sábado, 23 de maio de 2020

Cloroquina e erro médico



Cloroquina e erro médico

Em meio à pandemia da covid-19, dois médicos foram exonerados do Ministério da Saúde e para o cargo nomeado, interinamente, um general, acostumado a dar e receber ordens. O general-Ministro da Saúde interino nomeou para assessorá-lo outros militares, igualmente não familiarizados com pesquisa científica, prática médica, cuidados hospitalares ou atuação em epidemia. Vigora a irresponsabilidade do Presidente da República que busca para o cargo quem endosse sua fé na cloroquina. É inadmissível que assunto de tal gravidade seja tratado sob viés ideológico ou como torcida de futebol em final de campeonato. Cloroquina atende ao “clamor da sociedade”, diz nota do Ministério da Saúde. Não há racionalidade ou cientificidade.

Ao horror da pandemia soma-se a irresponsabilidade de quem tem o dever de promover adequadas políticas públicas. Inicialmente tentou-se negar a existência do vírus, sob o fundamento de que era um golpe chinês para comprar as empresas no ocidente, depois que seria um resfriadinho ou no máximo uma gripezinha e ao final, mesmo duvidando da existência do vírus, acreditando-se no milagroso efeito da cloroquina.
Em razão da facilidade de transmissão de pessoa para pessoa tornam-se necessários o distanciamento social, o isolamento social (quarentena) ou lockdown. O tratamento da covid-19 é de suporte. A diminuição da mortalidade dos infectados está relacionada à oferta de infraestrutura adequada, a presença de médicos e equipes de saúde preparados e protegidos, a existência de leitos de internação e de UTI, assim como a presença de equipamentos de ventilação mecânica de boa qualidade e em número suficiente.

Nenhuma vacina, antiviral ou outro tratamento específico está disponível. Quase 200 ensaios clínicos com tratamentos e vacinas estão atualmente registrados. “Nenhum ainda foi aprovado em ensaios clínicos com desenho cientificamente adequado, não podendo, portanto, serem recomendados com segurança”, disse o Conselho Federal de Medicina (CFM). Cada substância cujos benefícios sejam testados deve ser comparada aos possíveis riscos para cada paciente.

Mas o CFM divulgou o Parecer nº 04/2020 liberando o uso da cloroquina, “para não causar polêmica”. Após analisar a literatura científica, o CFM reafirmou que não há evidências de que a cloroquina tenha efeito confirmado na prevenção e tratamento da covid-19 e o que deve nortear o tratamento é a autonomia do médico, ou seja, tirou o corpo fora e jogou a bomba no colo dos médicos.


Medicina não é ciência. É técnica que utiliza conhecimentos científicos e que deve ser adequadamente empreendida. O exercício da atividade médica é atividade de meio e não de resultado. O médico não está obrigado e curar ou salvar o paciente. Mesmo não se atingindo o resultado pretendido com o tratamento não há responsabilidade médica, se atuou adequadamente. Um médico há de empregar os conhecimentos já produzidos e os melhores meios ao seu alcance, visando a obter um resultado desejado, mesmo que não o atinja. E já é muito.


Doentes e familiares, não raro, esperam que a medicina seja um sacerdócio e os médicos heróis. Mas, devemos tratar a medicina como uma profissão que cuida de pessoas humanas e dos médicos esperar que sejam apenas profissionais responsáveis. Também já é muito.

Ao editar norma, “para não criar polêmica”, O CFM colocou sobre os ombros dos médicos a escolha de ministrar ou não uma substância cujos efeitos não estão comprovados. A morte de um paciente a quem for ministrada poderá ser considerada imperícia e ao médico caberá comprovar que era um meio cientificamente adequado de tratamento. A morte de quem não for ministrada poderá ser considerada negligência.

