sábado, 24 de agosto de 2024

Livreiros de rua, cultura do livro e burocracia estatal


Nascemos indivíduos e nos tornamos cidadãos no processo de socialização, adquirindo a cultura do meio no qual vivemos. Sociedade é um grupo de pessoas que convive com participação econômico-político-social por meio dos valores e sentimentos comuns, denominados cultura. A compreensão da importância dos valores que nos unem é um diferencial em nossa existência. Mas isto nem sempre é percebido por parcela da burocracia do Estado e por aqueles a quem se ordenam a execução do poder de polícia.

Na crônica passada sugeri o nome do cantor Roberto Carlos para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Terminei dizendo que “A ABL contribui para a difusão da língua portuguesa na sua forma escrita. Roberto Carlos também o faz. Muitos leem suas letras visando a decorar para cantar. Mais que a ABL e Roberto Carlos somente faz mais pela língua escrita o Livreiro Olivar, o Vavá, que vende livros a R$ 2,00 na entrada do Metrô da Carioca durante a semana e na Praça XV aos sábados”. Para que fui elogiar? Durante a semana fiscais da prefeitura apareceram na barraca do Olivar e ele estava ausente. Tinha atendido ao telefonema de um porteiro de um prédio que o chamara para buscar livros que um escritório jogara no lixo. Deixara uma pessoa tomando conta da banca. Ao voltar, foi informado de que os fiscais da prefeitura passarão de 3 a 5 vezes por dia na banca e que se o titular estiver ausente perderá o direito de mantê-la.

Um livreiro de rua não é um camelô que compra mercadoria fabricada na China ou vinda do Paraguai e que pode permanecer durante todo o dia no mesmo lugar à frente da mercadoria. Um livreiro de rua é um garimpeiro que visita apartamentos de quem esteja vendendo uma biblioteca ou vai a portaria de prédios, por chamada de porteiros, apanhar livros jogados fora. Por vezes raridades são desprezadas por familiares que não comungavam com o sucedido o gosto por livro

Olivar atende a centenas de porteiros no Centro, que lhe ajudam na preservação de raridades postas no lixo. Há 40 anos desempenha tal atividade de relevância cultural para a cidade. Não só o Olivar. Do Leblon a Campo Grande temos mais de 200 livreiros de rua, que vendem milhares de livros por mês a preço acessível a qualquer pessoa. Na banca do Olivar já dividi garimpagem com morador de rua interessado na aquisição de um livro, com ex-governadores de estados diferentes, com embaixadores e não raro com alguns colegas desembargadores do tribunal que componho. Uma banca de livro de rua é um espaço de convivência social. Morador da Zona Sul - e frequentador de alguns espaços privilegiados -, conheço toda a cidade do Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense - do Km 32, em Nova Iguaçu, a Magé -, locais onde atuei como juiz por 18 anos, com frequentes inspeções pessoais. Nenhum lugar é socialmente tão plural quanto uma banca de livro de rua.

Monteiro Lobato dizia que “um país se faz com pessoas e livros”. A difusão da cultura por meio da língua escrita tem sido a contribuição destes heróis do livro, sob chuva ou sol. A Bienal do Livro deste ano foi a maior de todos os anos e o stand da Estante Virtual estampou uma fotografia do Olivar e sua banca, como reconhecimento pelo relevante serviço que presta à cultura do livro. Na comemoração dos 450 anos da Cidade do Rio de Janeiro tanto a Globo quanto a Jovem Pan transmitiram imagens do Olivar e sua banca, como expressão do cenário da cidade.

Foi a partir de livros apanhados numa calçada e levados para que crianças pobres pudessem ler na varanda de sua casa, na Vila da Penha, que Evando dos Santos, o pedreiro que nunca frequentou escola e aprendeu a ler sozinho, montou a Biblioteca Comunitária Tobias Barreto, instalada num prédio projetado para ele por Oscar Niemeyer. Evando já virou personagem de romance publicado na Itália, tema de tese de doutorado e enredo de Escola de Samba no Rio de Janeiro. Assim como Evando salva do lixo preciosidades inexistentes até na Biblioteca Nacional, os livreiros de rua prestam relevante serviço à cultura, preservando obras que de outro modo teriam como destino os lixões ou aterros sanitários.

Há alguns anos o Olivar deixou na Barraca 37, do Gaúcho, na Praia do Leme uns livros para doação aos banhistas. A SEOP encrencou pois o alvará não incluía a doação de livro. Daquela proibição resultou a Universidade Livre do Leme e o projeto Filosofia na Praia, tendo à frente o embaixador e ex-ministro da Cultura Jerônimo Moscardo. Aos sábados, de 11h00 ao meio-dia, intelectuais, estudantes e moradores se encontram para abordagem de temas específicos no quiosque da Maria Alice, em frente ao número 974 da Av. Atlântica, e doam livros a quem interessar. Graças ao Olivar, já foram doados mais de 50 mil livros. Em se tratando de livro, a SEOP e outros órgãos com poder de polícia do município deveriam ouvir antes a Secretaria de Cultura ou o Prefeito, sensível à questão cultural na Cidade do Rio de Janeiro.

Impedir que um livreiro de rua saia de sua banca para avaliar bibliotecas disponibilizadas por familiares de falecidos, ou recolher livros em portarias quando refugados por seus proprietários, seria um desserviço à cultura do livro e incentivo ao descarte de obras raras, muitas das quais já adquiri em tais mãos.

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 25/08/2024, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2024/08/6905206-joao-batista-damasceno-livreiros-de-rua-cultura-do-livro-e-burocracia-estatal.html


sábado, 10 de agosto de 2024

Roberto Carlos na Academia Brasileira de Letras

 

A Academia Brasileira de Letras (ABL) é uma instituição incompreendida. Há os que a louvam exageradamente e até os que questionam a necessidade de sua existência. Em se tratando de uma instituição privada não se pode negar-lhe o direito de existir e de recrutar seus membros pelo critério que lhe convier. O mais frequente questionamento é sobre a derrota de Mário Quintana. Mas o poeta somente disputou uma vez e saiu dizendo: “Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão... Eu passarinho!”. E passarinhando foi-se!

Carlos Drummond de Andrade jamais postulou. Mesmo convidado e dispensado das visitas protocolares não aceitou. Monteiro Lobato candidatou-se quando jovem e não foi eleito. Mais tarde convidaram-no. Mas condicionou o aceite ao assento na cadeira n.º 37, ocupada por Getúlio Vargas. Para tanto, o presidente precisaria contribuir com a própria morte. Aconteceu o contrário. Monteiro Lobato morreu antes que Getúlio Vargas suicidasse num gesto heroico, prorrogando o golpe empresarial-militar por uma década.

Como em toda paróquia não faltam as fofocas. O imortal Humberto de Campos dedicou-se a ‘falar mal’ nos seus diários, a serem publicados vinte anos após sua morte. Mas cedo faleceu e quando publicado todos de quem havia falado ainda estavam vivos. Quando da morte do imortal Agripino Grieco, que também falava de todo mundo, o imortal Ivan Lins, ao invés de homenagear o morto, só faltou chutar o caixão. Processado foi defendido pelo posterior imortal Evandro Lins e Silva. Quando Bernardo Élis derrotou o presidente Juscelino Kubitscheck, o imortal Josué Montello difundiu fake News sobre o motivo da derrota. Mas quem leu “O Tronco” ou seus contos, sabe do valor literário do imortal goiano e sua importância para entender o regionalismo, o Brasil profundo e o poder dos coronéis em Goiás.

A imortal Nélida Piñon dizia que a ABL, que presidiu, não era uma academia de escritores. Mas da elite de cada área do conhecimento humano. A palavra elite é mal apropriada no uso cotidiano. Elite são os melhores de cada grupo. Não é sinônimo de classe dominante. Atletas brasileiros que nos trazem as medalhas das Olimpíadas são a elite de cada modalidade desportiva. Este é conceito de elite, sem consideração a classe social ou patrimônio material.

