Depoimento do irmão da Marquesa de Santos, Francisco de Castro Canto e Mello (1799-1867), em 16 de dezembro de 1864 (42 anos depois), corroborando a farsa
sexta-feira, 6 de setembro de 2024
sábado, 24 de agosto de 2024
Livreiros de rua, cultura do livro e burocracia estatal
Publicado originariamente no jornal O DIA, em 25/08/2024, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2024/08/6905206-joao-batista-damasceno-livreiros-de-rua-cultura-do-livro-e-burocracia-estatal.html
sábado, 10 de agosto de 2024
Roberto Carlos na Academia Brasileira de Letras
A Academia Brasileira de Letras (ABL) é uma instituição
incompreendida. Há os que a louvam exageradamente e até os que questionam a
necessidade de sua existência. Em se tratando de uma instituição privada não se
pode negar-lhe o direito de existir e de recrutar seus membros pelo critério
que lhe convier. O mais frequente questionamento é sobre a derrota de Mário
Quintana. Mas o poeta somente disputou uma vez e saiu dizendo: “Todos esses que
aí estão atravancando meu caminho, eles passarão... Eu passarinho!”. E
passarinhando foi-se!
Carlos Drummond de Andrade jamais postulou. Mesmo convidado e
dispensado das visitas protocolares não aceitou. Monteiro Lobato candidatou-se
quando jovem e não foi eleito. Mais tarde convidaram-no. Mas condicionou o
aceite ao assento na cadeira n.º 37, ocupada por Getúlio Vargas. Para tanto, o
presidente precisaria contribuir com a própria morte. Aconteceu o contrário.
Monteiro Lobato morreu antes que Getúlio Vargas suicidasse num gesto heroico,
prorrogando o golpe empresarial-militar por uma década.
Como em toda paróquia não faltam as fofocas. O imortal
Humberto de Campos dedicou-se a ‘falar mal’ nos seus diários, a serem
publicados vinte anos após sua morte. Mas cedo faleceu e quando publicado todos
de quem havia falado ainda estavam vivos. Quando da morte do imortal Agripino
Grieco, que também falava de todo mundo, o imortal Ivan Lins, ao invés de
homenagear o morto, só faltou chutar o caixão. Processado foi defendido pelo
posterior imortal Evandro Lins e Silva. Quando Bernardo Élis derrotou o presidente
Juscelino Kubitscheck, o imortal Josué Montello difundiu fake News sobre o
motivo da derrota. Mas quem leu “O Tronco” ou seus contos, sabe do valor
literário do imortal goiano e sua importância para entender o regionalismo, o
Brasil profundo e o poder dos coronéis em Goiás.
A imortal Nélida Piñon dizia que a ABL, que presidiu, não era
uma academia de escritores. Mas da elite de cada área do conhecimento humano. A
palavra elite é mal apropriada no uso cotidiano. Elite são os melhores de cada
grupo. Não é sinônimo de classe dominante. Atletas brasileiros que nos trazem
as medalhas das Olimpíadas são a elite de cada modalidade desportiva. Este é
conceito de elite, sem consideração a classe social ou patrimônio material.
A ABL sempre foi pluralista. Dentre seus fundadores estava
Coelho Neto, filho de um português com uma indígena, e um negro, o
abolicionista José do Patrocínio, filho de um padre com uma adolescente
escravizada originária de Gana. Os imortais Humberto de Campos e Carlos Heitor
Cony e o literato Antonio Carlos Villaça dizem que teve até um filho do
fundador e primeiro presidente, Machado de Assis. Em se tratando de uma
miniatura do Brasil é crível a existência de nepotismo, mas a estória precisa
ser confirmada.
De tudo já tivemos na ABL: gênero, raça, etnia, convicções
políticas, estilos literários, médicos, magistrados, militares, compositores,
cantores, artistas, presidentes da República etc. Mas nunca tivemos um
capixaba. E não por falta de talento no Espírito Santo, pois o cronista Rubem
Braga era de Cachoeiro do Itapemirim. A esperança é o cantor Roberto Carlos.
Não sei se tem livro publicado. Mas isto não é problema. Não será o primeiro a
colocar capa dura numas folhas impressas e chamar de livro. E para dar volume
pode fazer como o imortal Lauro Müller, imprimindo em papel encorpado. Até
ajudo a escrever. Para publicar, pediremos ao Zé Mário da Topbooks, que
publicou o livro “Antônio Torres, uma Antologia”, com organização e estudo
introdutório de Raul de Sá Barbosa. Ah! O Antônio Torres publicado pelo Zé
Mário e que desancava com a ABL era o mineiro que nasceu no século XIX e não o
baiano que atualmente tem assento na cadeira n.º 8.
Sou mineiro e não posso reclamar. Minas Gerais jamais deixou
de ter assento na ABL. Hoje temos Ailton Krenak, Edmar Bacha, Eduardo
Giannetti, Geraldo Carneiro, Ruy Castro e Zuenir Ventura. Nem vou falar dos
falecidos imortais, dentre os quais Guimarães Rosa. Este somente não é
unanimidade entre nós por causa da dissidência do Nelson Rodrigues, que de sua
obra falava mal e ainda atribuía a terceiros o que escrevia.
A ABL, desde sua fundação em 1897, já atribuiu a imortalidade
a duzentas e setenta pessoas, incluindo os quarenta atuais acadêmicos. Não há
vaga. Algumas cadeiras têm maior rodízio. As cadeiras n.º 09 e 13 já foram
assentadas por nove imortais. As cadeiras n.º 7 e 11 por dez. Pela cadeira n.º
4 apenas quatro assentaram. Mas o menor rodízio não significa garantia de
longevidade. A cadeira n.º 6, já assentada por seis acadêmicos, atualmente pelo
imortal Cícero Sandroni, foi ocupada pelo imortal Barbosa Lima Sobrinho por 63
anos, o mais longo mandato já registrado.
A ABL contribui para a difusão da língua portuguesa na sua
forma escrita. Roberto Carlos também o faz. Muitos leem suas letras visando a
decorar para cantar. Mais que a ABL e Roberto Carlos somente faz mais pela
língua escrita o Livreiro Olivar, o Vavá, que vende livros a R$ 2,00 na entrada
do Metrô da Carioca durante a semana e na Praça XV aos sábados. Roberto Carlos
na ABL, já! Ou melhor, daqui a algum tempo quando surgir vaga! Além da moqueca
e das praias de Guarapari queremos um capixaba como imortal.
Fonte: publicado originariamente no jornal O DIA, em
10/08/2024, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2024/08/6896644-joao-batista-damasceno-roberto-carlos-na-academia-brasileira-de-letras.html
sexta-feira, 2 de agosto de 2024
UMA REFLEXÃO SOBRE A VENEZUELA, Boaventura de Sousa Santos
"Mais tarde ou mais cedo o
Brasil tem de decidir-se de que lado está no novo horizonte geopolítico e
geoestratégico mundial em curso"
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, participa de um
evento perto de uma imagem do falecido presidente da Venezuela Hugo Chávez em
Caracas, Venezuela, 4 de fevereiro de 2024.
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, participa de um
evento perto de uma imagem do falecido presidente da Venezuela Hugo Chávez em
Caracas, Venezuela, 4 de fevereiro de 2024 (Foto: REUTERS/Leonardo Fernandez
Viloria/File Phot).
