Cinco anos sem o filósofo
Roberto Romano
Há 5 anos faleceu, em
22/07/2021, em São Paulo/SP, o filósofo Roberto Romano da Silva, professor
aposentado do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas da Unicamp, aos 75 anos, vítima de Covid-19. Não era uma gripezinha.
Nascido em 13/04/1946, na
cidade de Jaguapitã/PR, Roberto Romano mudou-se jovem para Marília, onde passou
a atuar na Juventude Estudantil Católica. Naquela época atuava como monitor de
um curso do método Paulo Freire coordenado por professores da Faculdade de
Filosofia de Marília. Aos 20 anos de idade ingressou na vida religiosa, ligado
à Ordem Dominicana. Iniciou os estudos no Instituto de Filosofia e Teologia de
São Paulo, e em 1969 foi aprovado no exame vestibular de filosofia na então
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.
Mesmo não tendo vínculo
formal com os dominicanos que estavam na luta direta contra a ditadura na Ação
Libertadora Nacional, Roberto Romano foi preso e torturado no Departamento de
Ordem Política e Social/Dops, e depois no Presídio Tiradentes. Ficou cerca de
dois meses no Dops e o sofrimento da situação brutal o levou a tentar suicídio.
Em decorrência da tentativa, foi internado no Hospital Militar, onde recebeu a
visita de Dom Paulo Evaristo Arns, que o demoveu de novas tentativas de
suicídio. Dom Paulo relatou em seu livro de memórias o emocionante encontro com
Roberto Romano.
Após ser libertado, pode
concluir o curso de filosofia, graduando-se em 1973. No ano seguinte se mudou
para a França, onde iniciou o doutorado em filosofia na recém fundada Escola de
Estudos Avançados em Ciências Sociais (EHESS). Defendeu em 1978 a tese "Le
signe et la Doctrine - Prismes du discours théologique dans le Brésil
contemporain", sob orientação de Claude Lefort. Deixou a vida religiosa,
após 12 anos como dominicano e casou-se com a socióloga Maria Sylvia de
Carvalho Franco, autora do clássico “Homens livres na ordem escravocrata” (IEB,
1969) e egressa da turma de Florestan Fernandes. Tinha dois enteados, Luíza
Moreira, que é professora nos Estados Unidos, e Roberto Moreira, cineasta e
professor na USP.
Roberto Romano ingressou
na Universidade Estadual de Campinas em 1985, atuando nas áreas de filosofia,
ética e política, além de história da filosofia. Dez anos depois foi aprovado
em concurso de livre-docência. Ainda na Unicamp, o professor Romano foi
presidente da Comissão de Perícia da universidade que cuidou da análise das
milhares de ossadas encontradas no cemitério de Perus, em São Paulo.
Foi autor de doze livros,
entre eles: "O Desafio do Islã", "Moral e Ciência. A
monstruosidade no século XVIII", "Brasil. Igreja contra Estado",
"O Caldeirão de Medéia" e “O pensamento conservador”.
Participamos, como
palestrantes, do “XIV Seminário Internacional Ética Na Gestão: Ética,
Democracia, Justiça e Mobilização Social” organizado pela Comissão de Ética da
Presidência da República em 2013. Sentado ao seu lado, durante a fala da
deputada Luiza Erundina sobre ética na política, tive a ousadia de lhe falar
que esta é uma questão que nos remetia à transcendência e que tal discurso era
irreal. Ele concordou. Não imaginava que isto pudesse ocorrer, mas meu
comentário abriu a porta para uma longa interlocução com Roberto Romano.
Num intervalo continuamos
a conversa e lhe falei que aquele seminário, depois das manifestações de junho
de 2013, apenas buscava meios para arranjar um engajamento da sociedade em prol
do governo. A mobilização que se buscava era para aplausos ao governo. Ele
concordou comigo e disse que o grupo que estava no poder tinha dois métodos:
cooptar ou cancelar. Em seguida começou a contar as agruras que passava na
universidade com aqueles mesmo contra quem o povo se manifestava nas Jornadas
de Junho.
O professor Roberto
Romano relatou-me que sequer conseguia uma bolsa para um aluno. Nada! Qualquer
postulação que fazia era indeferida. Tudo o que podiam lhe cortar haviam
cortado por tosco partidarismo. Não tendo sido cooptado para o rude
partidarismo tudo faziam para cancelá-lo. De Hélio Bicudo ouvi similar relato e
isto me levou a compreender o lamentável papel que desempenhou pelo impeachment
da Presidenta Dilma.
Segundo ele um outro caso
fora emblemático. Uma aluna muito bonita sofrera discriminação por parte de
professor@s partidári@s. Segundo ele @s professor@s e @s alun@s militantes
discriminavam a aluna bonita e de classe média alta, porque a julgavam burra
por conta da beleza e origem social. Ele aceitou orientá-la e, para decepção de
todos, ela era muito competente. Ele me contava isto e ria muito.
Em outra oportunidade
relatou-me um suposto problema de saúde da sua mulher, a Professora Maria
Sylvia de Carvalho Franco. Ele disse que ela fora diagnosticada com algo
similar a labirintite. Mas exames descartaram tal hipótese. Muitas consultas e
exames posteriores investigavam o que ela tinha. Depois de muitas despesas
médicas descobriu-se que eram os óculos dela que estavam com grau errado. Ele
reclamou muito dos médicos e do corporativismo da categoria.
Tive pequena interlocução
com Roberto Romano. Aliás, por maior que tivesse sido ainda seria pequena.
Sempre o vi muito firme em suas posições, mas todas as vezes com muito bom
humor. A humanidade é incompleta sem o filósofo.
Ernest Hemingway usou uma
reflexão do poeta inglês John Donne para intitular um de seus maiores
clássicos. A famosa frase “Por quem os sinos dobram” foi extraída diretamente
da Meditação XVII de John Donne. O trecho completo do poeta do século
XVII sintetiza a interconexão humana e serve de mote para o livro de Hemingway:
"Não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti". Os
sinos dobram, não pelo aniversário do falecimento do professor Roberto Romano,
mas por nós que ficamos sem ele.

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