A ABL sempre foi pluralista. Dentre seus fundadores estava Coelho Neto, filho de um português com uma indígena, e um negro, o abolicionista José do Patrocínio, filho de um padre com uma adolescente escravizada originária de Gana. Os imortais Humberto de Campos e Carlos Heitor Cony e o literato Antonio Carlos Villaça dizem que teve até um filho do fundador e primeiro presidente, Machado de Assis. Em se tratando de uma miniatura do Brasil é crível a existência de nepotismo, mas a estória precisa ser confirmada.

De tudo já tivemos na ABL: gênero, raça, etnia, convicções políticas, estilos literários, médicos, magistrados, militares, compositores, cantores, artistas, presidentes da República etc. Mas nunca tivemos um capixaba. E não por falta de talento no Espírito Santo, pois o cronista Rubem Braga era de Cachoeiro do Itapemirim. A esperança é o cantor Roberto Carlos. Não sei se tem livro publicado. Mas isto não é problema. Não será o primeiro a colocar capa dura numas folhas impressas e chamar de livro. E para dar volume pode fazer como o imortal Lauro Müller, imprimindo em papel encorpado. Até ajudo a escrever. Para publicar, pediremos ao Zé Mário da Topbooks, que publicou o livro “Antônio Torres, uma Antologia”, com organização e estudo introdutório de Raul de Sá Barbosa. Ah! O Antônio Torres publicado pelo Zé Mário e que desancava com a ABL era o mineiro que nasceu no século XIX e não o baiano que atualmente tem assento na cadeira n.º 8.

Sou mineiro e não posso reclamar. Minas Gerais jamais deixou de ter assento na ABL. Hoje temos Ailton Krenak, Edmar Bacha, Eduardo Giannetti, Geraldo Carneiro, Ruy Castro e Zuenir Ventura. Nem vou falar dos falecidos imortais, dentre os quais Guimarães Rosa. Este somente não é unanimidade entre nós por causa da dissidência do Nelson Rodrigues, que de sua obra falava mal e ainda atribuía a terceiros o que escrevia.

A ABL, desde sua fundação em 1897, já atribuiu a imortalidade a duzentas e setenta pessoas, incluindo os quarenta atuais acadêmicos. Não há vaga. Algumas cadeiras têm maior rodízio. As cadeiras n.º 09 e 13 já foram assentadas por nove imortais. As cadeiras n.º 7 e 11 por dez. Pela cadeira n.º 4 apenas quatro assentaram. Mas o menor rodízio não significa garantia de longevidade. A cadeira n.º 6, já assentada por seis acadêmicos, atualmente pelo imortal Cícero Sandroni, foi ocupada pelo imortal Barbosa Lima Sobrinho por 63 anos, o mais longo mandato já registrado.

A ABL contribui para a difusão da língua portuguesa na sua forma escrita. Roberto Carlos também o faz. Muitos leem suas letras visando a decorar para cantar. Mais que a ABL e Roberto Carlos somente faz mais pela língua escrita o Livreiro Olivar, o Vavá, que vende livros a R$ 2,00 na entrada do Metrô da Carioca durante a semana e na Praça XV aos sábados. Roberto Carlos na ABL, já! Ou melhor, daqui a algum tempo quando surgir vaga! Além da moqueca e das praias de Guarapari queremos um capixaba como imortal.

 

Fonte: publicado originariamente no jornal O DIA, em 10/08/2024, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2024/08/6896644-joao-batista-damasceno-roberto-carlos-na-academia-brasileira-de-letras.html

  


sexta-feira, 2 de agosto de 2024

UMA REFLEXÃO SOBRE A VENEZUELA, Boaventura de Sousa Santos

 

"Mais tarde ou mais cedo o Brasil tem de decidir-se de que lado está no novo horizonte geopolítico e geoestratégico mundial em curso"

 

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, participa de um evento perto de uma imagem do falecido presidente da Venezuela Hugo Chávez em Caracas, Venezuela, 4 de fevereiro de 2024.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, participa de um evento perto de uma imagem do falecido presidente da Venezuela Hugo Chávez em Caracas, Venezuela, 4 de fevereiro de 2024 (Foto: REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria/File Phot).

Não sou, nem nunca fui, um chavista ferrenho. Hugo Chavez foi um benévolo meteorito político que abalou o sub-continente latino-americano e o mundo na primeira década do século XXI. Em 2013, logo após a morte de Hugo Chavez, escrevi um texto intitulado “Hugo Chavez: o legado e os desafios”. Identificava alguns sinais de autoritarismo e de burocratização e terminava o texto com a seguinte frase: “Sem ingerência externa, estou seguro de que a Venezuela saberia encontrar uma solução não violenta e democrática. Infelizmente, o que está no terreno é usar todos os meios para virar os pobres contra o chavismo, a base social da revolução bolivariana e os que mais beneficiaram com ela. E, concomitantemente com isso, provocar uma ruptura nas Forças Armadas e um consequente golpe militar que deponha Maduro. A política externa da Europa (se de tal se pode falar) podia ser uma força moderadora se, entretanto, não tivesse perdido a alma”. Tenho de reconhecer que o meu temor não se concretizou até hoje, embora não tenham faltado tentativas para que ele se concretizasse. Penso que o momento actual configura mais uma dessas tentativas. Daí a importância de reflectir sobre o clamor nos media ocidentais sobre a possibilidade de fraude nas recentes eleições na Venezuela e o consenso à direita e à esquerda sobre a necessidade de auditar os resultados. É grande a minha perplexidade e obriga-me a uma reflexão.

1. O sistema eleitoral venezuelano tem sido unanimemente considerado um dos mais seguros e protegidos contra a fraude. Exige quatro momentos de identificação: inscrição nos cadernos eleitorais, voto electrónico, extracção de voto de papel, impressão digital do votante. Os números têm de coincidir. Claro que nenhum sistema eleitoral é totalmente imune à fraude, mas quando comparamos com os sistemas eleitorais de outros países (nomeadamente o dos EUA ou o português), o sistema venezuelano é mais seguro. Porque é tão evidente para tanta gente que pode ter havido fraude?

2. A oposição vinha anunciando que só reconheceria os resultados se ganhasse as eleições. Neste domínio, estava a seguir uma prática que se vai generalizando entre as forças de extrema-direita que concorrem a eleições (casos de Trump em 2020, Bolsonaro em 2022, Milei em 2023). Isto devia exigir alguma precaução por parte das forças democráticas, não vá a sua insistência na auditoria servir de muleta a forças políticas que, supostamente em nome da democracia, a querem destruir.

3. Fora da Venezuela, as forças mais vociferantes na defesa da democracia venezuelana são forças políticas de extrema-direita que nos seus próprios países advogaram ou praticaram golpes de Estado e fraudes eleitorais. No Brasil, com a colaboração activa dos EUA, Jair Bolsonaro, e as forças político-militares que o apoiavam, foram os protagonistas da mais clamorosa fraude eleitoral da última década. Conseguiram inabilitar e meter na prisão durante mais de 500 dias o candidato que certamente ganharia as eleições, Lula da Silva; manipularam facilmente os media e os tribunais; e a eleição de 2018 foi dada como válida internacionalmente sem nenhuma reserva. Isto mostra que o clamor mediático-político sobre a possibilidade de fraude e a necessidade de verificação dos resultados não assenta, ao contrário do que parece, num entranhado amor à democracia, mas antes noutras razões, que aponto adiante.