Não sou, nem nunca fui, um chavista ferrenho. Hugo Chavez foi
um benévolo meteorito político que abalou o sub-continente latino-americano e o
mundo na primeira década do século XXI. Em 2013, logo após a morte de Hugo
Chavez, escrevi um texto intitulado “Hugo Chavez: o legado e os desafios”.
Identificava alguns sinais de autoritarismo e de burocratização e terminava o
texto com a seguinte frase: “Sem ingerência externa, estou seguro de que a
Venezuela saberia encontrar uma solução não violenta e democrática.
Infelizmente, o que está no terreno é usar todos os meios para virar os pobres
contra o chavismo, a base social da revolução bolivariana e os que mais
beneficiaram com ela. E, concomitantemente com isso, provocar uma ruptura nas
Forças Armadas e um consequente golpe militar que deponha Maduro. A política
externa da Europa (se de tal se pode falar) podia ser uma força moderadora se,
entretanto, não tivesse perdido a alma”. Tenho de reconhecer que o meu temor
não se concretizou até hoje, embora não tenham faltado tentativas para que ele
se concretizasse. Penso que o momento actual configura mais uma dessas
tentativas. Daí a importância de reflectir sobre o clamor nos media ocidentais
sobre a possibilidade de fraude nas recentes eleições na Venezuela e o consenso
à direita e à esquerda sobre a necessidade de auditar os resultados. É grande a
minha perplexidade e obriga-me a uma reflexão.
1. O sistema eleitoral venezuelano tem sido unanimemente
considerado um dos mais seguros e protegidos contra a fraude. Exige quatro
momentos de identificação: inscrição nos cadernos eleitorais, voto electrónico,
extracção de voto de papel, impressão digital do votante. Os números têm de
coincidir. Claro que nenhum sistema eleitoral é totalmente imune à fraude, mas
quando comparamos com os sistemas eleitorais de outros países (nomeadamente o
dos EUA ou o português), o sistema venezuelano é mais seguro. Porque é tão
evidente para tanta gente que pode ter havido fraude?
2. A oposição vinha anunciando que só reconheceria os
resultados se ganhasse as eleições. Neste domínio, estava a seguir uma prática
que se vai generalizando entre as forças de extrema-direita que concorrem a
eleições (casos de Trump em 2020, Bolsonaro em 2022, Milei em 2023). Isto devia
exigir alguma precaução por parte das forças democráticas, não vá a sua
insistência na auditoria servir de muleta a forças políticas que, supostamente
em nome da democracia, a querem destruir.
3. Fora da Venezuela, as forças mais vociferantes na defesa
da democracia venezuelana são forças políticas de extrema-direita que nos seus
próprios países advogaram ou praticaram golpes de Estado e fraudes eleitorais.
No Brasil, com a colaboração activa dos EUA, Jair Bolsonaro, e as forças
político-militares que o apoiavam, foram os protagonistas da mais clamorosa
fraude eleitoral da última década. Conseguiram inabilitar e meter na prisão
durante mais de 500 dias o candidato que certamente ganharia as eleições, Lula
da Silva; manipularam facilmente os media e os tribunais; e a eleição de 2018
foi dada como válida internacionalmente sem nenhuma reserva. Isto mostra que o
clamor mediático-político sobre a possibilidade de fraude e a necessidade de
verificação dos resultados não assenta, ao contrário do que parece, num
entranhado amor à democracia, mas antes noutras razões, que aponto adiante.
4. A dualidade de critérios vai muito para além das forças de
extrema-direita e do primitivismo das suas considerações. Os países europeus,
que se orgulham de ser impecáveis democracias, foram quase unânimes em
reconhecer como presidente legítimo da Venezuela um senhor que se tinha
proclamado presidente numa praça de Caracas. Refiro-me a Juan Guaidó, em 23 de
Janeiro de 2019. Como se explica que, neste caso, não tenha havido qualquer
precaução em verificar os processos democráticos? É sobretudo chocante quando
comparamos esta aparente negligência com o zelo de agora, a respeito de uma
eleição que contou com mais de novecentos observadores vindos de quase cem
países? Aliás, num aparte que aumenta a perplexidade, dá que pensar que só
nalguns países seja tão crucialmente importante recorrer a observadores
externos para credibilizar processos eleitorais. Se a possibilidade de fraude
existe sempre, a exigência de observadores devia ser universal e tutelada pela
ONU.
5. Não discuto as razões que levaram à inabilitação da Maria
Corina Machado (é sabido que participou em várias tentativas de golpe contra o
governo bolivariano e que chegou a pedir a intervenção militar estrangeira),
mas não deixa de causar perplexidade o modo como foi escolhido o seu
substituto, o ex-diplomata Edmundo Gonzalez Urrutia. Há algo de
inquietantemente caricatural na oposição venezuelana. Primeiro, foi Juan
Guaidó; agora foi um senhor que parecia ter saído de um lar de idosos para uma
actividade tempo livre que, por acaso, era uma candidatura presidencial. Se
refiro isto, é apenas porque as mãos de Edmundo Gonzalez podem estar
eventualmente manchadas de sangue. Entre 1981 e 1983 Edmundo Gonzalez era o
primeiro secretário da Embaixada da Venezuela em El Salvador, cujo embaixador
era Leopoldo Castillo, conhecido como Matacuras (mata padres). Realizava-se
nessa altura o Plano Condor de contra-insurgência impulsionado por Ronald
Reagan que naquele país visava impedir o avanço das forças revolucionárias da
Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN). Este plano incluiu a
execução da Operação Centauro que envolveu o exército e esquadrões da morte e
visava assassinar revolucionários e, nomeadamente, os membros das comunidades
religiosas congregadas à volta da teologia da libertação. Foram assassinadas
13194 pessoas, entre as quais Don Oscar Romero, hoje Santo da Igreja Católica,
quatro freiras Maryknoll, e cinco padres. Segundo dados da CIA desclassificados
em 2009, Leopoldo Castillo surge como corresponsável da coordenação e execução
da Operação Centauro. Edmundo Gonzalez era o primeiro secretário da Embaixada
da Venezuela. Os crimes cometidos são crimes de lesa humanidade e como tais
imprescritíveis.
Porquê todo o clamor sobre a possível fraude eleitoral?
A resposta breve a esta questão é a seguinte: a Venezuela é o
único país da América Latina onde dois recursos fundamentais não são
controlados pelos EUA: as Forças Armadas e os recursos naturais (a maior
reserva de petróleo, terras raras, ouro, ferro, etc.). Ao longo do século XX,
os EUA intervieram repetidamente nas eleições da Venezuela com o objectivo de
garantir o seu acesso aos recursos naturais. Sempre o fizeram com a ajuda de um
número muito pequeno de famílias oligárquicas, algumas das quais controlam a
riqueza do país desde o século XVI e dos tempos das encomiendas. Maria Corina
Machado pertence a uma dessas famílias. O seu programa eleitoral é muito
semelhante ao de Javier Milei e já se comprometeu em entrevista que, se fosse
presidente, mudaria a Embaixada da Venezuela de Tel Aviv para Jerusalém. É um
programa de extrema-direita que tem sido apoiado pelos EUA e, ultimamente, pelo
oligarca dos oligarcas, Elon Musk.
