores do seu tempo

A morte de Rita Lee nos deixa um vazio. Ela é o ícone de uma época. Com sua obra dialogou com as transformações sociais desde os Anos de Chumbo, na década de 1970. A primeira vez que ouvi falar dela, foi em 1975, ano do lançamento do disco Fruto Proibido. Eu ainda não tivera a atenção despertada para ela. Mas um colega de escola ouvira, numa pregação religiosa, repúdio ao seu estilo e à banda Tutti Frutti, cujos integrantes viviam numa casa à beira da represa de Ibiúna, onde compunham.

A mãe do meu colega, uma senhora religiosa, endossava orgulhosa tudo o que o filho falava. Ela tinha outros filhos, mas aquele era o prodígio defensor dos valores familiares. Era um menino radical na defesa de Deus, da pátria e da família. O menino discursava sobre sexo, drogas e Rock´n Roll como se soubesse do que falava, tal como alguns pregadores mirins neopentecostais da atualidade. Nas bifurcações da vida cada um de nós seguiu um caminho.

Quando o reencontrei, ele continuava inquieto com o que considerava pecados do mundo. Perguntei pelos seus irmãos e pela sua mãe. Ele disse que ela desaparecera. Isto me impressionou. Ele me apresentou Rita Lee, que passei a admirar, e o desaparecimento de pessoas, que me assombra até hoje, notadamente depois que estudei o tema e passei a atuar em defesa da dignidade da pessoa humana. De vez em quando recordava dele e dos irmãos que não sabiam o paradeiro da mãe.

Em data recente o reencontrei nas redes sociais. Ainda assombrado com o desaparecimento de sua mãe, perguntei por ela. Ele disse que ela reaparecera. Nada mais falou, nem quis assunto comigo. Falei disto para uma amiga comum. Minha amiga começou a rir e disse que a senhora havia efetivamente desaparecido, mas não em situações trágicas como eu supunha. Mas que havia deixado para trás, na pequena cidade em que vivíamos, o marido e a penca de filhos e fugido com um médico, por quem se apaixonara.

A referência que me veio à memória foi o diálogo da personagem de Nicole Kidman com o personagem de Tom Cruise no início do filme ‘De Olhos Bem Fechados’, de Stanley Kubrick, onde narra para o marido o desejo por um desconhecido que avistara: “Na praia, passei o dia inteiro perdida em devaneios. Se ele me chamasse — julguei então —, não teria podido resistir. Acreditava-me capaz de tudo, pronta a abrir mão de você, da criança, de meu futuro; acreditava estar já decidida e, ao mesmo tempo — será que poderá me entender? —, você me era mais caro do que nunca”.

Aquela mãe que aplaudia o precoce conservadorismo do filho, que aos 12 anos repetia como um papagaio os sermões religiosos, também tinha seus desejos e para reprimi-los condenava Rita Lee, que fazia sucesso cantando “Ovelha Negra” e “Luz del Fuego”, além de outras músicas compostas em parceria com Paulo Coelho.

Em 1980, um programa numa TV aberta pretendia se comunicar nas manhãs com as donas de casa. Não era um programa de culinária. Nele se falava de tudo, notadamente de sexo. O programa era apresentado pela sexóloga Marta Suplicy, pelo estilista Clodovil Hernandez, por Marília Grabriela e por Ney Gonçalves Dias, além de outros. A abertura do programa mostrava os bastidores da TV, com apenas mulheres no controle, embalado pelo som da música "Cor-de-rosa Choque", de Rita Lee.

Rita Lee fez mais pelas sadias relações sociais que muitos discursos, teses ou manifestos. Ela era um manifesto. Era cantora, compositora, multi-instrumentalista, apresentadora, escritora e ativista. Participou de importantes revoluções no mundo da música e da sociedade. Suas canções, evocando a felicidade e o bem viver são recheadas de ácida ironia e com reivindicação de independência e liberdade, o que se depreende das mais populares: “Ovelha Negra”, "Mania de Você", "Lança Perfume", “Agora Só Falta Você”, "Baila Comigo", "Banho de Espuma", "Desculpe o Auê", “Erva Venenosa”, "Amor e Sexo", "Flagra" e "Doce Vampiro".

Num país marcado pelo militarismo, onde perduram as pensões para filhas “solteiras”, justiça própria para julgar seus crimes, regime de previdência próprio e rede hospitalar própria custeada por toda a nação, apenas o seu nome traz esta referência, sem contaminar sua biografia. Seu pai era descendente de imigrantes estadunidenses confederados do Alabama e Tennessee estabelecidos em Santa Bárbara d`Oeste em São Paulo e o nome composto lhe atribuído, bem como às suas irmãs é uma homenagem ao general Lee, comandante vencido na Guerra Civil Americana ou Guerra de Secessão.