4. A dualidade de critérios vai muito para além das forças de extrema-direita e do primitivismo das suas considerações. Os países europeus, que se orgulham de ser impecáveis democracias, foram quase unânimes em reconhecer como presidente legítimo da Venezuela um senhor que se tinha proclamado presidente numa praça de Caracas. Refiro-me a Juan Guaidó, em 23 de Janeiro de 2019. Como se explica que, neste caso, não tenha havido qualquer precaução em verificar os processos democráticos? É sobretudo chocante quando comparamos esta aparente negligência com o zelo de agora, a respeito de uma eleição que contou com mais de novecentos observadores vindos de quase cem países? Aliás, num aparte que aumenta a perplexidade, dá que pensar que só nalguns países seja tão crucialmente importante recorrer a observadores externos para credibilizar processos eleitorais. Se a possibilidade de fraude existe sempre, a exigência de observadores devia ser universal e tutelada pela ONU.

5. Não discuto as razões que levaram à inabilitação da Maria Corina Machado (é sabido que participou em várias tentativas de golpe contra o governo bolivariano e que chegou a pedir a intervenção militar estrangeira), mas não deixa de causar perplexidade o modo como foi escolhido o seu substituto, o ex-diplomata Edmundo Gonzalez Urrutia. Há algo de inquietantemente caricatural na oposição venezuelana. Primeiro, foi Juan Guaidó; agora foi um senhor que parecia ter saído de um lar de idosos para uma actividade tempo livre que, por acaso, era uma candidatura presidencial. Se refiro isto, é apenas porque as mãos de Edmundo Gonzalez podem estar eventualmente manchadas de sangue. Entre 1981 e 1983 Edmundo Gonzalez era o primeiro secretário da Embaixada da Venezuela em El Salvador, cujo embaixador era Leopoldo Castillo, conhecido como Matacuras (mata padres). Realizava-se nessa altura o Plano Condor de contra-insurgência impulsionado por Ronald Reagan que naquele país visava impedir o avanço das forças revolucionárias da Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN). Este plano incluiu a execução da Operação Centauro que envolveu o exército e esquadrões da morte e visava assassinar revolucionários e, nomeadamente, os membros das comunidades religiosas congregadas à volta da teologia da libertação. Foram assassinadas 13194 pessoas, entre as quais Don Oscar Romero, hoje Santo da Igreja Católica, quatro freiras Maryknoll, e cinco padres. Segundo dados da CIA desclassificados em 2009, Leopoldo Castillo surge como corresponsável da coordenação e execução da Operação Centauro. Edmundo Gonzalez era o primeiro secretário da Embaixada da Venezuela. Os crimes cometidos são crimes de lesa humanidade e como tais imprescritíveis.

Porquê todo o clamor sobre a possível fraude eleitoral?

A resposta breve a esta questão é a seguinte: a Venezuela é o único país da América Latina onde dois recursos fundamentais não são controlados pelos EUA: as Forças Armadas e os recursos naturais (a maior reserva de petróleo, terras raras, ouro, ferro, etc.). Ao longo do século XX, os EUA intervieram repetidamente nas eleições da Venezuela com o objectivo de garantir o seu acesso aos recursos naturais. Sempre o fizeram com a ajuda de um número muito pequeno de famílias oligárquicas, algumas das quais controlam a riqueza do país desde o século XVI e dos tempos das encomiendas. Maria Corina Machado pertence a uma dessas famílias. O seu programa eleitoral é muito semelhante ao de Javier Milei e já se comprometeu em entrevista que, se fosse presidente, mudaria a Embaixada da Venezuela de Tel Aviv para Jerusalém. É um programa de extrema-direita que tem sido apoiado pelos EUA e, ultimamente, pelo oligarca dos oligarcas, Elon Musk.

Por não controlar os dois recursos que referi, os EUA têm usado as duas estratégias ao seu dispor (para além das interferências eleitorais e apoio à oposição): participação em golpes de Estado, que podem ou não incluir tentativas de assassinato dos líderes a abater; e sanções económicas. Neste momento, a Venezuela está a ser punida com 930 sanções que têm vindo a ser impostas há quase duas décadas. As sanções causaram o empobrecimento abrupto da Venezuela e foram responsáveis por milhares de mortos devido à falta de medicamentos essenciais para salvar a vida (por exemplo, durante um período, a insulina). Este empobrecimento abrupto levou à suspensão de muitas das políticas redistributivas do Governo e, em última instância, à emigração. Mais de sete milhões de pessoas.

Sem dúvida que um país com tantos milhões de cidadãos obrigados a emigrar não pode estar bem. E compreende-se que muitos desses emigrantes vejam na derrota de Nicolas Maduro o fim das sanções e a esperança de voltar. Neste contexto, duas reflexões se impõem. A primeira é que Maduro liberalizou a economia nos últimos anos, adoptando algumas medidas que dificilmente se podem considerar socialistas ou sequer de esquerda. Muitos negócios estão a ser celebrados com grandes empresas norte-americanas e europeias, na área petrolífera e não só. Hoje a economia venezuelana é uma das que mais cresce na América Latina, mas obviamente isto ocorre depois de um empobrecimento brutal. Até onde este novo modelo económico (de inspiração chinesa?) pode ter êxito é uma questão em aberto.

A segunda reflexão é que, se olharmos para o panorama internacional das migrações e refugiados, a Venezuela é o único caso em que a atenção midiática se centra no país donde saem os deslocados. Em todos os outros casos a atenção é centrada nos países de “acolhimento” (que inclui muitas vezes a deportação). Mais uma vez, a razão parece ser esta: a política de desestabilização e de demonização do governo bolivariano e a criação de um consenso para fazer accionar a terceira arma dos EUA: o infame regime change (mudança de regime). Penso, aliás, que a perturbação social actualmente em curso visa criar uma Revolução Maidan dez anos depois. Refiro-me à agitação social na Ucrânia em 2014 que levou à fuga do presidente eleito democraticamente, Victor Yanukovych, e, pouco tempo depois, à eleição de Volodymyr Zelensky. A razão pela qual uma “revolução colorida” dificilmente terá lugar na Venezuela é o facto de os EUA não contarem com militares venezuelanos treinados na Escola das Américas, onde tantos golpes de Estado foram forjados. As Forças Armadas venezuelanas já reconheceram os resultados eleitorais.

Mas certamente haverá mais tentativas no futuro, tanto mais que a Venezuela conta com três aliados de peso: China, Rússia e Irão, três inimigos dos EUA. Os dois primeiros são membros originais dos BRICS e o terceiro juntar-se-lhes-á proximamente. Isto significa que, embora a fachada discursiva seja sobre fraude eleitoral e democracia, o que está em causa é a turbulência geopolítica que a vitória de Maduro provoca. Isto devia fazer pensar os líderes dos países latino-americanos e muito especialmente o Brasil. Mais tarde ou mais cedo o Brasil tem de decidir-se de que lado está no novo horizonte geopolítico e geoestratégico mundial em curso. Compreendo as cautelas, pois, afinal, ainda há pouco, os EUA interferiram de maneira brutal na política interna do Brasil. Mas, por outro lado, só defendendo a soberania dos outros países é que o Brasil, ou qualquer outro país, poderá defender eficazmente a sua própria soberania quando a tempestade imperial chegar. Em todo o caso, é melhor actuar coletivamente do que individualmente. Faz falta um maior ativismo da Comunidade de Estados Latino-Americanos y Caribenhos (CELAC), agora que a União de Nações Latino-Americanas (UNASUR) desapareceu.

 

31 de JULHO de 2024.

 

Boaventura de Sousa Santos GOSE (Coimbra, 15 de novembro de 1940) é um Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de CoimbraDistinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É também diretor Emérito do Centro de Estudos Sociais e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa. Foi fundador e diretor do Centro de documentação 25 de Abril entre 1985 e 2011.


sábado, 27 de julho de 2024

CELSO FURTADO E O SUBDESENVOLVIMENTO PROGRAMADO

 

Ontem, dia 26 de julho, completaram-se 104 anos do nascimento do economista Celso Furtado, um dos mais destacados intelectuais do Brasil do século XX. Celso Furtado nasceu em Pombal, quarta cidade mais antiga do Estado da Paraíba e foi o primeiro brasileiro indicado para o Prêmio Nobel de Economia.