Por não controlar os dois recursos que referi, os EUA têm
usado as duas estratégias ao seu dispor (para além das interferências
eleitorais e apoio à oposição): participação em golpes de Estado, que podem ou
não incluir tentativas de assassinato dos líderes a abater; e sanções
económicas. Neste momento, a Venezuela está a ser punida com 930 sanções que
têm vindo a ser impostas há quase duas décadas. As sanções causaram o
empobrecimento abrupto da Venezuela e foram responsáveis por milhares de mortos
devido à falta de medicamentos essenciais para salvar a vida (por exemplo,
durante um período, a insulina). Este empobrecimento abrupto levou à suspensão
de muitas das políticas redistributivas do Governo e, em última instância, à
emigração. Mais de sete milhões de pessoas.
Sem dúvida que um país com tantos milhões de cidadãos
obrigados a emigrar não pode estar bem. E compreende-se que muitos desses
emigrantes vejam na derrota de Nicolas Maduro o fim das sanções e a esperança
de voltar. Neste contexto, duas reflexões se impõem. A primeira é que Maduro
liberalizou a economia nos últimos anos, adoptando algumas medidas que
dificilmente se podem considerar socialistas ou sequer de esquerda. Muitos
negócios estão a ser celebrados com grandes empresas norte-americanas e europeias,
na área petrolífera e não só. Hoje a economia venezuelana é uma das que mais
cresce na América Latina, mas obviamente isto ocorre depois de um
empobrecimento brutal. Até onde este novo modelo económico (de inspiração
chinesa?) pode ter êxito é uma questão em aberto.
A segunda reflexão é que, se olharmos para o panorama
internacional das migrações e refugiados, a Venezuela é o único caso em que a
atenção midiática se centra no país donde saem os deslocados. Em todos os
outros casos a atenção é centrada nos países de “acolhimento” (que inclui
muitas vezes a deportação). Mais uma vez, a razão parece ser esta: a política
de desestabilização e de demonização do governo bolivariano e a criação de um
consenso para fazer accionar a terceira arma dos EUA: o infame regime change
(mudança de regime). Penso, aliás, que a perturbação social actualmente em
curso visa criar uma Revolução Maidan dez anos depois. Refiro-me à agitação
social na Ucrânia em 2014 que levou à fuga do presidente eleito
democraticamente, Victor Yanukovych, e, pouco tempo depois, à eleição de
Volodymyr Zelensky. A razão pela qual uma “revolução colorida” dificilmente
terá lugar na Venezuela é o facto de os EUA não contarem com militares
venezuelanos treinados na Escola das Américas, onde tantos golpes de Estado foram
forjados. As Forças Armadas venezuelanas já reconheceram os resultados
eleitorais.
Mas certamente haverá mais tentativas no futuro, tanto mais
que a Venezuela conta com três aliados de peso: China, Rússia e Irão, três
inimigos dos EUA. Os dois primeiros são membros originais dos BRICS e o
terceiro juntar-se-lhes-á proximamente. Isto significa que, embora a fachada
discursiva seja sobre fraude eleitoral e democracia, o que está em causa é a
turbulência geopolítica que a vitória de Maduro provoca. Isto devia fazer
pensar os líderes dos países latino-americanos e muito especialmente o Brasil.
Mais tarde ou mais cedo o Brasil tem de decidir-se de que lado está no novo
horizonte geopolítico e geoestratégico mundial em curso. Compreendo as
cautelas, pois, afinal, ainda há pouco, os EUA interferiram de maneira brutal
na política interna do Brasil. Mas, por outro lado, só defendendo a soberania
dos outros países é que o Brasil, ou qualquer outro país, poderá defender
eficazmente a sua própria soberania quando a tempestade imperial chegar. Em
todo o caso, é melhor actuar coletivamente do que individualmente. Faz falta um
maior ativismo da Comunidade de Estados Latino-Americanos y Caribenhos (CELAC),
agora que a União de Nações Latino-Americanas (UNASUR) desapareceu.
31 de JULHO de 2024.
Boaventura de Sousa Santos GOSE (Coimbra, 15 de novembro de 1940) é um Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É também diretor Emérito do Centro de Estudos Sociais e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa. Foi fundador e diretor do Centro de documentação 25 de Abril entre 1985 e 2011.
sábado, 27 de julho de 2024
CELSO FURTADO E O SUBDESENVOLVIMENTO PROGRAMADO
Ontem, dia 26 de julho,
completaram-se 104 anos do nascimento do economista Celso Furtado, um dos mais
destacados intelectuais do Brasil do século XX. Celso Furtado nasceu em Pombal,
quarta cidade mais antiga do Estado da Paraíba e foi o primeiro brasileiro
indicado para o Prêmio Nobel de Economia.
Celso Furtado graduou-se em Direito
pela UFRJ e doutorou-se em Economia na Universidade de Paris-Sorbonne. Integrou
a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), órgão das Nações Unidas que
se analisava os aspectos teóricos e históricos do desenvolvimento da América
Latina. No Rio de Janeiro presidiu o grupo que elaborou estudos sobre a
economia brasileira, que serviu de base para o Plano de Metas do presidente
Juscelino Kubitschek. Em seu pós-doutoramento na Inglaterra escreveu o livro
Formação Econômica do Brasil, publicado em 1959. A obra desde logo se tornou um
clássico.
No mesmo ano, no Governo JK, criou a
Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e no Governo Jango foi
o primeiro Ministro do Planejamento do Brasil. Foi o idealizador do Plano
Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social. Retornando à SUDENE buscou
implantar uma política de incentivos fiscais para investimentos na região.
Da concepção de Celso Furtado,
notadamente em decorrência de suas interlocuções na CEPAL, depreende-se a
análise da estrutura produtiva de cada período histórico da sociedade
brasileira, voltando-se para as relações da economia nacional com a economia internacional,
num contexto de desigualdade entre países centrais, industrializados, e países
periféricos, agrícolas. E foi para romper esta infame dependência que entrou em
ação.
O Golpe empresarial-militar foi uma
interrupção no desenvolvimento do Brasil e rompimento com uma política voltada
à soberania nacional. A tentativa de golpe que levou o presidente Getúlio
Vargas ao suicídio, em 24/08/1954, há 70 anos, foi adiada para o dia
01/04/1964. Enrolados em bandeiras do Brasil os entreguistas executaram projeto
de interesse dos países centrais do capitalismo, notadamente os EUA. A abertura
dos arquivos estadunidenses nos permite conhecer a trama que se urdiu contra os
brasileiros, a fim de mantê-lo como país subdesenvolvido exportador de produtos
agrícolas, minérios brutos e produtos semielaborados ou produzidos sob licença
de patentes estrangeiras.
Portanto, dependente dos países
centrais do sistema. No dia 09 de abril de 1964, mesmo que um fantoche ocupasse
formalmente a presidência da República, os três ministros militares – que
exerciam de fato o poder - editaram o Ato Institucional nº 1 (AI-1) e incluiu
Celso Furtado na primeira lista de cassação de direitos políticos. Exilado,
Celso Furtado permaneceu no exterior até o início da redemocratização. Foi
professor e pesquisador em universidades dos EUA, da Inglaterra e da França.
Viajou a diferentes países do mundo em missões da ONU. Com a redemocratização
foi nomeado Embaixador do Brasil junto à Comunidade Econômica Europeia,
mudando-se para Bruxelas e foi ministro da Cultura. À frente do Ministério da
Cultura, criou a primeira legislação de incentivos fiscais à cultura.
Posteriormente retomou a vida
acadêmica e participou de diferentes comissões internacionais, como a Comissão
Sul, a Comissão Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento, da ONU/Unesco, e a
Comissão Internacional de Bioética.
