O texto abaixo foi escrito pela embaixadora francesa Anne Lange sobre Vavá e sua banca de livros que ajuda a difundir a cultura escrita.
Francisco
Olivar, ou Vavá, doou cerca de 15.000 livros para a Constituição de uma
biblioteca comunitária na Cidade de Santa Margarida, em Minas Gerais. O
ex-prefeito cedeu um espaço para a sua instalação, mas o atual prefeito
despejou a biblioteca e cedeu o espaço para o funcionamento de uma lanchonete.
Novo
espaço foi arranjado para a instalação da biblioteca comunitária, por meio de
comodato celebrado com a empresa proprietária do imóvel, mas o prefeito
encaminhou à Câmara um projeto de lei visando à expropriação do imóvel, a
pretexto de que no passado fora doado para a instalação de serviço telefônico à
Telemig. No entendimento do prefeito a privatização da Telemig implicou
transferência do imóvel a outra pessoa jurídica que não a que recebeu a doação,
o que a torna reversível.
Ao
final, segue a tradução.
Banca
do VAVÁ
Au
cœur de Rio, là où la ville se déploie dans le bruit des pas, des voix et des
rêves mêlés, il existe un lieu que l'on ne trouve sur aucun plan.
Un
lieu si simple qu'il pourrait passer inaperçu.
Quelques
toiles tendues vers le ciel.
Une
table débordante de livres.
Quelques
vieux disques qui gardent encore la mémoire des chansons.
Et un homme.
Un homme nommé Vavá.
Les
livres y reposent en piles incertaines, inclinées comme des maisons anciennes
qui se soutiennent mutuellement depuis des siècles.
À
première vue, cela ressemble au désordre.
Mais
il existe des désordres qui cachent un ordre plus profond.
Comme
les forêts.
Comme
les constellations.
Comme
la mémoire des hommes.
Sous
le chapiteau de Vavá, les livres ne sont pas rangés.
Ils
habitent ensemble.
Ils
se parlent peut-être lorsque la nuit tombe sur Rio.
Les poètes y murmurent aux philosophes.
Les
romanciers y échangent des souvenirs avec les musiciens.
Les rêveurs y tiennent compagnie aux sages.
Et
dans cette douce confusion où nul ne cherche à dominer l'autre, quelque chose
de précieux demeure vivant : la liberté.
Du
chaos jaillit la lumière.
Non
la lumière éclatante des projecteurs ou des vitrines.
Une
lumière plus discrète.
La
lumière intérieure qui naît lorsqu'une pensée rencontre une autre pensée.
Lorsqu'un
lecteur rencontre un livre.
Lorsqu'un
être humain rencontre un autre être humain.
Car
c'est peut-être cela, le véritable secret du lieu.
Les
livres n'en sont pas le centre.
Ils en sont le langage.
Le cœur du lieu bat ailleurs.
Il
bat dans les conversations improvisées.
Dans
les sourires échangés.
Dans
les silences habités.
Dans
cette confiance spontanée qui semble circuler sous le chapiteau comme une brise
venue de la mer.
On s'approche pour regarder un livre.
Puis
l'on reste.
Sans
savoir pourquoi.
Comme
on demeure un peu plus longtemps auprès d'un feu lorsque la nuit tombe.
Autour
de la table de Vavá se forme chaque jour une petite république invisible.
Une communauté sans statut, sans frontière et sans
hiérarchie.
Une
fraternité éphémère composée de passants, de lecteurs, de rêveurs et
d'inconnus.
Et
chacun y trouve sa place.
Lorsque
j'ai appris que plus de dix mille livres avaient quitté cette oasis de papier
pour rejoindre la bibliothèque libre de Filosofia na Praia, à Leme, j'ai
compris que Vavá accomplissait depuis longtemps une œuvre silencieuse.
Il
ne conserve pas les livres.
Il
les libère.
Il
ne les possède pas.
Il
les confie au monde.
Comme
un jardinier disperse ses graines en sachant qu'il ne verra jamais toutes les
fleurs éclore.
Chaque
ouvrage déposé sur une étagère de la plage devient une possibilité.
Une
rencontre.
Une
étincelle.
Une
promesse.
Peut-être même un destin.
Les
banques du monde gardent l'or.
Vavá
fait circuler la lumière.
Et
cette lumière voyage de main en main, de regard en regard, de conscience en
conscience.
Sans
bruit.
Sans
publicité.
Sans
autre ambition que celle de continuer son chemin.
Peut-être
est-ce aussi pour cela que ce lieu m'a émue.
Parce
qu'au-delà des livres, des disques et des conversations, j'y ai retrouvé
quelque chose que notre époque oublie parfois.
La
chaleur humaine.
Cette
capacité merveilleuse à accueillir l'autre avant même de le connaître.
À
lui faire une place.
À
lui offrir un peu de temps.
À
lui accorder sa confiance.
Sous
le chapiteau de Vavá, la culture n'est pas un privilège.
Elle est une rencontre.
Elle ne s'élève pas au-dessus des hommes.