Celso Furtado graduou-se em Direito pela UFRJ e doutorou-se em Economia na Universidade de Paris-Sorbonne. Integrou a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), órgão das Nações Unidas que se analisava os aspectos teóricos e históricos do desenvolvimento da América Latina. No Rio de Janeiro presidiu o grupo que elaborou estudos sobre a economia brasileira, que serviu de base para o Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek. Em seu pós-doutoramento na Inglaterra escreveu o livro Formação Econômica do Brasil, publicado em 1959. A obra desde logo se tornou um clássico.

No mesmo ano, no Governo JK, criou a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e no Governo Jango foi o primeiro Ministro do Planejamento do Brasil. Foi o idealizador do Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social. Retornando à SUDENE buscou implantar uma política de incentivos fiscais para investimentos na região.

Da concepção de Celso Furtado, notadamente em decorrência de suas interlocuções na CEPAL, depreende-se a análise da estrutura produtiva de cada período histórico da sociedade brasileira, voltando-se para as relações da economia nacional com a economia internacional, num contexto de desigualdade entre países centrais, industrializados, e países periféricos, agrícolas. E foi para romper esta infame dependência que entrou em ação.

O Golpe empresarial-militar foi uma interrupção no desenvolvimento do Brasil e rompimento com uma política voltada à soberania nacional. A tentativa de golpe que levou o presidente Getúlio Vargas ao suicídio, em 24/08/1954, há 70 anos, foi adiada para o dia 01/04/1964. Enrolados em bandeiras do Brasil os entreguistas executaram projeto de interesse dos países centrais do capitalismo, notadamente os EUA. A abertura dos arquivos estadunidenses nos permite conhecer a trama que se urdiu contra os brasileiros, a fim de mantê-lo como país subdesenvolvido exportador de produtos agrícolas, minérios brutos e produtos semielaborados ou produzidos sob licença de patentes estrangeiras.

Portanto, dependente dos países centrais do sistema. No dia 09 de abril de 1964, mesmo que um fantoche ocupasse formalmente a presidência da República, os três ministros militares – que exerciam de fato o poder - editaram o Ato Institucional nº 1 (AI-1) e incluiu Celso Furtado na primeira lista de cassação de direitos políticos. Exilado, Celso Furtado permaneceu no exterior até o início da redemocratização. Foi professor e pesquisador em universidades dos EUA, da Inglaterra e da França. Viajou a diferentes países do mundo em missões da ONU. Com a redemocratização foi nomeado Embaixador do Brasil junto à Comunidade Econômica Europeia, mudando-se para Bruxelas e foi ministro da Cultura. À frente do Ministério da Cultura, criou a primeira legislação de incentivos fiscais à cultura.

Posteriormente retomou a vida acadêmica e participou de diferentes comissões internacionais, como a Comissão Sul, a Comissão Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento, da ONU/Unesco, e a Comissão Internacional de Bioética.

Em 1997 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira antes ocupada por Darcy Ribeiro, autor da vigente Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, para quem o malogro da educação no Brasil não é fracasso; é projeto.

Por sua formação, Celso Furtado foi um dos que mais buscaram o conhecimento do funcionamento e da expansão das corporações multinacionais, o que lhe permitiu concluir sobre os distintos papeis reservados aos países centrais do capitalismo e aos países periféricos do mesmo sistema. Ele faz parte dos pensadores brasileiros que interpretam o subdesenvolvimento como uma forma de organização social no interior do sistema, ao contrário dos que acreditavam haver etapas a serem superadas para atingirmos o mesmo nível dos países centrais, como podem sugerir termos como “país em desenvolvimento” ou “país emergente”.

A estrutura do sistema demanda a existência de países subdesenvolvidos. Estes, segundo Celso Furtado, tiveram uma industrialização dependente dos países já desenvolvidos.

Assim, o subdesenvolvimento jamais poderia ser superado sem uma forte intervenção estatal, mesmo que sem uma transformação do sistema produtivo por completo, bastando um redirecionamento da política econômica e social do país que leve em conta o verdadeiro desenvolvimento social. A Revolução de 30, com Getúlio Vargas, industrializara o país porque decidira controlar o excesso da produção, por meio de sua aquisição, controlar o preço da venda dos produtos internacionalmente e com o resultado instalar indústrias, substituindo as importações.

Não foi sem razão que os mesmos entreguistas que há 70 anos levaram Vargas ao suicídio, há 60 anos cassaram os direitos políticos de Celso Furtado e o mandaram para o exílio. Os entreguistas estavam a serviço do capital internacional em prejuízo do povo brasileiro.


Publicado originamente no jornal O DIA, em 27/07/2024, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2024/07/6888631-joao-batista-damasceno-celso-furtado-e-o-subdesenvolvimento-programado.html 


sábado, 13 de julho de 2024

Conservadorismo brasileiro: Dos grotões ao meio urbano

 

O pensamento médio brasileiro é o que vem do sertão. Quem o percebeu foi Guimarães Rosa. Na metade dos anos 50 do século XX o meio intelectual e cultural fervilhava com a arquitetura moderna, Oscar Niemeyer, a Bossa Nova, a indústria automobilística e com um presidente que a tudo isto apoiava e enunciava um Brasil novo. Era o presidente Bossa Nova Juscelino Kubitscheck. Mas outro Brasil contrastava com aquele urbano, moderno, ‘civilizado’ e cheiroso que se apresentava na televisão recentemente introduzida nos lares. O Brasil arcaico insistiu em seu desejo de permanência e Guimarães Rosa o descreveu em Grandes Sertões: Veredas, publicado no mesmo ano da posse daquele presidente. Este Brasil que não era litorâneo, nem cosmopolita já o havia descrito Euclides da Cunha, Oliveira Vianna e Victor Nunes Leal.

A migração de parcela da população interiorana para centros urbanos não implicou mudança de valores. A consciência conservadora migrou dos grotões para a periferia dos centros urbanos, mas não perdeu sua essência; teimou em sua permanência associada à religiosidade, agora com novos padrões. Num país periférico temos uma massa que vive na periferia do que há de bom para alguns. Seus valores e crenças permanecem nesta parcela da sociedade brasileira, à margem das novas relações que se estabelecem no mundo globalizado. O desenvolvimento tecnológico lhe deu novos meios para se conectar, difundindo fake News, com maior capacidade de divulgação antes limitadas a boatos paroquianos. Na defesa da pauta de costumes, que é assunto da sociedade e não do Estado, elege quem enche os bolsos com emendas secretas. O analfabeto político, mas eloquente, participa do processo com o “galo na testa” e inimizade com vizinhos e familiares, para mostrar a fidelidade aos seus “valores”. “Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo”, nas palavras de Bertold Brecht.

O conservadorismo se apropria de meios contemporâneos de tecnologia indispensáveis para sua permanência e constitui a modernidade conservadora que reage e se impõe de vez em quando. A Consciência Conservadora no Brasil é título de livro clássico de Paulo Mercadante, de cuja falta devemos ressentir. Entender o Brasil profundo, não apenas da periferia, mas também dos grotões, é fundamental para quem almeja comunicar-se com ele. A Zona Sul do Rio de Janeiro e os Jardins em São Paulo têm relevância social e concentram significativa parcela da riqueza nacional, mas a decisão sobre o destino do país não se limita a estes espaços privilegiados. A “Faria Lima” tem poder de pressão sobre as opções governamentais e políticas a serem implantadas. Mas há poder de decisão na periferia e grotões onde um trabalhador precarizado se acha “empreendedor” e um micro proprietário rural se acredita parte do agrobusiness, sem saber que o mundo do agronegócio é feito de commodities negociadas nas bolsas de valores dos países centrais do sistema internacional.