Em 1997 foi eleito para a Academia
Brasileira de Letras, ocupando a cadeira antes ocupada por Darcy Ribeiro, autor
da vigente Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, para quem o malogro
da educação no Brasil não é fracasso; é projeto.
Por sua formação, Celso Furtado foi um dos que mais buscaram o conhecimento do funcionamento e da expansão das corporações multinacionais, o que lhe permitiu concluir sobre os distintos papeis reservados aos países centrais do capitalismo e aos países periféricos do mesmo sistema. Ele faz parte dos pensadores brasileiros que interpretam o subdesenvolvimento como uma forma de organização social no interior do sistema, ao contrário dos que acreditavam haver etapas a serem superadas para atingirmos o mesmo nível dos países centrais, como podem sugerir termos como “país em desenvolvimento” ou “país emergente”.
A estrutura do sistema demanda a existência de países subdesenvolvidos. Estes, segundo Celso Furtado, tiveram uma industrialização dependente dos países já desenvolvidos.
Assim, o subdesenvolvimento jamais
poderia ser superado sem uma forte intervenção estatal, mesmo que sem uma
transformação do sistema produtivo por completo, bastando um redirecionamento
da política econômica e social do país que leve em conta o verdadeiro
desenvolvimento social. A Revolução de 30, com Getúlio Vargas, industrializara
o país porque decidira controlar o excesso da produção, por meio de sua
aquisição, controlar o preço da venda dos produtos internacionalmente e com o
resultado instalar indústrias, substituindo as importações.
Não foi sem razão que os mesmos
entreguistas que há 70 anos levaram Vargas ao suicídio, há 60 anos cassaram os
direitos políticos de Celso Furtado e o mandaram para o exílio. Os entreguistas
estavam a serviço do capital internacional em prejuízo do povo brasileiro.
Publicado originamente no jornal O DIA, em 27/07/2024, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2024/07/6888631-joao-batista-damasceno-celso-furtado-e-o-subdesenvolvimento-programado.html
sábado, 13 de julho de 2024
Conservadorismo brasileiro: Dos grotões ao meio urbano
O
pensamento médio brasileiro é o que vem do sertão. Quem o percebeu foi
Guimarães Rosa. Na metade dos anos 50 do século XX o meio intelectual e
cultural fervilhava com a arquitetura moderna, Oscar Niemeyer, a Bossa Nova, a
indústria automobilística e com um presidente que a tudo isto apoiava e
enunciava um Brasil novo. Era o presidente Bossa Nova Juscelino Kubitscheck.
Mas outro Brasil contrastava com aquele urbano, moderno, ‘civilizado’ e
cheiroso que se apresentava na televisão recentemente introduzida nos lares. O
Brasil arcaico insistiu em seu desejo de permanência e Guimarães Rosa o
descreveu em Grandes Sertões: Veredas, publicado no mesmo ano da posse daquele
presidente. Este Brasil que não era litorâneo, nem cosmopolita já o havia
descrito Euclides da Cunha, Oliveira Vianna e Victor Nunes Leal.
A
migração de parcela da população interiorana para centros urbanos não implicou
mudança de valores. A consciência conservadora migrou dos grotões para a
periferia dos centros urbanos, mas não perdeu sua essência; teimou em sua
permanência associada à religiosidade, agora com novos padrões. Num país
periférico temos uma massa que vive na periferia do que há de bom para alguns.
Seus valores e crenças permanecem nesta parcela da sociedade brasileira, à
margem das novas relações que se estabelecem no mundo globalizado. O
desenvolvimento tecnológico lhe deu novos meios para se conectar, difundindo
fake News, com maior capacidade de divulgação antes limitadas a boatos
paroquianos. Na defesa da pauta de costumes, que é assunto da sociedade e não
do Estado, elege quem enche os bolsos com emendas secretas. O analfabeto
político, mas eloquente, participa do processo com o “galo na testa” e
inimizade com vizinhos e familiares, para mostrar a fidelidade aos seus
“valores”. “Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a
prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político
vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo”, nas
palavras de Bertold Brecht.
O
conservadorismo se apropria de meios contemporâneos de tecnologia
indispensáveis para sua permanência e constitui a modernidade conservadora que
reage e se impõe de vez em quando. A Consciência Conservadora no Brasil é
título de livro clássico de Paulo Mercadante, de cuja falta devemos ressentir.
Entender o Brasil profundo, não apenas da periferia, mas também dos grotões, é
fundamental para quem almeja comunicar-se com ele. A Zona Sul do Rio de Janeiro
e os Jardins em São Paulo têm relevância social e concentram significativa
parcela da riqueza nacional, mas a decisão sobre o destino do país não se
limita a estes espaços privilegiados. A “Faria Lima” tem poder de pressão sobre
as opções governamentais e políticas a serem implantadas. Mas há poder de decisão
na periferia e grotões onde um trabalhador precarizado se acha “empreendedor” e
um micro proprietário rural se acredita parte do agrobusiness, sem saber que o
mundo do agronegócio é feito de commodities negociadas nas bolsas de valores
dos países centrais do sistema internacional.
O
Brasil profundo não se intimida com a modernidade e a racionalidade e elege os
seus expoentes, incultos e iletrados, mas representativos dos valores que lhe
são próprios. O voto é apenas uma expressão das relações sociais sedimentadas e
que não se dobram aos valores da civilidade. Parcela da intelligentsia,
autoproclamada vanguarda intelectual, que se considera progressista por
defender pautas politicamente corretas financiadas por instituições
internacionais de fomento, é incapaz de compreender a força deste reacionarismo
enraizado. Seus discursos não contemplam os interesses concretos da massa.
Na
República Velha, na posse da terra o coronel assentava seu domínio. É a
constituição da propriedade fundiária privada o que ainda sustenta o poder nos
grotões, ameaçando comunidades indígenas e quilombolas. Enquanto houver terra
devoluta e riqueza natural a ser expropriada a expansão das fronteiras não
cessará. Sem um programa de reforma agrária, que possibilite o aumento do
número de proprietários e que limite o tamanho das propriedades, os donos do
Brasil se fortalecerão. O latifúndio não é pop. Nos centros urbanos a questão
da moradia está subordinada ao capital imobiliário especulativo.
Para
governar, o Príncipe dos Sociólogos se rendeu e teve que barganhar. O atual
presidente idem. A presidenta Dilma acreditou-se acima dos interesses concretos
da bancada fisiológica e, demasiadamente, confiou na força das instituições e
na sua integridade moral que nada serve no embate dos interesses
inconfessáveis. O conservadorismo ameaça com o semipresidencialismo a fim de
assumir o poder institucionalmente. Trata-se de mais um golpe, pois
desconsidera o valor do plebiscito e da democracia direta. A sociedade
brasileira já foi ouvida sobre a questão e escolheu o presidencialismo. Mas nem
sempre o povo assiste bestializado, como descreveu Aristides Lobo, por ocasião
do golpe militar que proclamou a República. Às vezes o povo reage, tomando
decisões até mesmo contrárias aos seus interesses, cavando a própria sepultura
pensando estar em busca de ouro.