Elle
circule entre eux.
Comme
le vent.
Comme
la musique.
Comme
la mer.
Comme
la lumière.
Et
lorsque je repenserai à Rio, je me souviendrai moins des monuments que de ce
petit îlot de papier amarré au cœur de la ville.
Je
me souviendrai d'un homme debout à côté d'une montagne de livres, veillant avec
douceur sur leur éternelle migration.
Car
certains bâtissent des empires.
D'autres bâtissent des monuments.
Vavá, lui, bâtit l'invisible.
Une
cathédrale sans murs.
Une
bibliothèque sans portes.
Une
œuvre faite de confiance, de liberté et de fraternité.
Et
dans le tumulte du monde, il me semble qu'il n'existe pas de plus belle
architecture.
Anne
Lange
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TRADUÇÃO LIVRE:
Banca do VAVÁ
No coração do Rio, onde a cidade se desdobra em meio aos
sons de passos, vozes e sonhos misturados, existe um lugar que não se encontra
em nenhum mapa.
Um lugar tão simples que poderia facilmente passar
despercebido.
Algumas telas estendidas em direção ao céu.
Uma mesa transbordando de livros.
Alguns discos antigos que ainda guardam a memória de
canções.
E um homem.
Um homem chamado Vavá.
Os livros jazem ali em pilhas precárias, inclinados como
casas antigas que se sustentam mutuamente há séculos.
À primeira vista, parece desordem.
Mas há desordens que escondem uma ordem mais profunda.
Como florestas.
Como constelações.
Como a memória da humanidade.
Sob a tenda de Vavá, os livros não estão organizados.
Eles convivem.
Talvez conversem entre si quando a noite cai sobre o Rio.
Poetas sussurram para filósofos ali. Romancistas
compartilham memórias com músicos. Os sonhadores fazem companhia aos sábios.
E nessa suave confusão, onde ninguém busca dominar o
outro, algo precioso permanece vivo: a liberdade.
Do caos surge a luz.
Não a luz ofuscante dos holofotes ou das vitrines.
Uma luz mais discreta.
A luz interior que nasce quando um pensamento encontra
outro.
Quando um leitor se depara com um livro.
Quando um ser humano encontra outro.
Pois talvez esse seja o verdadeiro segredo do lugar.
Os livros não são o seu centro.
Eles são a sua linguagem.
O coração do lugar pulsa em outro lugar.
Pulsa em conversas espontâneas.
Em sorrisos trocados.
Nos silêncios repletos de significado.
Nessa confiança espontânea que parece circular sob a
tenda como uma brisa marítima. Você se aproxima para olhar um livro.
E então fica.
Sem saber por quê.
Como ficar um pouco mais perto de uma fogueira quando a
noite cai.
Em volta da mesa de Vavá, uma pequena república invisível
se forma a cada dia.
Uma comunidade sem status, sem fronteiras e sem
hierarquia.
Uma fraternidade efêmera composta por transeuntes,
leitores, sonhadores e estranhos.
E todos encontram seu lugar.
Quando soube que mais de dez mil livros haviam deixado
esse oásis de papel para se juntar à biblioteca gratuita da Filosofia na Praia,
em Leme, compreendi que Vavá já vinha realizando um trabalho silencioso há
tempos.
Ele não guarda os livros.
Ele os liberta.
Ele não os possui.
Ele os confia ao mundo.
Como um jardineiro que semeia, sabendo que jamais verá
todas as flores desabrocharem.
Cada livro colocado em uma prateleira na praia se torna
uma possibilidade.
Um encontro.
Uma faísca.
Uma promessa.
Talvez até um destino.
Os bancos do mundo guardam o ouro. Vavá faz circular a
luz.
E essa luz viaja de mão em mão, de olhar em olhar, de
consciência em consciência.
Silenciosamente.
Sem alarde.
Sem qualquer ambição além de continuar sua jornada.
Talvez seja por isso que este lugar me comoveu.
Porque além dos livros, dos discos e das conversas,
redescobri algo que nossa época às vezes esquece.
O calor humano.
Essa maravilhosa capacidade de acolher o outro mesmo
antes de conhecê-lo.
De abrir espaço para ele.
De oferecer-lhe um pouco de tempo.
De conceder-lhe confiança.
Sob a tenda de Vavá, a cultura não é um privilégio.
É um encontro.
Não se eleva acima das pessoas.
Flui entre elas.
Como o vento.
Como a música.
Como o mar.
Como a luz.
E quando eu pensar no Rio, lembrarei menos dos monumentos
do que desta pequena ilha de papel ancorada no coração da cidade.
Lembrarei de um homem parado ao lado de uma montanha de
livros, observando com ternura sua eterna migração. Para alguns, constroem
impérios.
Para outros, monumentos.
Para Vavá, porém, constrói o invisível.
Uma catedral sem paredes.
Uma biblioteca sem portas.
Uma obra feita de confiança, liberdade e fraternidade.
E no tumulto do mundo, parece-me que não há arquitetura
mais bela.
Anne Lange
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