João Bosco, o mestre-sala
contra a censura e o cancelamento
Falando de uma das suas
composições, João Bosco expôs o constrangimento a que lhe querem submeter em
razão da letra de uma das suas notáveis músicas, Gol Anulado. Trata-se de uma
crônica e não uma recomendação de violência contra a mulher, mas nem todo mundo
tem a capacidade de entender uma obra literária ou artística sem a literalidade
que contém.
Com os padrões do
moralismo e do identitarismo que nos tentam impor nem mesmo os livros
religiosos poderão ser editados. Na primeira carta de São Paulo aos coríntios o
difusor do cristianismo nos versos 34 e 35 do capítulo 14 escreveu:
“conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido
falar; mas estejam submissas como também a lei o determina. Se, porém, querem
aprender alguma coisa, interroguem, em casa, a seu próprio marido; porque para
a mulher é vergonhoso falar na igreja.” Não há quem proponha sejam as bíblias
queimadas, ocultadas ou que no rodapé de cada qual venha uma nota explicativa
de que isto não deve ser considerado. O contexto histórico daquele texto é
compreendido e ninguém seria capaz de trazer para o tempo presente aquela
recomendação do Santo, a não ser um fanático literal ou fundamentalista. Mas
este caso mereceria uma análise à luz da luta antimanicomial.
Em data recente comprei
num sebo o livro Lolita de Nabokov. Falei, zombeteiramente, ao livreiro que o
fazia a fim de evitar que lhe quisessem prender sob a acusação de instigação à
pedofilia. Na semana seguinte ele, jocosamente, me entregou o livro Otelo, de
Shakespeare. Disse-me para igualmente comprá-lo, a fim de retirá-lo de
circulação pois alguém poderia acusá-lo de propagação do feminicídio. Em outra
oportunidade eu já havia adquirido, também de Shakespeare, A Megera Domada,
obra que pode ser considerada misógina. Nenhum exemplar adquirido se destinou à
destruição.
A questão não se esgota
com uma ou outra obra. O Mercador de Veneza pode ser acusado de antissemitismo.
O livro clássico Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, publicado em 1719, pode ser
retirado das prateleiras por narrar a escravização do indígena batizado de
"Sexta-feira", dia da semana no qual foi resgatado, cujo nome
original e cultura nativa foram apagados pelo protagonista. Se a sanha
canceladora se propagar as estantes das livrarias e bibliotecas ficarão vazias
e os editores e livreiros queimados em praça pública.
Os mesmos grupos que
cancelam pessoas e censuram manifestações artísticas e literárias, com
fundamento no identitarismo, legitimam os proibidões dos bailes da periferia,
sob o fundamento de que os meninos que os cantam não fazem apologia dos fatos
que narram e que as instituições formais classificam como crime. Para eles o
que os meninos cantam expressa apenas a narrativa da realidade na qual estão
inseridos, com o que concordo. Mas, por coerência, tal raciocínio deve ser
estendido a toda obra.
Não se pode debitar tais
comportamentos ao segmento ideológico classificado como esquerda. As palavras
têm conceitos próprios e mesmo quando empregadas indevidamente não transformam
o fenômeno no nome que lhes é atribuído. Um limão chamado de tangerina jamais
será doce. Os hippies cabeludos e com vestimenta alternativa com os quais a
ditadura empresarial-militar implicava, chamava de comunistas e lhes cortava os
cabelos levados para delegacias nada tinham de comunistas, nem estavam querendo
saber do que faziam os torturadores nos porões dos quarteis.
A pauta de costumes, limitada a si é um engodo. Essas dinâmicas podem apontar
falhas sistêmicas, mas o foco exclusivo na identidade dos grupos fragmenta a
sociedade e desloca os problemas estruturais de uma sociedade dividida em
classes para questões culturais e mascara o fundamento da exclusão social
situada na esfera econômica para a esfera individual. O identitarismo e a pauta
de costumes é forma de cuidado com a árvore, desconsiderando que está na
floresta. E não sem razão foi incorporado ao sistema e acolhido pelo mercado.