O Brasil profundo não se intimida com a modernidade e a racionalidade e elege os seus expoentes, incultos e iletrados, mas representativos dos valores que lhe são próprios. O voto é apenas uma expressão das relações sociais sedimentadas e que não se dobram aos valores da civilidade. Parcela da intelligentsia, autoproclamada vanguarda intelectual, que se considera progressista por defender pautas politicamente corretas financiadas por instituições internacionais de fomento, é incapaz de compreender a força deste reacionarismo enraizado. Seus discursos não contemplam os interesses concretos da massa.

Na República Velha, na posse da terra o coronel assentava seu domínio. É a constituição da propriedade fundiária privada o que ainda sustenta o poder nos grotões, ameaçando comunidades indígenas e quilombolas. Enquanto houver terra devoluta e riqueza natural a ser expropriada a expansão das fronteiras não cessará. Sem um programa de reforma agrária, que possibilite o aumento do número de proprietários e que limite o tamanho das propriedades, os donos do Brasil se fortalecerão. O latifúndio não é pop. Nos centros urbanos a questão da moradia está subordinada ao capital imobiliário especulativo.

Para governar, o Príncipe dos Sociólogos se rendeu e teve que barganhar. O atual presidente idem. A presidenta Dilma acreditou-se acima dos interesses concretos da bancada fisiológica e, demasiadamente, confiou na força das instituições e na sua integridade moral que nada serve no embate dos interesses inconfessáveis. O conservadorismo ameaça com o semipresidencialismo a fim de assumir o poder institucionalmente. Trata-se de mais um golpe, pois desconsidera o valor do plebiscito e da democracia direta. A sociedade brasileira já foi ouvida sobre a questão e escolheu o presidencialismo. Mas nem sempre o povo assiste bestializado, como descreveu Aristides Lobo, por ocasião do golpe militar que proclamou a República. Às vezes o povo reage, tomando decisões até mesmo contrárias aos seus interesses, cavando a própria sepultura pensando estar em busca de ouro.


Publicado originariamente no jornal O DIA, em 13/07/2024, pag. 12. Link; https://odia.ig.com.br/opiniao/2024/07/6881016-joao-batista-damasceno-conservadorismo-brasileiro-dos-grotoes-ao-meio-urbano.html

 


terça-feira, 2 de julho de 2024

MACHADO DE ASSIS: TALARICAGEM, CATARSE OU FAKE NEWS? ESTE É O ENIGMA!

 

O primeiro clássico da literatura brasileira que li foi A Moreninha. Ainda pré-adolescente minha mãe o entregou-me e explicou como se lê um livro. Primeiro o título e nome do autor. Depois as orelhas e contracapa, se tiver. Em seguida os dados sobre a edição, o sumário, a apresentação e o prefácio. Situado sobre o que se tem na mão começa-se a leitura. O livro tinha a biografia de Joaquim Manuel de Macedo apresentada por M. Cavalcanti Proença e prefácio de Raquel de Queiróz. Era um livro de bolso da Ediouro. Guardo-o como se guarda uma relíquia. Fiquei encantado com quem escrevera a biografia. Julguei ser alguém que sabia tudo de literatura, tudo sobre a obra e tudo sobre o autor. Não me enganei. Mais tarde soube que era o professor, literato e General Manuel Cavalcanti Proença, que introduziu o estudo de literatura na Academia Militar/AMAN, matéria suprimida depois do golpe empresarial-militar de 1964.

Quando conheci seu filho, o professor, literato e Coronel Ivan Cavalcanti Proença, cassado pela ditadura por seu legalismo, falei da admiração que sempre tive por seu pai, desde sempre. E pude conversar com ele sobre a mais clássica polêmica da literatura brasileira: o possível adultério de Capitu. Ivan Proença analisa sob o olhar de um crítico literário e afasta qualquer conclusão ou relação com a realidade. Para ele a obra de Machado de Assis tem a característica do enigma e, portanto, não faz sentido tentar chegar a uma conclusão. É um enigma e ponto, tal como o é o estilo machadiano!

Nesta semana chegou-me às mãos um livro usado editado pela Nova Fronteira, em 2008, intitulado “Quem é Capitu?”. Organizado por Alberto Schprejer, textos de quatorze notáveis tentam responder à pergunta: Luis Fernando Veríssimo, Lya Luft, Luiz Fernando Carvalho, Lygia Fagundes Telles, Mary Del Priore, Fernanda Montenegro, Silviano Santiago, John Gledson, Roberto DaMatta, Gustavo Bernardo, Luiz Alberto P. de Freitas, Daniel Piza, Otto Lara Resende e Carla Rodrigues.

O texto do Otto eu o lera quando publicado na Folha de S. Paulo, em 1992. Eu era leitor do Otto e senti sua morte como de alguém com quem tivesse convivido pessoalmente. Substituiu-o na coluna da Folha Carlos Heitor Cony, que também escreveu sobre Capitu, mas não foi incluído no livro. Custei acostumar ler a coluna do Cony, tendo sempre o Otto como referência da primeira leitura depois do café da manhã.

Muitos outros autores e textos poderiam ser incluídos na obra, além de Cony. Não faltam polemistas quando se trata da obra, notadamente depois do livro “O Enigma de Capitu”, de Eugênio Gomes, de 1967. Aparentemente até o surgimento desta obra era certo o adultério de Capitu. Este livro foi quem trouxe a dúvida. É o que escreveu Dalton Trevisan, com quem concordou Otto Lara Resende.

As conclusões dos autores da obra são diversas.

Fernanda Montenegro não reconhece o adultério, nem o nega. Sua compreensão da relação está em consonância com aqueles que acreditam Bentinho seja tal como Otelo e escreve: “Os olhos mostram o que desejamos ver por meio deles. É sempre também o reflexo, a projeção de quem olha. (...) Bentinho descreve seu próprio olhar, olhando Capitu”.

Luiz Fernando Carvalho não responde à pergunta e retoma a questão do enigma surgido a partir de 1967 e diz que “O benefício da dúvida que Santiago acaba por nos conceder com seu relato é que finda sendo sua verdadeira redenção”. Mas ao afirmar que “as omissões – propositadas ou apenas falha de memória – nos fazem intuir que algo parece sempre fora do lugar”, permite uma interpretação equivalente à que deu Luiz Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes, descritas adiante.

Mary Del Priori é enfática: “Capitu traiu pois Bentinho conhecia a regra das Escrituras e não a exerceu com competência: ‘Vós maridos, coabitai com vossas esposas’. Em resumo, se Capitolina não dormia, é porque Bento, seu marido, adormecia de cansaço”. Tal como numa “tragédia de costumes” rodriguiana seria Bentinho que haveria de pedir à Capitu perdão por ser corno.

A crônica de Gustavo Bernardo é narrada por Simão Bacamarte, que acaba por internar todos na Casa Verde de Itaguaí, inclusive o próprio Machado de Assis, convertido em personagem de suas obras.

Carla Rodrigues, numa sofisticada narrativa fundada em Freud, Derrida, Lacan e Nietzsche, se aproxima da discreta narrativa de Luiz Fernando Carvalho, que igualmente identifica algo fora do lugar: “Os deslocamentos se multiplicam aqui: Machado desloca o privilégio da feminilidade de Capitu e faz aparecer também em Bento/Casmurro. (...). A feminilidade se transforma no elemento traiçoeiro: das verdades asseguradas, das certezas definitivas, da estabilidade. É com esse feminino que Bentinho se depara, primeiro em Capitu, depois em sua própria reconstituição narrativa: o feminino que indica a ausência de certezas em que se apoiar, o feminino da instabilidade e da impossibilidade de chegar à verdade”. A leitura de Carla Rodrigues tem por referência sobretudo a obra de Helen Caldwell, O Otelo brasileiro de Machado de Assis.