Publicado originariamente no jornal O DIA, em 13/07/2024, pag. 12. Link; https://odia.ig.com.br/opiniao/2024/07/6881016-joao-batista-damasceno-conservadorismo-brasileiro-dos-grotoes-ao-meio-urbano.html
terça-feira, 2 de julho de 2024
MACHADO DE ASSIS: TALARICAGEM, CATARSE OU FAKE NEWS? ESTE É O ENIGMA!
O primeiro clássico da literatura brasileira que li foi A
Moreninha. Ainda pré-adolescente minha mãe o entregou-me e explicou como se lê
um livro. Primeiro o título e nome do autor. Depois as orelhas e contracapa, se
tiver. Em seguida os dados sobre a edição, o sumário, a apresentação e o
prefácio. Situado sobre o que se tem na mão começa-se a leitura. O livro tinha
a biografia de Joaquim Manuel de Macedo apresentada por M. Cavalcanti Proença e
prefácio de Raquel de Queiróz. Era um livro de bolso da Ediouro. Guardo-o como
se guarda uma relíquia. Fiquei encantado com quem escrevera a biografia.
Julguei ser alguém que sabia tudo de literatura, tudo sobre a obra e tudo sobre
o autor. Não me enganei. Mais tarde soube que era o professor, literato e
General Manuel Cavalcanti Proença, que introduziu o estudo de literatura na
Academia Militar/AMAN, matéria suprimida depois do golpe empresarial-militar de
1964.
Quando conheci seu filho, o professor, literato e Coronel
Ivan Cavalcanti Proença, cassado pela ditadura por seu legalismo, falei da
admiração que sempre tive por seu pai, desde sempre. E pude conversar com ele
sobre a mais clássica polêmica da literatura brasileira: o possível adultério
de Capitu. Ivan Proença analisa sob o olhar de um crítico literário e afasta
qualquer conclusão ou relação com a realidade. Para ele a obra de Machado de
Assis tem a característica do enigma e, portanto, não faz sentido tentar chegar
a uma conclusão. É um enigma e ponto, tal como o é o estilo machadiano!
Nesta semana chegou-me às mãos um livro usado editado pela
Nova Fronteira, em 2008, intitulado “Quem é Capitu?”. Organizado por Alberto
Schprejer, textos de quatorze notáveis tentam responder à pergunta: Luis
Fernando Veríssimo, Lya Luft, Luiz Fernando Carvalho, Lygia Fagundes Telles,
Mary Del Priore, Fernanda Montenegro, Silviano Santiago, John Gledson, Roberto
DaMatta, Gustavo Bernardo, Luiz Alberto P. de Freitas, Daniel Piza, Otto Lara
Resende e Carla Rodrigues.
O texto do Otto eu o lera quando publicado na Folha de S.
Paulo, em 1992. Eu era leitor do Otto e senti sua morte como de alguém com quem
tivesse convivido pessoalmente. Substituiu-o na coluna da Folha Carlos Heitor
Cony, que também escreveu sobre Capitu, mas não foi incluído no livro. Custei
acostumar ler a coluna do Cony, tendo sempre o Otto como referência da primeira
leitura depois do café da manhã.
Muitos outros autores e textos poderiam ser incluídos na
obra, além de Cony. Não faltam polemistas quando se trata da obra, notadamente
depois do livro “O Enigma de Capitu”, de Eugênio Gomes, de 1967. Aparentemente
até o surgimento desta obra era certo o adultério de Capitu. Este livro foi
quem trouxe a dúvida. É o que escreveu Dalton Trevisan, com quem concordou Otto
Lara Resende.
As conclusões dos autores da obra são diversas.
Fernanda Montenegro não reconhece o adultério, nem o nega.
Sua compreensão da relação está em consonância com aqueles que acreditam
Bentinho seja tal como Otelo e escreve: “Os olhos mostram o que desejamos
ver por meio deles. É sempre também o reflexo, a projeção de quem olha. (...)
Bentinho descreve seu próprio olhar, olhando Capitu”.
Luiz Fernando Carvalho não responde à pergunta e retoma a
questão do enigma surgido a partir de 1967 e diz que “O benefício da dúvida
que Santiago acaba por nos conceder com seu relato é que finda sendo sua
verdadeira redenção”. Mas ao afirmar que “as omissões –
propositadas ou apenas falha de memória – nos fazem intuir que algo parece
sempre fora do lugar”, permite uma interpretação equivalente à que deu
Luiz Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes, descritas adiante.
Mary Del Priori é enfática: “Capitu traiu pois Bentinho
conhecia a regra das Escrituras e não a exerceu com competência: ‘Vós maridos,
coabitai com vossas esposas’. Em resumo, se Capitolina não dormia, é porque
Bento, seu marido, adormecia de cansaço”. Tal como numa “tragédia de
costumes” rodriguiana seria Bentinho que haveria de pedir à Capitu perdão por
ser corno.
A crônica de Gustavo Bernardo é narrada por Simão Bacamarte,
que acaba por internar todos na Casa Verde de Itaguaí, inclusive o próprio
Machado de Assis, convertido em personagem de suas obras.
Carla Rodrigues, numa sofisticada narrativa fundada em Freud,
Derrida, Lacan e Nietzsche, se aproxima da discreta narrativa de Luiz Fernando
Carvalho, que igualmente identifica algo fora do lugar: “Os deslocamentos se
multiplicam aqui: Machado desloca o privilégio da feminilidade de Capitu e faz
aparecer também em Bento/Casmurro. (...). A feminilidade se transforma no
elemento traiçoeiro: das verdades asseguradas, das certezas definitivas, da
estabilidade. É com esse feminino que Bentinho se depara, primeiro em Capitu,
depois em sua própria reconstituição narrativa: o feminino que indica a
ausência de certezas em que se apoiar, o feminino da instabilidade e da
impossibilidade de chegar à verdade”. A leitura de Carla Rodrigues tem
por referência sobretudo a obra de Helen Caldwell, O Otelo brasileiro de
Machado de Assis.
Lya Luft admite o enigma e diz que “não sei o que de
verdade houve, não sei qual é a verdadeira Capitu, nem se tive (sic) esse
romance ou se aquilo tudo existiu, provavelmente não saberei nunca”.
Silviano Santiago absolve Capitu: “Instado a dizer
quem é Capitu, respondo: Capitu é o ciúme – ou seja, é a malícia de Dom
Casmurro; é a ‘regra de composição’ do romance machadiano. (...) O ciúme é o
esterco literário de Capitu, garantia de seu florescimento em mulher secreta ou
enigmática, pouco importa”.
John Gledson igualmente coloca Capitu numa posição de
passividade, incapaz de optar seja pelo adultério, seja por um dos personagens.
Diversamente de Virgília, personagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas que faz
expressa opção pelo casamento e pelo adultério, Capitu teria sido incapaz de
qualquer opção. Deixou a vida levá-la. “... as mulheres de Machado
frequentemente ‘optam por não optar’; no caso de Virgília, isto significa ter
um casamento feliz e um adultério feliz ao mesmo tempo, ou usar a religião como
uma veste, uma roupagem interior, aconchegante, mas que não é para ser vista de
fora. No caso de Capitu, a frase tem outro significado: seria possível
argumentar que, mais corajosa e de uma classe social diferente da de Virgília,
ela de fato tenta optar, fazer a escolha, mas acaba, fatalmente para ela, por
ser forçada a não optar, a aceitar uma solução de meio-termo em que nenhuma das
questões reais envolvidas no seu casamento não trazidas à superfície”.
