Sem perder o hábito da leitura dos jornais impressos, apesar
da grande disponibilidade de notícias na rede mundial de computadores, há 16
anos não assisto a noticiário televisivo. Se começam, desligo, mudo de canal ou
saio da frente da TV. Mas não assisto.
Em 2010, concluindo doutoramento em Ciência Política na
Universidade Federal Fluminense (UFF), empreendi pesquisa sobre o noticiário
televisivo em ano eleitoral e a contrariedade entre eles, reciprocamente, bem
como as abordagens no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral. Igualmente
analisei as repercussões nas pesquisas de intenção de voto. Pesquisar nos tira
do senso comum e nos impõe a compreensão de que a realidade pode ser, por
vezes, muito diferente do que pensávamos. Esta é a diferença que os gregos já
faziam entre conhecimento e opinião, que chamavam de episteme e dóxia, termos
que compõem as palavras epistemologia e ortodoxia.
A ortodoxia está presente na adesão rigorosa a crenças tratadas
como verdadeiras e imutáveis, comum em contextos tradicionais e religiosos, denotando
inflexibilidade, conformidade e conservadorismo. A epistemologia ou teoria do
conhecimento é o ramo da filosofia que estuda a natureza, a origem, os métodos,
a validade e os limites do conhecimento humano. Analisa a diferença entre
conhecimento, opinião e crença. As crenças são próprias da ortodoxia enquanto o
conhecimento é fundamentado em estudos e reflexões.
Todos temos algum tipo de crença, mas precisamos distinguir o
que nos embala na vida com base com fundamento em conhecimento decorrente de
estudo, reflexão ou ciência, daquilo que acreditamos, mas decorre de costumes e
crenças não comprovadas.
Nascemos indivíduos e nos tornamos pessoas e cidadãos. No
seio da família nos socializamos e obtemos os primeiros conhecimentos e
valores. Na escola nos aprimoramos para a cidadania. Mas os meios de
comunicação social são os que mais influem em nossa formação e opiniões.
Jornais, Rádio, TV e, agora, as redes sociais são os meios pelos quais nos
formamos e nos informamos.
As redes sociais não têm filtro. Trata-se de um mundo no qual
qualquer um pode postar o que desejar, seja notícia fundada em fato
efetivamente ocorrido ou fake News. As novas tecnologias permitem produção de
imagens irreais, com rosto e voz das pessoas. Trata-se da tecnologia de deepfake (ou deep
face), que utiliza inteligência artificial para criar vídeos, áudios e
imagens falsas extremamente realistas. Isto é uma das maiores ameaças de fraude
digital atualmente. Criminosos utilizam essa tecnologia para manipular a imagem
e a voz de terceiros, com o objetivo de cometer crimes diversos ou difamar
pessoas. De criminosos não podemos esperar comportamentos éticos. Mas das
empresas de comunicação temos o direito de exigir adequada informação. Tais
veículos hão de ser fonte segura de informação, produzida por profissionais e
sujeita a controle editorial.
Enquanto terminava meu trabalho de doutoramento, em 11 de
agosto de 2011 a juíza Patrícia Acioli foi assassinada por agentes do Estado, a
mando de superiores hierárquicos, com armas e munição do Estado. O corpo da
juíza ainda não havia sido sepultado e um jornalão carioca já a difamava,
dizendo que mantinha relação perigosa com um policial. O que o machismo
considerava relação perigosa fora o casamento da vítima com um policial que
fizera sua segurança e do qual estava divorciada quando do atentado. Estabeleci
contato com o jornalista e ele me disse que apostava todas as suas fichas, pois
acreditava que o assassino fora o ex-marido e prosseguiu com matérias ofensivas
à memória da vítima. O jornal O DIA adotou caminho contrário. Buscou se
orientar por fontes seguras e saiu na frente na divulgação do que se apurava.
Comprei e arquivei dia-a-dia ambos os jornais para registrar a cobertura.
Quando finalmente o caso foi elucidado escrevi ao jornalista do jornalão,
dizendo que perdera suas fichas e que deveria se retratar. Ele nunca respondeu
a quaisquer das minhas mensagens cobrando uma postura ética. Prestei depoimento
e emprestei os jornais que foram exibidos no filme “Patrícia Acioli, a juíza do
povo”. Nele é possível ver e ler o nome do jornal e do jornalista que falseou o
dever de adequada informação. As respectivas coberturas, da qual o jornal O DIA
cumpriu seu dever de informação, aguçou-me a visão crítica sobre determinadas
coberturas jornalísticas.
A análise do material coletado nos telejornais no ano de 2010
demonstrou-me que nem sempre o que assistimos no noticiário corresponde à
realidade. Um escândalo de corrupção fabricado, envolvendo a então ministra Erenice
Guerra e seu filho, assim como uma suposta violação de sigilo fiscal de
opositor, foram determinantes para a ocorrência do segundo turno nas eleições
presidenciais de 2010. Este tema foi reportado de 25 de agosto a 25 de outubro
e aquele de 11 de setembro a 26 de outubro. Provocada a realização do segundo
turno na eleição presidencial de 2010 o assunto desapareceu do noticiário. No
ano seguinte o desmentido das falsas acusações foi feito em 17 segundos.
Atualmente o noticiário televisivo igualmente busca
imputações a pessoas que já foram investigadas e nada lhes incriminou. Enquanto
isto, outras que já confirmaram suas transgressões sequer são citadas. A
experiência decorrente do estudo que empreendi me leva a questionar se
determinados veículos de comunicação têm por finalidade a difusão das notícias,
a obtenção de lucros pois são empresas ou se são partidos políticos e desejam
influir no processo eleitoral.
Publicado originariamente no jornal
O DIA, em 21/03/2026, pag. 12. Link:

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