Lya Luft admite o enigma e diz que “não sei o que de verdade houve, não sei qual é a verdadeira Capitu, nem se tive (sic) esse romance ou se aquilo tudo existiu, provavelmente não saberei nunca”.

 Silviano Santiago absolve Capitu: “Instado a dizer quem é Capitu, respondo: Capitu é o ciúme – ou seja, é a malícia de Dom Casmurro; é a ‘regra de composição’ do romance machadiano. (...) O ciúme é o esterco literário de Capitu, garantia de seu florescimento em mulher secreta ou enigmática, pouco importa”.

John Gledson igualmente coloca Capitu numa posição de passividade, incapaz de optar seja pelo adultério, seja por um dos personagens. Diversamente de Virgília, personagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas que faz expressa opção pelo casamento e pelo adultério, Capitu teria sido incapaz de qualquer opção. Deixou a vida levá-la. “... as mulheres de Machado frequentemente ‘optam por não optar’; no caso de Virgília, isto significa ter um casamento feliz e um adultério feliz ao mesmo tempo, ou usar a religião como uma veste, uma roupagem interior, aconchegante, mas que não é para ser vista de fora. No caso de Capitu, a frase tem outro significado: seria possível argumentar que, mais corajosa e de uma classe social diferente da de Virgília, ela de fato tenta optar, fazer a escolha, mas acaba, fatalmente para ela, por ser forçada a não optar, a aceitar uma solução de meio-termo em que nenhuma das questões reais envolvidas no seu casamento não trazidas à superfície”.

Otto Lara Resende escancara a denúncia do adultério de Capitu. Tratando em crônica na Folha de S. Paulo, em 08 de janeiro de 1992, de uma questão do vestibular de uma universidade paulista, afirma categoricamente que “a hipótese aí estampada, de que Capitu não traiu Bentinho, um Bentinho paranoicamente ciumento qual Otelo, está fundamentada em “O enigma de Capitu”. Apareceu de fato no ensaio de intepretação de Eugênio Gomes, publicado em 1967. (...) Dom Casmurro saiu em 1900. Machado morreu em 1908. Nenhum crítico nesses oito anos jamais ousou negar o adultério de Capitu. Leiam a carta do Graça Aranha, amigo pessoal do Machado: ‘Casada, teve por amante o maior amigo do marido.’ Voltem ao artigo de Medeiros e Albuquerque. Dar o Bentinho como ‘o nosso Otelo” é pura fantasia. Bestialógico mesmo”.

Luis Fernando Veríssimo se manifesta por meio de um personagem, que é detetive particular, contratado por Bentinho para descobrir o que faz Escobar e narra: “Juro que uma vez os vi, num momento descuidado, de mãos dadas, o que me pareceu natural entre colegas de tantas coisas”. Na sua atividade profissional de investigador viu Escobar entrar com uma mulher “num quarto alugado por horas e ocupado por duas” e não fez constar do relatório entregue ao cliente “o nome de quem acompanhava Escobar no quarto sórdido da Lapa. Era d. Capitu”. Mas o que deveria ser um encontro entre os quatro para esclarecer a situação revelou-se trágico:

Na hora acertada, cheguei à praia, onde já estavam os dois ex-seminaristas. Escobar lia o meu relatório. Com dificuldade, pois sobrara pouca luz do pôr do sol. Só levantou a cabeça para me olhar quando terminou a leitura. Sacudiu o relatório e disse:

- A mulher que estava comigo não está aqui.

Comecei a responder, mas Bentinho me interrompeu.

- Não interessa quem era a mulher.

- Como, não interessa?

Fui eu que fiz a pergunta, espantado. Não interessava que a mulher era a d. Capitu?

- O que interessa – continuou Bentinho – é que você me traiu.

Levei alguns segundos para entender. A alegoria moral não era bem a que eu esperava. Bentinho ainda estava falando.

- Essa mulher é só uma. Você dever ter me traído com muitas”.

Millôr Fernandes não fez por menos. Além de afirmar o adultério ainda descreve cenas das quais resultam a conclusão de uma relação homoafetiva entre os dois ex-seminaristas:

PUBLIQUEI, ATRAVÉS DE ANOS, no Estadão, no O Dia e no Jornal do Brasil – ao todo aproximadamente dois milhões de exemplares -, ‘pesquisa” sobre Dom Casmurro, a obra magna de Machado de Assis. Como minha página era a capa exterior dos jornais citados, e o assunto era picante – se Escobar, ‘herói’ do romance, tinha ou não tinha comido a Capitu, eterna e tola discussão entre beletristas -, devo ter alcançado pelo menos cem mil desprevenidos. Bom, não apenas mostrei que Escobar comeu a Capitu, como, não sei não, acho que tirei Dom Casmurro do ‘armário’.”.

Luiz Alberto Pinheiro de Freitas deixa em suspensa a possível infidelidade de Capitu, ainda que afirme que “havia sido criada uma propensão ao encantamento de Capitu por Escobar, em virtude da fragilidade de Bento e das qualidades de Escobar”. Igualmente aponta o encantamento de Bentinho por Escobar: “Contudo, com um pouco mais de certeza, poderemos interpretar que o ciúme delirante de Dom Casmurro fala, como mostrou Freud, muito mais do seu desejo por Escobar do que do desejo por Capitu. Então horrorizado diante de sua paixão homossexual, ele poderia dizer: Eu, Bento, não amo Escobar; é ela, Capitu, quem o ama – ao que o psicanalista responderia: bela denegação!”.

Roberto DaMatta faz coro com a Eugênio Gomes: “A proeza de Machado de Assis foi transformar um drama cultural num enigma. Se nos adultérios comuns há sempre uma culpada, neste há mistério”.

 Daniel Piza igualmente coloca em questão os comportamentos de Bentinho: “Numa cena que também poderia ser de uma história romântica, Bento até espera um último aceno de Escobar antes de dobrar a esquina” e  quando Ezequiel reaparece: “Depois diz que fará uma viagem científica à Grécia, Egito e Palestina com dois amigos. Bento Pergunta: ‘De que sexo?’. O filho responde que as mulheres são da moda, não entendem ruínas.”

Por fim, Lygia Fagundes Telles, também no sentido da incerteza: “E daí, houve mesmo a traição? Olhei-o nos olhos e respirei fundo. Ah! Confesso que não sei, não sei. É tudo misterioso como aquele mar acima de qualquer suspeita com suas ondas espumejantes arrebentando nas pedras”.

Muitos literatos escreveram sobre a obra. Em publicação na Folha de S. Paulo de 28 de março de 1999 temos os seguintes trechos de textos ou depoimentos:

José Veríssimo: "(‘Dom Casmurro’ trata de) um homem inteligente, sem dúvida, mas simples, que desde rapazinho se deixa iludir pela moça que ainda menina amara, que o enfeitiçara com a sua faceirice calculada, com a sua profunda ciência congênita de dissimulação, a quem ele se dera com todo ardor compatível com o seu temperamento pacato." ("História da Literatura Brasileira").

Lúcia-Miguel Pereira: "Capitu, se traiu o marido, foi culpada ou obedeceu a impulsos e hereditariedades ingovernáveis? É a pergunta que resume o livro. (...) Há a ideia central de saber se Capitu foi uma hipócrita ou uma vítima de impulsos instintivos. Em outras palavras, se pode ser responsabilizada." ("Machado de Assis").

Augusto Meyer: "Capitu é o melhor exemplo daquilo que Bentinho afirmava, a propósito de si mesmo: "Chega a fazer suspeitar que a mentira é, muita vez, tão involuntária como a transpiração". Capitu mente como transpira, por necessidade orgânica." ("Capitu", em "Textos Críticos").