Mas há seguimento que os qualifica como esquerda. Melhor seria se fosse
qualificado como “ex-querda”
Esquerda é expressão que surgiu nas assembleias após a Revolução Francesa de
1789 e designava aqueles que se colocavam fisicamente neste campo do prédio e
pugnavam por mudanças na estrutura daquela sociedade. Os jacobinos e seu
radicalismo sob a liderança de Robespierre estavam dentre este segmento. Os
mais conservadores se colocavam à direita nas reuniões. Além das reformas
liberais advindas com a Revolução Francesa depois da ascensão da classe
burguesa em substituição à nobreza, os operários viram que não bastavam
liberdades civis e que quiseram mais, ou seja, participação na riqueza socialmente
produzida.
Um dos mais espetaculares
movimentos do Século XIX foi o movimento comunista que varreu a Europa de ponta
a ponta e é responsável pela conquista do direito ao voto universal e formação
dos partidos políticos organizadores de correntes de opinião. Naquele período,
até movimentos conservadores que atingiam interesses da nova classe dominante
eram nominados de comunistas, tal como hoje os identitaristas e propagadores de
pautas de costumes são qualificados como esquerdistas. Para esclarecer, os
comunistas lançaram um manifesto em 1848 dizendo o que eram, pensavam e
queriam, a fim de possibilitar a distinção de outros movimentos que na verdade
atuavam pela manutenção da ordem injusta. O manifesto começa com o seguinte
esclarecimento: “Um fantasma ronda pela Europa. É o fantasma do Comunismo.
Todos os poderes da velha Europa se aliaram para uma santa caçada a este
fantasma: o Papa e o Czar, Metternich e Guizot, radicais francesas e a polícia
alemã. Todos os partidos de oposição foram vilipendiados pelos seus adversários
como comunistas. Igualmente tais partidos de oposição arremessaram de volta,
tanto contra os oposicionistas mais progressistas como contra os seus
adversários reacionários, a recriminação estigmatizante do comunismo. Deste
fato duas coisas podem ser concluídas: O comunismo já é reconhecido por todos
os poderes europeus como um poder e já é tempo dos comunistas exporem
abertamente perante o mundo inteiro o seu modo de ver, os seus objetivos, as
suas tendências, e de contraporem à lenda do fantasma do comunismo e para tanto
lançam um Manifesto do próprio para dizerem o que são e se distinguirem
daqueles que não o sendo são chamados como tais. Assim, com este objetivo
reuniram-se em Londres comunistas das mais diversas nacionalidades e delinearam
o Manifesto seguinte, que é publicado em inglês, francês, alemão, italiano,
flamengo e dinamarquês”. O que tal manifesto dos comunistas fez foi
distinguir-se daqueles que, embora buscassem manter a ordem, eram qualificados
com seu adjetivo.
A censura a obras
artísticas e literárias, a afirmação da individualidade identitarista e a
política de cancelamento não têm proposição transformadora da estrutura social.
É uma forma sofisticada de manutenção da ordem, notadamente pelos herdeiros e
herdeiras do patriarcado que fundamenta a nossa formação social. Tal como
Clarice Lispector na crônica Mineirinho, “O que eu quero é muito mais áspero e
mais difícil: quero o terreno”. E se alguém tiver a ideia de fazer fogueiras
para queimar letras de música, poemas, livros, CDs ou discos, por
incompatibilidade com o identitarismo e politicamente correto, por favor, me
inclua fora dessa. Da Itália de Savonarola à Alemanha de Heinrich Himmler, quem
destruía obras de arte e livros não seria boa companhia para mim.
Publicado originariamente
no jornal O DIA, em 25/07/2026. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2026/07/7281843-joao-batista-damasceno-joao-bosco-o-mestre-sala-contra-a-censura-e-o-cancelamento.html

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