Ela desafiou a sisudez do regime empresarial-militar e contribuiu para uma nova concepção da realidade. Em sua apresentação em Aracaju, em 2012, a artista se mostrou indignada com a violência policial contra os meninos que assistiam ao seu show. Revoltada, denunciou, protestou e xingou os que praticavam a arbitrariedade. Processada, a ação com pedido de danos morais, ajuizada por 35 policiais de Sergipe, foi julgada improcedente. Rita Lee não foi apenas a Rainha do Rock Nacional. Ocupou lugar dentre os defensores das liberdades públicas; foi vanguarda das liberdades e do bem viver.

 

Publicado originariamente no jornal O DIA em 20/05/2023, pag. 14. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2023/05/6635788-joao-batista-damasceno-rita-lee-dialogou-com-os-valores-do-seu-tempo.html


 

sábado, 6 de maio de 2023

Não é mera falsificação, nem foram 20 centavos


Reducionismo é uma tendência consistente em abreviar fenômenos complexos, analisando-os e explicando-os exclusivamente por um dos seus componentes mais simples. As insatisfações manifestadas quando das Jornadas de Junho de 2013 foram interpretadas por muitos como oposição ao aumento das passagens do transporte público em vinte centavos. Revogados os aumentos e mantidos os protestos imputaram-lhes qualidade de manifestações orquestradas contra governantes específicos. Desconsideram-se as reais razões do descontentamento e abriram-se as portas para os que prometiam soluções simples para os problemas complexos.

O moralismo absorveu o discurso institucional e político e a difusão de fake news serviu de escada para a ascensão da ignorância audaciosa. A internacionalização da Economia e a crise globalizada tem propiciado redução da qualidade e expectativa de vida, difundindo mal-estar. O capital internacional que entrou no país e prognosticou determinada taxa de rentabilidade não aceita receber menos que o programado.

Daí a redução dos postos de emprego, achatamento de salários, precarização do processo produtivo e outros meios para manter o lucro esperado, ampliando a desigualdade social, desconsiderando o princípio da dignidade da pessoa humana e impedindo a realização dos direitos fundamentais e sociais, esculpidos na Constituição, dentre os quais Educação, Saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados.

A democracia é a força política do número. E se propositadamente parcela da população é afastada do direito à Educação fica sujeita à incompreensão dos valores que permeiam as relações sociais e que são marcos de civilidade, convertendo-se em presa fácil para o oportunismo. Num cenário de insatisfação, incompreensão e conflito o campo se torna fértil para os propagadores de soluções simplistas a exemplo do que o mundo experimentou na primeira metade do século XX na Itália fascista e Alemanha nazista.

As instituições foram criadas para dar referência de ordem, e não para impô-la, e reduzir as incertezas do futuro. Dos chefes dos poderes do Estado exige-se tenham paixão pela causa pública, sentimento de responsabilidade e senso de proporção na tomada de decisões. Imbróglios institucionais, por vezes decorrem de excessiva paixão no exercício do poder e ausência de sentimento de responsabilidade, acarretando falta de proporcionalidade nas decisões estatais.

Dispõe a Constituição que os deputados e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos. A imunidade, no entanto, se destina ao fiel exercício do mandato, visando a realizar os objetivos fundamentais da República, quais seja, construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais, bem como promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

A imunidade parlamentar não pode ser utilizada contra tais objetivos. E, se for tentada a violação, cabe aos demais poderes o exercício do controle. Dispõe também a Constituição que compete privativamente ao Presidente da República conceder indulto e comutar penas, com audiência, se necessário, dos órgãos instituídos em lei.

O juízo sobre a necessidade ou não de consulta aos órgãos instituídos por lei é uma faculdade do presidente da República. Mas, seja mediante prévia consulta ou dispensando-a, deve o chefe do poder político - no exercício de suas funções - subordinar-se aos interesses da sociedade e aos princípios que norteiam os atos da Administração Pública, dentre os quais, legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. A conduta dos administradores públicos ou chefes de poder visando a caprichos ou atendimentos de interesses pessoais de aliados ou correligionários torna o ato praticado inválido.

Monteiro Lobato disse que “uma nação se faz com homens e livros”. O autor chamava a atenção para a importância da leitura na construção de uma identidade social e desenvolvimento de um país. Mas já tivemos na elite política brasileira quem acreditasse que “livros têm muita coisa escrita”, denotando o desprezo pela Ciência, pelo conhecimento e pela Cultura, indispensáveis ao processo de socialização.

O resultado não poderia ter sido outro que não o rodeamento por quem igualmente não tinha apreço pelos valores fundamentais à sociedade e que eram capazes de atos vis, tais como pequenos falseamentos e vilipêndio a memória de vítima de assassinato. A pequena falsificação, por vezes, apenas demonstra a estatura de quem a pratica, de quem a ordena, tolera ou dela tira proveito.

Maquiavel, no seu livro O Príncipe, dedicou um capítulo aos auxiliares dos governantes e disse que “a primeira opinião que formamos de um príncipe e da sua inteligência estriba-se na qualidade dos homens que o circundam”. É isso!

 

Publicado originariamente no dia 06/05/2023 no jornal O DIA, pag. 14. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2023/05/6626436-joao-batista-damasceno-nao-e-mera-falsificacao-nem-foram-20-centavos.html

sábado, 22 de abril de 2023

Atos terroristas de 8 de janeiro: faça-se luz!