O Conselho Federal de Medicina, com sua decisão politizada, prestou um desserviço à classe médica, em momento no qual ela precisa de apoio para o desempenho adequado de suas funções.

sábado, 9 de maio de 2020

As vagas bloqueadas nos hospitais federais


Enquanto as autoridades federais implementam política que pode ocasionar dezenas ou centenas de milhares de mortes, em pequeno lapso de tempo, algumas autoridades estaduais e municipais têm buscado minimizar os efeitos danosos da escolha feita no âmbito federal.

Não é a oposição político-partidária que contrasta as opções dos entes da federação. É o tipo de projeto de cada um. A estratégia federal é a da “imunidade coletiva”, permitindo que a população se contamine em massa para que os sobreviventes voltem a trabalhar e produzir. Esta estratégia, desumana, voltada apenas para o lucro do empresariado, nunca foi implementada com sucesso em nenhum país e causa riscos de colapso do sistema de saúde. A segunda opção, com razões humanitárias, propõe tornar a propagação do vírus mais lenta e proteger o sistema de saúde de uma sobrecarga.

As medidas recomendas para evitar que todos se contaminem ao mesmo tempo são distanciamento social, quarentena (isolamento social) ou lockdown. O distanciamento social é uma estratégia de isolamento que restringe o contato entre pessoas, com deslocamentos apenas quando necessários. Isolamento social ou quarentena é meio restritivo da liberdade de locomoção e é medida necessária para os que apresentem sintoma, estejam infectados ou para pessoas advindas de lugares acometidos do surto epidemiológico. O isolamento pode ser demandado como prevenção de contágio ou para evitar a difusão de doença. Lockdown é o bloqueio de todas as atividades não essenciais. É interdição de toda atividade que não seja extremamente necessária à manutenção da vida e da saúde. O lockdown é medida recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), diante de casos graves de pandemias sobre as quais se tenha perdido controle.

No presente momento, o foco das medidas sanitárias não é, em si, a transmissibilidade do vírus causador da Covid-19. O principal objetivo é logístico, procurando evitar a concorrência por leitos e respiradores.

Reduzindo a velocidade de propagação da doença, os órgãos de saúde podem ganhar tempo para equipar os serviços e qualificar equipes com os condicionantes mínimos de funcionamento: leitos, respiradores, EPIs, testes laboratoriais e recursos humanos.

Mas, as medidas acima somente serão tomadas se houver objetivo de evitar a aceleração descontrolada da doença. Se o objetivo das autoridades federais for o darwinismo social, implicando eugenismo e genocídio, pelo qual se possibilita a maciça difusão da doença e morte daqueles que a ela não resistirem, nenhuma das medidas será tomada. Assim, sobreviverão apenas os mais fortes e capazes para o emprego nas atividades econômicas.

No Rio de Janeiro as redes estadual e municipais chegaram ao limite de leitos e vagas nas UTIs. Assim, não se compreende a negativa do governo federal em liberar os leitos dos hospitais federais. Talvez o projeto seja efetivamente deixar a parcela não produtiva da sociedade morrer, para economizar com despesas do SUS e previdência social. Mas, o ser humano não pode ser visto apenas por sua capacidade de produzir e consumir. Já passou da hora do governo federal liberar todas as vagas existentes nos hospitais federais, inclusive hospitais militares. É incompreensível que em tempo de paz tenhamos uma rede de hospitais custeados pelo erário público para cuidados exclusivos dos servidores públicos militares. É perverso que tenhamos uma rede ociosa quando a sociedade demanda de tais recursos. Mais que um crime de responsabilidade capaz de impeachment, o boicote do governo federal à vida dos fluminenses é crime contra a humanidade e o sujeita a julgamento no Tribunal Penal Internacional. Que todos tenham vida e que a tenham em abundância.

*Jesus morreu, de coronavírus. Jornalista, cineasta, teatrólogo, morreu ontem Jesus Chediak. Nelson Rodrigues o chamava de "Jesus, figura diabólica". Era diretor cultural da ABI. Choremos por nós, que ficamos sem ele.