Antonio Candido: "Dentro do universo machadeano, não importa muito que a convicção de Bento seja falsa ou verdadeira, porque a consequência é exatamente a mesma nos dois casos: imaginária ou real, ela destrói sua casa e a sua vida." ("Esquema de Machado de Assis", em "Vários Escritos").

Antonio Callado: "Respeitemos um dos dogmas da nossa literatura, que é o da maculada conceição do filho de Capitu com Escobar. Cultuemos a sua infidelidade e não afastemos de nós a negra inveja que sentimos de Escobar." (Na Folha, em 12/10/1994).

Dalton Trevisan: "Até você, cara - o enigma de Capitu? Essa, não: Capitu inocente? Começa que enigma não há: o livro, de 1900, foi publicado em vida do autor - e até sua morte, oito anos depois, um único leitor ou crítico negou o adultério?" (Na Folha, em 23/5/92).

Roberto Schwarz: "("Dom Casmurro') solicita três leituras sucessivas: uma, romanesca, onde acompanhamos a formação e decomposição de um amor; outra, de ânimo patriarcal e policial, à cata de prenúncios e evidências do adultério, dado como indubitável; e a terceira, efetuada a contracorrente, cujo suspeito e logo réu é o próprio Bento Santiago, na sua ânsia de convencer a si e ao leitor da culpa da mulher. Como se vê, uma organização narrativa intrincada, mas essencialmente clara, que deveria transformar o acusador em acusado. Se a viravolta crítica não ocorre ao leitor, será porque este se deixa seduzir pelo prestígio poético e social da figura que está com a palavra." ("A Poesia Envenenada de Dom Casmurro", em "Duas Meninas").

Em artigo na Folha de S. Paulo, em julho de 1999, Carlos Heitor Cony, também da Academia Brasileira de Letras, depois de ter sido testemunha de acusação num julgamento simulado que teve o ex-ministro do STF Sepúlveda Pertence como presidente do júri, sentenciou: “Capitu traiu o marido. Nem por isso merece ser condenada. Entre os moradores da rua Cabuçu que condenavam o Pires por adulterar o leite, e o Cristo que perdoou a adúltera, fico mesmo com o Cristo”.

As três propostas de leitura de Dom Casmurro feitas por Roberto Schwartz estão presentes nos textos da publicação que me chegou às mãos: romanesca, patriarcal-policial e a leitura contracorrente, retirando o holofote sobre Capitu e direcionando-o para Bentinho, tal como sugerem escancaradamente Otto Lara Resende, Luiz Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes, e – sofisticadamente – Luiz Fernando Carvalho, Carla Rodrigues, Luiz Alberto Pinheiro de Freitas e Daniel Piza.

Mas e se a obra for autobiográfica e Machado a tiver escrito como um mea culpa ou catarse, explicitando o que não poderia dizer publicamente e às claras? Há criminosos que decorridos tempos de seus delitos procuram autoridades e relatam o que cometeram, sem o que jamais se saberia sobre a autoria do delito. Trata-se de modo de se liberar de algo que aflige; que se pensa sobre alguma situação ou pessoa. A catarse em tal caso é compreendida como um desabafo e, assim, a pessoa experimenta um estado de alívio por ter posto para fora o que lhe atormentava.

Machado de Assis era gago e epilético. Eventual desconforto na alma poderia lhe corroer, também, neurologicamente. Há argumentos e fatos defensáveis de acordo com a preferência do interlocutor. Talvez, também por isso, a obra e a vida do autor sejam interessantes.

Antonio Carlos Villaça transpõe a literatura para a realidade. Assim, a obra deixa de ser romance e assume a natureza de crônica. Diversamente de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, que foram anteriormente publicados, capítulo por capítulo, em folhetins, Dom Casmurro foi escrito na forma definitiva de livro, no vigésimo aniversário da morte do amigo José de Alencar, ou seja, de 1897 a 1898. É dele a afirmação: “Teria Machado como inspiração dona Georgiana, a inglesinha, a mulher de Alencar, tão sua amiga, que ele conhecia intimamente. Era grande frequentador da casa de Alencar. E, quando este morreu prematuramente, aos quarenta e oito anos, em 1877 teve o maior choque de sua vida. Um choque tremendo. Ficou doente. Foi para Friburgo. Nunca a morte lhe causou uma impressão tão profunda. Continuou amigo de Mário de Alencar. Jantava com ele aos domingos, na casa de Botafogo. E ia vê-lo diariamente na Biblioteca da Câmara. Era como um filho. Dom Casmurro é um romance que se inspira na vida, na vida real. Num drama existencial. ‘Consolava-os a saudade de si mesmos’, como escreveu no Memorial de Aires”.

Villaça foi direto e objetivo ao afirmar não só a relação entre Capitu e Escobar, do qual resultou o infante Ezequiel, como subtrai a obra do campo da criação literária e a coloca como narrativa da realidade. Para ele a obra é biográfica e Machado de Assis tinha um caso com a mulher do amigo José de Alencar.

Machado de Assis fundou a Academia Brasileira de Letras e ocupou a cadeira nº 23 cujo patrono é seu amigo José de Alencar, instituidor da literatura brasileira. Alguns dos autores do livro que acabo de ler foram ou são membros da ABL. Nenhum deles negou a infidelidade de Capitu. Três foram as categorias de respostas à pergunta: Capitu traiu Bentinho, a obra é uma narrativa de um marido ciumento e paranoico e a terceira categoria na qual estão Otto Lara Rodrigues, Luiz Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes: O affair era entre Bentinho e Escobar.

Para Antonio Carlos Villaça, Machado de Assis era um Talarico, gíria que expressa quem tenta ou tem relacionamento com mulher de um amigo ou conhecido; é o fura-olho.

Além de transar com a mulher do amigo, Machado de Assis teria tirado da sua experiência pessoal o fio condutor do mais celebrado romance da literatura brasileira.

Machado nasceu em 1839 e seu melhor amigo era José de Alencar, 10 anos mais velho, filho de um padre. José de Alencar foi casado com Georgiana  Augusta da Gama Cochrane, (Georgiana Cochrane Alencar, depois de casada), 17 anos mais jovem que o marido, com quem teve seis filhos, dois homens e quatro mulheres: Augusto Cochrane de Alencar, Elisa Cochrane de Alencar, Clarice Crochrane de Alencar, Mário Cochrane de Alencar, Cecy Cochrane Pinto Alencar Alves e Adélia Cochrane de Alencar.

Quando José de Alencar morreu em 1877, Georgiana, a Inglesinha, tinha 31 anos e seis filhos. Machado de Assis tinha 38 anos. Mas só o órfão Mário de Alencar, nascido em 1872, “era como um filho” para Machado de Assis. E foi por toda a vida, tendo ingressado na Academia Brasileira de Letras em 1905, tornando-se desde logo figura de relevo na sua administração.

Foi Humberto de Campos em seu Diário Secreto quem possibilitou a difusão da história de que Mário de Alencar poderia ser filho de Machado de Assis, oportunizando a interpretação de que José de Alencar, filho de padre, era o Bentinho; Machado de Assis, o Escobar; Georgiana Cochrane, a Capitu e Mário de Alencar (M. de A.), o Ezequiel. Mas outro M. de A., que também era querido de Machado de Assis, pode ser o Ezequiel. E o próprio Humberto de Campos faz a confusão.

Realizando pesquisa para sua tese de doutorado, a historiadora literária Mara Cristina Vergueiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), disse ter confirmado a existência do que desde a publicação dos Diários Secretos de Humberto de Campos se tornou tema de especulação pública: o affair de Machado de Assis com a mulher de José de Alencar. A prova seria um romance inédito de Machado de Assis intitulado Georgiana.