Os poucos segundos de exibição das cenas dos atos terroristas do dia 8 de janeiro foram suficientes para derrubar o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República. Os atos foram registrados em 22 câmeras, gerando cerca de 165 horas de gravação, num total de 250 gigabytes. As gravações vazaram para a rede de TV depois que houve recusa do ministro em fornecê-las, segundo se noticiou, à CPI da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).

Não é possível formular juízo vendo apenas alguns segundos dos registros. As notícias que mostram a presença do ministro demitido no Palácio não nos dizem que tais imagens foram captadas às 16h30min, portanto, depois dos atos terroristas. É possível que o trato dispensado aos terroristas tenha ocorrido depois que a situação estava controlada e que apenas se tratava com dignidade as pessoas presas e as conduzia ao segundo andar de onde seriam encaminhadas para a formalização da prisão em flagrante.

Segundo noticiou a imprensa, o ministro havia recusado a remessa das imagens à Câmara Legislativa do DF, alegando que os arquivos eram grandes demais. O presidente da CPI, deputado distrital Chico Vigilante, do PT, chegou a dizer que forneceria um HD externo para armazenar as imagens. Estaria o ministro se protegendo ou protegendo colegas de farda em razão de fidelidade castrense?

É preciso considerar que um oficial militar ingressa numa escola preparatória na adolescência, depois numa academia militar e ao longo da vida é adestrado a ter fidelidade aos seus pares e à sua instituição. Não raro sequer estabelecem vínculos fora do círculo profissional. Quando muito, estabelecem relações externas em razão de conveniências pessoais. O que falam entre si entre eles permanece. A exemplo do que demonstrou o ex-comandante do Exército, general Villas Bôas, a interlocução que estabelecem institucionalmente com a sociedade não corresponde ao que realmente pensam.

No Brasil, salvo exceções, sempre que podem atacam a democracia e a soberania popular. Foram dezenas as intervenções militares ao longo da República. A mais emblemática durou 21 anos e comprometeu o futuro do país, além de ter se notabilizado por torturas, assassinatos, desaparecimentos de pessoas, roubos, estupros e outras perversidades.

Duas questões precisam ser consideradas para a tomada de decisões futuras sobre o destino do país: 1) os golpistas não desistiram de afrontar a ordem democrática e o Estado de Direito e contam com apoio – inclusive financeiro – dentro e fora das instituições; 2) a conciliação não nos permite superar a agigantamento do papel das Forças Armadas desde o golpe que instituiu a República, quando passaram a se considerar Poder Moderador e avalistas das instituições, mesmo que a sociedade não lhes tenha atribuído tal papel.

Os atos terroristas de 8 de janeiro já vêm sendo investigados pela Polícia Federal, é objeto de atenção do STF – que também foi depredado – e pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Agora teremos também uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) a ser instalada pelo Congresso Nacional.

É fundamental para a vitalidade da República que se esclareçam os fatos. O funcionamento do aparato militar há de ser objeto de atenção por todos os que se se preocupam com a democracia e com o Estado de Direito. O general demitido é um ancião, na reserva, comandava um grupo de militares antes chefiados pelo ex-ajudante de ordens do general Silvio Frota e conta com mais de 50 anos no Exército. É preciso esclarecer se tinha condição de comando ou se estava ‘liderando’ um grupo rebelde que lhe fazia ouvidos moucos.

Em artigo pretérito elogiei a extraordinária compreensão institucional do ministro Flávio Dino quando decretou intervenção na Polícia Militar do DF no dia 8 de janeiro, recusando-se a editar decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), com convocação das Forças Armadas para controle dos atos terroristas. Tivesse sido decretada a GLO os interventores estariam até hoje na Praça dos Três Poderes e as instituições ainda lhe deveriam louvores pelos atos que os próprios deram causa.

Conciliar não é legal. E sabemos disto desde a Lei da Anistia de 1979, que isentou os praticantes de crimes de Estado de responsabilização e que mesmo depois de anistiados, continuaram a colocar bombas pelo país. As sucessivas decretações de GLOs, colocando as FFAA em papel policial, as trouxe de volta à política. A manutenção dos acampamentos antidemocráticos após o dia 1º de janeiro foi uma falha. As instituições falharam ao não reconhecer o perigo fascista que subsistia, mesmo depois de derrotada nas urnas e de ter ameaçado a Justiça Eleitoral. Os acampamentos antidemocráticos, protegidos e auxiliados pelo Exército, eram a parte visível do ovo da serpente. 

Ótimo que mais uma investigação será engendrada. É preciso que sobre tais fatos haja luz. Afinal, a luz do sol é o melhor desinfetante par defenestrar os vermes e a democracia demanda publicidade.


Publicado originariamente no jornal O DIA, em 22/04/2022, pag. 14. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2023/04/6617372-joao-batista-damasceno-atos-terroristas-de-8-de-janeiro-faca-se-luz.html