Otto Lara Resende escancara a denúncia do adultério de
Capitu. Tratando em crônica na Folha de S. Paulo, em 08 de janeiro de 1992, de
uma questão do vestibular de uma universidade paulista, afirma categoricamente
que “a hipótese aí estampada, de que Capitu não traiu Bentinho, um Bentinho
paranoicamente ciumento qual Otelo, está fundamentada em “O enigma de Capitu”.
Apareceu de fato no ensaio de intepretação de Eugênio Gomes, publicado em 1967.
(...) Dom Casmurro saiu em 1900. Machado morreu em 1908. Nenhum crítico nesses
oito anos jamais ousou negar o adultério de Capitu. Leiam a carta do Graça
Aranha, amigo pessoal do Machado: ‘Casada, teve por amante o maior amigo do
marido.’ Voltem ao artigo de Medeiros e Albuquerque. Dar o Bentinho como ‘o
nosso Otelo” é pura fantasia. Bestialógico mesmo”.
Luis Fernando Veríssimo se manifesta por meio de um
personagem, que é detetive particular, contratado por Bentinho para descobrir o
que faz Escobar e narra: “Juro que uma vez os vi, num momento descuidado, de
mãos dadas, o que me pareceu natural entre colegas de tantas coisas”. Na
sua atividade profissional de investigador viu Escobar entrar com uma mulher “num
quarto alugado por horas e ocupado por duas” e não fez constar do
relatório entregue ao cliente “o nome de quem acompanhava Escobar no
quarto sórdido da Lapa. Era d. Capitu”. Mas o que deveria ser um
encontro entre os quatro para esclarecer a situação revelou-se trágico:
“Na hora acertada, cheguei à praia, onde já estavam os
dois ex-seminaristas. Escobar lia o meu relatório. Com dificuldade, pois
sobrara pouca luz do pôr do sol. Só levantou a cabeça para me olhar quando
terminou a leitura. Sacudiu o relatório e disse:
“- A mulher que estava comigo não está aqui.
“Comecei a responder, mas Bentinho me interrompeu.
“- Não interessa quem era a mulher.
“- Como, não interessa?
“Fui eu que fiz a pergunta, espantado. Não interessava que
a mulher era a d. Capitu?
“- O que interessa – continuou Bentinho – é que você me
traiu.
“Levei alguns segundos para entender. A alegoria moral não
era bem a que eu esperava. Bentinho ainda estava falando.
“- Essa mulher é só uma. Você dever ter me traído com
muitas”.
Millôr Fernandes não fez por menos. Além de afirmar o
adultério ainda descreve cenas das quais resultam a conclusão de uma relação
homoafetiva entre os dois ex-seminaristas:
“PUBLIQUEI, ATRAVÉS DE ANOS, no Estadão, no O Dia e no
Jornal do Brasil – ao todo aproximadamente dois milhões de exemplares -,
‘pesquisa” sobre Dom Casmurro, a obra magna de Machado de Assis. Como minha
página era a capa exterior dos jornais citados, e o assunto era picante – se
Escobar, ‘herói’ do romance, tinha ou não tinha comido a Capitu, eterna e tola
discussão entre beletristas -, devo ter alcançado pelo menos cem mil
desprevenidos. Bom, não apenas mostrei que Escobar comeu a Capitu, como, não
sei não, acho que tirei Dom Casmurro do ‘armário’.”.
Luiz Alberto Pinheiro de Freitas deixa em suspensa a possível
infidelidade de Capitu, ainda que afirme que “havia sido criada uma
propensão ao encantamento de Capitu por Escobar, em virtude da fragilidade de
Bento e das qualidades de Escobar”. Igualmente aponta o encantamento
de Bentinho por Escobar: “Contudo, com um pouco mais de certeza, poderemos
interpretar que o ciúme delirante de Dom Casmurro fala, como mostrou Freud,
muito mais do seu desejo por Escobar do que do desejo por Capitu. Então
horrorizado diante de sua paixão homossexual, ele poderia dizer: Eu, Bento, não
amo Escobar; é ela, Capitu, quem o ama – ao que o psicanalista responderia:
bela denegação!”.
Roberto DaMatta faz coro com a Eugênio Gomes: “A proeza de
Machado de Assis foi transformar um drama cultural num enigma. Se nos
adultérios comuns há sempre uma culpada, neste há mistério”.
Daniel Piza igualmente coloca em questão os comportamentos de Bentinho: “Numa
cena que também poderia ser de uma história romântica, Bento até espera um
último aceno de Escobar antes de dobrar a esquina” e quando
Ezequiel reaparece: “Depois diz que fará uma viagem científica à Grécia,
Egito e Palestina com dois amigos. Bento Pergunta: ‘De que sexo?’. O
filho responde que as mulheres são da moda, não entendem ruínas.”
Por fim, Lygia Fagundes Telles, também no sentido da
incerteza: “E daí, houve mesmo a traição? Olhei-o nos olhos e respirei
fundo. Ah! Confesso que não sei, não sei. É tudo misterioso como aquele mar
acima de qualquer suspeita com suas ondas espumejantes arrebentando nas
pedras”.
Muitos literatos escreveram sobre a obra. Em publicação na
Folha de S. Paulo de 28 de março de 1999 temos os seguintes trechos de textos
ou depoimentos:
José Veríssimo: "(‘Dom Casmurro’ trata de) um
homem inteligente, sem dúvida, mas simples, que desde rapazinho se deixa iludir
pela moça que ainda menina amara, que o enfeitiçara com a sua faceirice
calculada, com a sua profunda ciência congênita de dissimulação, a quem ele se
dera com todo ardor compatível com o seu temperamento pacato."
("História da Literatura Brasileira").
Lúcia-Miguel Pereira: "Capitu, se traiu o marido, foi
culpada ou obedeceu a impulsos e hereditariedades ingovernáveis? É a pergunta
que resume o livro. (...) Há a ideia central de saber se Capitu foi uma
hipócrita ou uma vítima de impulsos instintivos. Em outras palavras, se pode
ser responsabilizada." ("Machado de Assis").
Augusto Meyer: "Capitu é o melhor exemplo daquilo que
Bentinho afirmava, a propósito de si mesmo: "Chega a fazer suspeitar que a
mentira é, muita vez, tão involuntária como a transpiração". Capitu mente
como transpira, por necessidade orgânica." ("Capitu", em
"Textos Críticos").
Antonio Candido: "Dentro do universo machadeano, não
importa muito que a convicção de Bento seja falsa ou verdadeira, porque a
consequência é exatamente a mesma nos dois casos: imaginária ou real, ela
destrói sua casa e a sua vida." ("Esquema de Machado de
Assis", em "Vários Escritos").
Antonio Callado: "Respeitemos um dos dogmas da nossa
literatura, que é o da maculada conceição do filho de Capitu com Escobar.
Cultuemos a sua infidelidade e não afastemos de nós a negra inveja que sentimos
de Escobar." (Na Folha, em 12/10/1994).
Dalton Trevisan: "Até você, cara - o enigma de
Capitu? Essa, não: Capitu inocente? Começa que enigma não há: o livro, de 1900,
foi publicado em vida do autor - e até sua morte, oito anos depois, um único
leitor ou crítico negou o adultério?" (Na Folha, em 23/5/92).
