JUÍZA PATRÍCIA ACIOLI, VEREADORA MARIELLE FRANCO E NECROPOLÍTICA
Na noite do dia 11/08/2011, precisamente há quinze anos, foi
executada a juíza Patrícia Acioli, por agentes do Estado, com armas do Estado e
munição fornecida do Estado.
Os autores dos disparos são homicidas. Mas, são partícipes –
uns no sentido penal, outros no sentido político - todos os que contribuíram
para o desfecho: O comando da PM que nomeou para o batalhão de São Gonçalo um
oficial desafeto da juíza, o comandante que incentivou os homicidas, os agentes
públicos que opinaram pela negativa da escolta que ela demandava, bem como os a
jogaram às feras. Todos têm as mãos sujas com seu sangue.
Depois de trabalhar todo o dia 11 de agosto de 2011, Dia do Advogado
e do Magistrado, Patrícia chegou em casa para o descanso, mas os homicidas a
esperavam.
É emblemático que os homicidas da juíza Patrícia Acioli
tenham escolhido o dia da instalação dos cursos jurídicos no Brasil para
praticar o crime. Não se tratou apenas de mais uma execução praticada pelo
Estado. O que se pretendeu foi demonstrar que estavam assassinando o Estado de
Direito no Brasil e que nem mesmo as instituições do Estado estão a salvo da
barbárie. O que se fez no prédio do STF, em 08 de janeiro de 2023, por outros
grupos de igual viés ideológico dos assassinos de Patrícia Acioli teve no assassinato
dela o seu prenúncio. É a barbárie que renega a civilidade, a ciência, a ética,
o Estado de Direito e a democracia.
Morta a juíza, parcela da imprensa tentou lhe assassinar a
reputação. No dia 13 de agosto de 2011 a manchete do maior jornal do Rio de
Janeiro detratá-la. Mantive correspondência com o jornalista autor das
matérias. Ele me disse que tinha a convicção de se tratar de um crime passional
praticado por pessoa que indicava e que apostava todas as suas fichas no que
dizia. Um canalha!
Guardo a correspondência que tive com ele. Seguiu-se uma
guerra editorial. O jornal O DIA apostava que não era crime passional e uma
jornalista que cobria o assunto, quando viu o caminho que as investigações
apontavam, se referindo ao outro jornal que continuava a divulgar fake News
disse-me: - Vamos ver quem vai piscar primeiro!
Realizada busca e apreensão no Batalhão de São Gonçalo, e
identificadas as armas das quais partiram os disparos, escrevi ao jornalista
que apostara todas as fichas. Ele jamais me respondeu. Guardo a correspondência
mantida com ele. Canalha! Não teve a dignidade de se retratar e reconhecer que
errara na avaliação. Não teve a dignidade de dizer que perdera as fichas
apostadas. Seu jornal não teve a dignidade de reconhecer que errara, pois na verdade
tentava mais uma farsa, tal como outras que já consumaram.
Hoje completam quinze anos do assassinato da justiça. Muitas
outras vidas foram ceifadas pela necropolítica. A decisão do STF que
condicionou as operações policiais ao atendimento de pressupostos de legalidade
durante a pandemia reduziu em 70% as mortes na cidade do Rio de Janeiro naquele
período. A letalidade na Cidade do Rio de Janeiro e nas periferias não é
resultado da criminalidade comum. É letalidade policial, apontam os mais
abalizados estudos.
É preciso repensar a política de segurança no Brasil. É
preciso repensar a política de segurança no Estado do Rio de Janeiro. Com menos
ações policiais todos os índices de morte, violência e criminalidade diminuíram
no Estado.
À margem da lei todos são marginais. Se os agentes públicos
atuam à margem da legalidade o Estado não tem a superioridade ética
indispensável para punir aqueles que descumprem as suas leis e desatendem às
suas diretrizes para a convivência social.
Há 4 dias comemoramos os vinte anos da edição da Lei 11.340,
conhecida como Lei Maria da Penha e muito se comemorou sua promulgação. Mas
outras violências contra as mulheres se perpetram cotidianamente. Se a violência
no âmbito doméstico, decorrente da misoginia fundada no patriarcado, já não mais
é admissível, igualmente não pode ser a violência do Estado contra as mulheres da
periferia e seus filhos ou daquelas que com elas se solidarizam como fez Patrícia
Acioli e Marielle Franco.
A execução de Marielle Franco é outra faceta da violência
institucionalizada e muito falta para a elucidação daquele atentado no 27º dia
da intervenção federal na área de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro,
comandado por oficiais generais do Exército Brasileiro. Tentativas anteriores
de criação de pânico na sociedade para
propiciar golpes, a exemplo do projeto de explosão do gasômetro da cidade na
hora de maior movimento ou a colocação de Bombas no Riocentro durante espetáculo
musical, nos autoriza supor do que são capazes as forças de segurança do Estado
e nos impõe compromisso com a memória, com a verdade histórica e busca da realização
da justiça.

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