A tese é controversa. O doutor em Letras Domício Proença Filho, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, acredita que é preciso cautela antes de atribuir tal romance ao escritor: “É um estilo ousado, transgressor e atirado demais para o próprio Machado”, observa. “Ele até chegou a cometer lá seus desvios de estilo, mas só quando era mais novo. Não acredito que ele tenha sido capaz duma prosa tão atrevida com Georgiana, mulher de seu grande amigo e patrono na ABL”.

O professor Castelar de Carvalho, autor do Dicionário de Machado de Assis e membro da Academia Brasileira de Filologia diz que “Machado era zeloso das tradições. Sempre foi conhecido por prosas corretas e estilo sóbrio. Por que querem lhe atribuir agora esse romance adúltero, com vícios e impurezas?”.

Não faltam dentre os que afirmam a infidelidade de Capitu a relação com Georgiana Cochrane, a Inglesinha, mulher do amigo José de Alencar. Os dois que mais enfaticamente relacionaram a obra com a realidade foram Humberto de Campos e Antonio Carlos Villaça. Este foi contundente.

Em agosto de 1999 Carlos Heitor Cony apareceu com outra possibilidade e escreveu na Folha de S. Paulo:

“Tornou-se um lugar-comum crítico: Machado de Assis jamais colocou em seus romances qualquer elemento autobiográfico. Recentemente, no centenário de ""Dom Casmurro", houve uma enxurrada de celebrações e estudos, a ninguém ocorreu que o caso de Capitu podia ser confessional.

“Conto o que li em diários e crônicas daquele tempo, mantendo as iniciais por conveniência, há parentes vivos da pessoa em questão.

“Todos sabiam da amizade filial de Machado por M. de A. - simples coincidência nas iniciais. Ao fundar a Academia, indicou-o como membro da primeira leva, o rapaz tinha então 20 e tantos anos, um único livro sem valor. Fisicamente, tinha traços de Machado, a mesma testa, o mesmo cabelo crespo, alguns tiques iguais.

“Indo a um médico, por causa desses tiques, teve diagnosticada a epilepsia – doença hereditária que tanto maltratara Machado. Tão discreto quanto o autor de ""Helena", viveu na sombra, passou anos fora do Brasil. Ninguém entendia o amor que Machado tinha por ele. Ninguém entendia como os dois poderiam ser tão parecidos fisicamente.

“Dos membros fundadores da Academia foi o último a morrer.

“Não fora a excepcional amizade de Machado, teria sido apenas um diplomata a mais.

“Foram pouquíssimos os contemporâneos de Machado que notaram, nele, a mesma coincidência do filho de Capitu, que se parecia com o amante dela e não com o pai do rapaz. Há testemunhos disso: o médico Afonso Mac-Dowell, que cuidava de vários acadêmicos, e Goulart de Azevedo, que contou a história a Humberto de Campos.

“Sendo verdadeira a suposição, fica encerrada a questão do adultério. O amante de Capitu era o próprio Machado”.

A discrição de Cony em nada ajuda a manter o anonimato do membro da ABL que seria M. de A., filho de Machado de Assis, sem que o seja Mário de Alencar. A revelação apenas afasta a relação de Machado de Assis com Georgiana Cochrane Alencar, a Inglesinha.

Cony diz que o filho de Machado de Assis tinha 20 e tantos anos, as iniciais do nome eram M. de A., foi um dos fundadores da ABL, dentre todos eles o último a morrer e que fora diplomata. A ABL foi fundada em 1897 e Mário de Alencar somente nela ingressou em 1905. Portanto, com esta descrição M. de A. não seria Mário de Alencar.

Dos 40 fundadores da Academia Brasileira de Letras apenas quatro poderiam usar as iniciais M. de A., sendo um deles Machado de Assis.

Antônio Mariano Alberto de Oliveira tinha mais de 30 anos quando a ABL foi fundada, mas era conhecido como Alberto Oliveira e se usasse o nome Mariano Alberto poderia ser M. A. Jamais M. de A.

Oliveira Lima e Graça Aranha tinham menos de 30 anos quando da fundação da ABL, mas suas iniciais não se compatibilizam com a descrição do Cony.

O outro é Carlos Magalhães de Azeredo. Nascido em 1872 tinha apenas 25 quando da fundação da ABL.

M. de A. poderia não ser Mário de Alencar, mas Magalhães de Azeredo.

De todos os fundadores apenas um, Carlos Magalhães de Azeredo, tinha pouco mais de 20 anos e viveu até a década de 60 do século passado. Em verdade não foi um fundador. Mas um dos dez convidados pelos trinta fundadores para formar o quantitativo de quarenta, tal como a Academia Francesa.

Carlos Magalhães de Azeredo era filho póstumo de Caetano Pinto de Azeredo (morto três meses antes de seu nascimento) e de D. Leopoldina Magalhães de Azeredo. Capitu pode ter sido inspirada em D. Leopoldina.

Apesar de toda a especulação, Cony termina o artigo com uma frase enigmática: “Sendo verdadeira a suposição....”.

A imputação é séria e há descendentes das distintas senhoras que podem se incomodar com tal correlação. Cony viveu até 2018 e apesar da descrição de quem poderia ser, não foi incomodado pelos parentes de M. de A.

Humberto de Campos e Antonio Carlos Villaça cuidaram de morrer antes que suas obras, que tratavam do tema, fossem publicadas.

Até 28 de março de 2005 o adultério era tipificado como crime no Brasil e a imputação falsa a pessoa, mesmo morta, poderia configurar crime de calúnia. Dos crimes contra a honra (injúria, difamação e calúnia) somente o último é punível no Brasil. Mas podem restar incômodos pessoais aos sucessores da Inglesinha ou do “Filho do Padre” José de Alencar, como o chamava D. Pedro II, ou aos descendentes da mãe do jovem fundador da ABL. Este talvez seja outro enigma porque os que fazem a relação com a realidade não o façam categoricamente, como o fez Antonio Carlos Villaça

Villaça morreu em 29 de maio de 2005, dois meses após a descriminalização do adultério, mas antes da publicação d’O Livro dos Fragmentos. Nem precisava ter morrido. Já não se poderia alegar imputação de fato criminoso à morta e não poderia ser acusado de calunia.

Dois outros triângulos amorosos que tiveram como protagonistas escritores brasileiros e, mesmo tendo resultado em violências, os sucessores dos personagens não se vexam de reconhecer as virtudes de seus antepassados: um é o caso da escritora feminista e sufragista Sylvia Thibau, que matou Roberto Rodrigues, irmão de Nelson Rodrigues. O outro é Euclides da Cunha, morto em legítima defesa por Dilermando de Assis, amante de sua esposa Ana Emília Ribeiro da Cunha. Dilermando, absolvido, casou-se com a viúva. Dilermando também se relacionou com Maria Antonieta de Araújo Jorge, prima do poeta J. G. de Araújo Jorge, com quem teve uma filha, a escritora Dirce de Assis Cavalcanti. Dirce nunca deixou de expor o problema no qual seu pai esteve envolvido e luta para mudar a percepção do público a respeito dele.

Os sucessores de Georgiana Cochrane e José de Alencar igualmente não hão de se incomodar com a conexão do romance com a realidade. Afinal, juntamente com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891), que formam a trilogia realista, Dom Casmurro (1899) tem um ligeiro e soslaio olhar para o Romantismo. Quanto aos parentes do outro M. de A. não sei o que lhes poderíamos dizer para enchê-los de orgulho por serem descendentes do Bruxo do Cosme Velho.

  

Publicado originariamente em https://www.criativos.blog.br/post/machado-de-assis-talaricagem-catarse-ou-fake-news-este-%C3%A9-o-enigma, no dia 02/07/2024.