Roberto Schwarz: "("Dom Casmurro') solicita três
leituras sucessivas: uma, romanesca, onde acompanhamos a formação e
decomposição de um amor; outra, de ânimo patriarcal e policial, à cata de
prenúncios e evidências do adultério, dado como indubitável; e a terceira, efetuada
a contracorrente, cujo suspeito e logo réu é o próprio Bento Santiago, na sua
ânsia de convencer a si e ao leitor da culpa da mulher. Como se vê, uma
organização narrativa intrincada, mas essencialmente clara, que deveria
transformar o acusador em acusado. Se a viravolta crítica não ocorre ao leitor,
será porque este se deixa seduzir pelo prestígio poético e social da figura que
está com a palavra." ("A Poesia Envenenada de Dom Casmurro",
em "Duas Meninas").
Em artigo na Folha de S. Paulo, em julho de 1999, Carlos
Heitor Cony, também da Academia Brasileira de Letras, depois de ter sido
testemunha de acusação num julgamento simulado que teve o ex-ministro do STF
Sepúlveda Pertence como presidente do júri, sentenciou: “Capitu traiu o
marido. Nem por isso merece ser condenada. Entre os moradores da rua Cabuçu que
condenavam o Pires por adulterar o leite, e o Cristo que perdoou a adúltera,
fico mesmo com o Cristo”.
As três propostas de leitura de Dom Casmurro feitas por
Roberto Schwartz estão presentes nos textos da publicação que me chegou às
mãos: romanesca, patriarcal-policial e a leitura contracorrente, retirando o
holofote sobre Capitu e direcionando-o para Bentinho, tal como sugerem
escancaradamente Otto Lara Resende, Luiz Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes,
e – sofisticadamente – Luiz Fernando Carvalho, Carla Rodrigues, Luiz
Alberto Pinheiro de Freitas e Daniel Piza.
Mas e se a obra for autobiográfica e Machado a tiver escrito
como um mea culpa ou catarse, explicitando o que não poderia
dizer publicamente e às claras? Há criminosos que decorridos tempos de seus
delitos procuram autoridades e relatam o que cometeram, sem o que jamais se
saberia sobre a autoria do delito. Trata-se de modo de se liberar de algo que
aflige; que se pensa sobre alguma situação ou pessoa. A catarse em tal caso é
compreendida como um desabafo e, assim, a pessoa experimenta um estado de
alívio por ter posto para fora o que lhe atormentava.
Machado de Assis era gago e epilético. Eventual desconforto
na alma poderia lhe corroer, também, neurologicamente. Há argumentos e fatos
defensáveis de acordo com a preferência do interlocutor. Talvez, também por
isso, a obra e a vida do autor sejam interessantes.
Antonio Carlos Villaça transpõe a literatura para a
realidade. Assim, a obra deixa de ser romance e assume a natureza de crônica.
Diversamente de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, que foram
anteriormente publicados, capítulo por capítulo, em folhetins, Dom Casmurro foi
escrito na forma definitiva de livro, no vigésimo aniversário da morte do amigo
José de Alencar, ou seja, de 1897 a 1898. É dele a afirmação: “Teria Machado
como inspiração dona Georgiana, a inglesinha, a mulher de Alencar, tão sua
amiga, que ele conhecia intimamente. Era grande frequentador da casa de
Alencar. E, quando este morreu prematuramente, aos quarenta e oito anos, em
1877 teve o maior choque de sua vida. Um choque tremendo. Ficou doente. Foi
para Friburgo. Nunca a morte lhe causou uma impressão tão profunda. Continuou
amigo de Mário de Alencar. Jantava com ele aos domingos, na casa de Botafogo. E
ia vê-lo diariamente na Biblioteca da Câmara. Era como um filho. Dom Casmurro é
um romance que se inspira na vida, na vida real. Num drama existencial.
‘Consolava-os a saudade de si mesmos’, como escreveu no Memorial de Aires”.
Villaça foi direto e objetivo ao afirmar não só a relação
entre Capitu e Escobar, do qual resultou o infante Ezequiel, como subtrai a
obra do campo da criação literária e a coloca como narrativa da realidade. Para
ele a obra é biográfica e Machado de Assis tinha um caso com a mulher do amigo
José de Alencar.
Machado de Assis fundou a Academia Brasileira de Letras e
ocupou a cadeira nº 23 cujo patrono é seu amigo José de Alencar, instituidor da
literatura brasileira. Alguns dos autores do livro que acabo de ler foram ou
são membros da ABL. Nenhum deles negou a infidelidade de Capitu. Três foram as
categorias de respostas à pergunta: Capitu traiu Bentinho, a obra é uma
narrativa de um marido ciumento e paranoico e a terceira categoria na qual
estão Otto Lara Rodrigues, Luiz Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes: O affair era
entre Bentinho e Escobar.
Para Antonio Carlos Villaça, Machado de Assis era um
Talarico, gíria que expressa quem tenta ou tem relacionamento com mulher
de um amigo ou conhecido; é o fura-olho.
Além de transar com a mulher do amigo, Machado de Assis teria
tirado da sua experiência pessoal o fio condutor do mais celebrado romance da
literatura brasileira.
Machado nasceu em 1839 e seu melhor amigo era José de
Alencar, 10 anos mais velho, filho de um padre. José de Alencar foi casado com
Georgiana Augusta da Gama Cochrane, (Georgiana Cochrane Alencar,
depois de casada), 17 anos mais jovem que o marido, com quem teve seis filhos,
dois homens e quatro mulheres: Augusto Cochrane de Alencar, Elisa Cochrane de
Alencar, Clarice Crochrane de Alencar, Mário Cochrane de Alencar, Cecy Cochrane
Pinto Alencar Alves e Adélia Cochrane de Alencar.
Quando José de Alencar morreu em 1877, Georgiana, a
Inglesinha, tinha 31 anos e seis filhos. Machado de Assis tinha 38 anos. Mas só
o órfão Mário de Alencar, nascido em 1872, “era como um filho” para Machado de
Assis. E foi por toda a vida, tendo ingressado na Academia Brasileira de Letras
em 1905, tornando-se desde logo figura de relevo na sua administração.
Foi Humberto de Campos em seu Diário Secreto quem
possibilitou a difusão da história de que Mário de Alencar poderia ser filho de
Machado de Assis, oportunizando a interpretação de que José de Alencar, filho
de padre, era o Bentinho; Machado de Assis, o Escobar; Georgiana Cochrane, a
Capitu e Mário de Alencar (M. de A.), o Ezequiel. Mas outro M. de A., que
também era querido de Machado de Assis, pode ser o Ezequiel. E o próprio
Humberto de Campos faz a confusão.
Realizando pesquisa para sua tese de doutorado, a
historiadora literária Mara Cristina Vergueiro, da Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ), disse ter confirmado a existência do que desde a publicação
dos Diários Secretos de Humberto de Campos se tornou tema de especulação
pública: o affair de Machado de Assis com a mulher de José de
Alencar. A prova seria um romance inédito de Machado de Assis intitulado
Georgiana.
A tese é controversa. O doutor em Letras Domício Proença
Filho, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, acredita que é preciso
cautela antes de atribuir tal romance ao escritor: “É um estilo ousado,
transgressor e atirado demais para o próprio Machado”, observa. “Ele até
chegou a cometer lá seus desvios de estilo, mas só quando era mais novo. Não
acredito que ele tenha sido capaz duma prosa tão atrevida com Georgiana, mulher
de seu grande amigo e patrono na ABL”.
O professor Castelar de Carvalho, autor do Dicionário
de Machado de Assis e membro da Academia Brasileira de Filologia diz
que “Machado era zeloso das tradições. Sempre foi conhecido por prosas
corretas e estilo sóbrio. Por que querem lhe atribuir agora esse romance
adúltero, com vícios e impurezas?”.
Não faltam dentre os que afirmam a infidelidade de Capitu a
relação com Georgiana Cochrane, a Inglesinha, mulher do amigo José de Alencar.
Os dois que mais enfaticamente relacionaram a obra com a realidade foram
Humberto de Campos e Antonio Carlos Villaça. Este foi contundente.
Em agosto de 1999 Carlos Heitor Cony apareceu com outra
possibilidade e escreveu na Folha de S. Paulo:
“Tornou-se um lugar-comum crítico: Machado de Assis jamais
colocou em seus romances qualquer elemento autobiográfico. Recentemente, no
centenário de ""Dom Casmurro", houve uma enxurrada de
celebrações e estudos, a ninguém ocorreu que o caso de Capitu podia ser
confessional.
“Conto o que li em diários e crônicas daquele tempo, mantendo
as iniciais por conveniência, há parentes vivos da pessoa em questão.
“Todos sabiam da amizade filial de Machado por M. de A. -
simples coincidência nas iniciais. Ao fundar a Academia, indicou-o como membro
da primeira leva, o rapaz tinha então 20 e tantos anos, um único livro sem
valor. Fisicamente, tinha traços de Machado, a mesma testa, o mesmo cabelo
crespo, alguns tiques iguais.
“Indo a um médico, por causa desses tiques, teve
diagnosticada a epilepsia – doença hereditária que tanto maltratara Machado.
Tão discreto quanto o autor de ""Helena", viveu na sombra,
passou anos fora do Brasil. Ninguém entendia o amor que Machado tinha por ele.
Ninguém entendia como os dois poderiam ser tão parecidos fisicamente.
“Dos membros fundadores da Academia foi o último a morrer.
“Não fora a excepcional amizade de Machado, teria sido apenas
um diplomata a mais.
“Foram pouquíssimos os contemporâneos de Machado que notaram,
nele, a mesma coincidência do filho de Capitu, que se parecia com o amante dela
e não com o pai do rapaz. Há testemunhos disso: o médico Afonso Mac-Dowell, que
cuidava de vários acadêmicos, e Goulart de Azevedo, que contou a história a
Humberto de Campos.
“Sendo verdadeira a suposição, fica encerrada a questão do
adultério. O amante de Capitu era o próprio Machado”.
A discrição de Cony em nada ajuda a manter o anonimato do
membro da ABL que seria M. de A., filho de Machado de Assis, sem que o seja
Mário de Alencar. A revelação apenas afasta a relação de Machado de Assis com
Georgiana Cochrane Alencar, a Inglesinha.
Cony diz que o filho de Machado de Assis tinha 20 e tantos
anos, as iniciais do nome eram M. de A., foi um dos fundadores da ABL, dentre
todos eles o último a morrer e que fora diplomata. A ABL foi fundada em 1897 e
Mário de Alencar somente nela ingressou em 1905. Portanto, com esta descrição
M. de A. não seria Mário de Alencar.
Dos 40 fundadores da Academia Brasileira de Letras apenas quatro poderiam usar as iniciais M. de A., sendo um deles Machado de Assis.
Antônio Mariano Alberto de Oliveira tinha mais de 30 anos
quando a ABL foi fundada, mas era conhecido como Alberto Oliveira e se usasse o
nome Mariano Alberto poderia ser M. A. Jamais M. de A.
Oliveira Lima e Graça Aranha tinham menos de 30 anos quando
da fundação da ABL, mas suas iniciais não se compatibilizam com a descrição do
Cony.
O outro é Carlos Magalhães de Azeredo. Nascido em 1872 tinha apenas 25 quando da fundação da ABL.
M. de A. poderia não ser Mário de Alencar, mas Magalhães de Azeredo.
De todos os fundadores apenas um, Carlos Magalhães de Azeredo, tinha pouco mais de 20 anos
e viveu até a década de 60 do século passado. Em verdade não foi um fundador.
Mas um dos dez convidados pelos trinta fundadores para formar o quantitativo de
quarenta, tal como a Academia Francesa.
Carlos Magalhães de Azeredo era filho
póstumo de Caetano Pinto de Azeredo (morto três meses antes de seu nascimento)
e de D. Leopoldina Magalhães de Azeredo. Capitu pode ter sido inspirada em D.
Leopoldina.
Apesar de toda a especulação, Cony termina o artigo com uma
frase enigmática: “Sendo verdadeira a suposição....”.
A imputação é séria e há descendentes das distintas senhoras
que podem se incomodar com tal correlação. Cony viveu até 2018 e apesar da
descrição de quem poderia ser, não foi incomodado pelos parentes de M. de A.
Humberto de Campos e Antonio Carlos Villaça cuidaram de
morrer antes que suas obras, que tratavam do tema, fossem publicadas.
Até 28 de março de 2005 o adultério era tipificado como crime
no Brasil e a imputação falsa a pessoa, mesmo morta, poderia configurar crime
de calúnia. Dos crimes contra a honra (injúria, difamação e calúnia) somente o
último é punível no Brasil. Mas podem restar incômodos pessoais aos sucessores
da Inglesinha ou do “Filho do Padre” José de Alencar, como o chamava D. Pedro
II, ou aos descendentes da mãe do jovem fundador da ABL. Este talvez seja outro
enigma porque os que fazem a relação com a realidade não o façam
categoricamente, como o fez Antonio Carlos Villaça
Villaça morreu em 29 de maio de 2005, dois meses após a
descriminalização do adultério, mas antes da publicação d’O Livro dos
Fragmentos. Nem precisava ter morrido. Já não se poderia alegar imputação de
fato criminoso à morta e não poderia ser acusado de calunia.
Dois outros triângulos amorosos que tiveram como
protagonistas escritores brasileiros e, mesmo tendo resultado em violências, os
sucessores dos personagens não se vexam de reconhecer as virtudes de seus
antepassados: um é o caso da escritora feminista e sufragista Sylvia Thibau,
que matou Roberto Rodrigues, irmão de Nelson Rodrigues. O outro é Euclides da
Cunha, morto em legítima defesa por Dilermando de Assis, amante de sua esposa
Ana Emília Ribeiro da Cunha. Dilermando, absolvido, casou-se com a viúva. Dilermando
também se relacionou com Maria Antonieta de Araújo Jorge, prima do poeta J. G.
de Araújo Jorge, com quem teve uma filha, a escritora Dirce de Assis
Cavalcanti. Dirce nunca deixou de expor o problema no qual seu pai esteve
envolvido e luta para mudar a percepção do público a respeito dele.
Os sucessores de Georgiana Cochrane e José de Alencar
igualmente não hão de se incomodar com a conexão do romance com a realidade.
Afinal, juntamente com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba
(1891), que formam a trilogia realista, Dom Casmurro (1899) tem um ligeiro e
soslaio olhar para o Romantismo. Quanto aos parentes do outro M. de A. não sei
o que lhes poderíamos dizer para enchê-los de orgulho por serem descendentes do
Bruxo do Cosme Velho.
Publicado originariamente em https://www.criativos.blog.br/post/machado-de-assis-talaricagem-catarse-ou-fake-news-este-%C3%A9-o-enigma, no dia 02/07/2024.
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