Proclamada a República
por um golpe militar, em 15 de novembro de 1889, o poder durou pouco nas mãos
dos militares. Estes, em muitas oportunidades, intervieram nas instituições,
sem jamais terem capacidade de governar. Vencem porque usam, contra a sociedade,
as armas que ela custeia visando à sua defesa. Mas a dominação não se exerce
pela força. O exercício regular do poder demanda legitimidade. O golpe
empresarial-militar de 1964 somente possibilitou o exercício do poder por 21
anos, porque a classe dominante fazia parte do projeto e sustentou o regime
enquanto se beneficiava dele. Quando começou a entrada de água no barco, o
empresariado e a parcela da burocracia que sustentavam o regime cuidaram de
desembarcar. A elite militar de então, notadamente os remanescentes do
Movimento Tenentista, soube conduzir a abertura num processo lento, gradual e
seguro. Os que poderiam embaralhar os interesses da classe dominante e conduzir
demandas por alterações estruturais na sociedade, em benefício do mundo do
trabalho, foram neutralizados. É emblemático que o regime soube conduzir o
processo de tal forma que alijou a esquerda, notadamente a representada pelos
comunistas, e os nacionalistas, representados pelos trabalhistas, e favoreceu a
afirmação de grupo que se dispunha a administrar para o capital, mesmo que com
discurso em prol dos trabalhadores.
Numa sociedade permeada
por interesses em conflitos, sobretudo pela diversidade de classe social, uns
sempre estarão em vantagem em relação a outros, dependendo de quem lhes
defendam os interesses. Inexiste vácuo no espectro político. Se aqueles que se
dizem à esquerda atuarem como se fossem do centro ou centro-direita, os que
antes se diziam deste campo passarão a atuar na extrema direita em defesa
desassombrada dos interesses do capital.
A abolição da escravatura
em 1888 ensejou o golpe republicano no ano seguinte. Os “senhores de terras” se
apropriaram das instituições estatais. Foi o preço que cobraram para não
incendiarem o país quando tiveram que deixar de comerciar pessoas transformadas
em mercadoria. A descentralização política implicou a supremacia do mando
local. O poder foi entregue nas mãos dos “coronéis”. Uma das características da
Primeira República, foi a desorganização do serviço público. Tudo estava
entregue às mãos privadas, inclusive a força pública. Somente com a Revolução
de 1930 foi estabelecido o Estado Nacional, que confrontou a ordem privada e
promoveu a reorganização estatal.
No presente momento
vivemos o mesmo dilema. As instituições estão sendo tomadas pelas oligarquias.
As emendas parlamentares se destinam a financiar o poder local. O orçamento
secreto impede a transparência e conhecimento do que é público. A administração
pública está entregue aos “senhores locais”, sejam políticos paroquianos ou
milícias.
O assassinato da juíza
Patrícia Acioli no Dia do Magistrado, em 2011, e o atentado à vereadora
Marielle Franco, no 24º dia da intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro,
em 2018, que teve o general de exército Braga Neto como interventor e o general
de exército Richard Nunes como Secretário de Segurança, nos possibilita
entender que o crime organizado já não mais se intimida diante do poder do
Estado. Ao contrário, se entrelaça com ele.
O ministro do STF, Flávio
Dino, expressou preocupação com a falta de apoio para manter investigações
sobre emendas parlamentares. Ele é relator de ações que questionam a falta de
transparência nos pagamentos de emendas. Em 2024 chegou a determinar a suspensão
do pagamento de 4,2 bilhões desses recursos e requisitou investigação pela
Polícia Federal. Em agosto passado submeteu ao Tribunal de Contas da União
análise de 964 emendas individuais que destinavam recursos públicos sem plano
de trabalho e determinou que a Polícia Federal investigasse possíveis
irregularidades. A mídia informa que o ministro teria expressado estar com
"a cabeça a prêmio" no Congresso em razão de suas decisões. O quadro
no qual estamos inseridos denota gravidade, pelo comprometimento na atuação de
agentes públicos. Os dois crimes contra a vida acima relatados demonstram a
atuação marginal de agentes públicos. Há duas semanas a mídia noticiou que a PF
estaria fechando cerco a financiadores da fuga do delegado e deputado federal
Alexandre Ramagem e que teria prendido o filho de um garimpeiro em Manaus.
O delegado fugitivo fora
condenado no mês de setembro a 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão por
organização criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e
golpe de Estado. Ele viajou de avião para Boa Vista (RR), seguiu de carro, saiu
do Brasil de forma clandestina, pela Venezuela ou da Guiana, e rumou para os
Estados Unidos. Ele tinha vínculos com o estado de Roraima, onde atuou como
delegado da Polícia Federal e sua mulher é procuradora do estado. As pessoas
que financiaram e organizaram a fuga de Ramagem devem ter motivos para as
contribuições prestadas. Garimpeiro auxiliando fuga de delegado federal que
tinha, também, a atribuição institucional de investigar garimpos ilegais em
terras públicas federais não é bom indicativo.
Determinadas relações
pessoais podem afrontar o princípio da impessoalidade. Assim como a relação com
vendedores de gás, fornecedores de gatonet e de segurança clandestina nas zonas
urbanas, a relação com garimpo pode ser fonte de problema institucional. As
relações de agentes públicos com interesses privados devem ser muito bem
explicitadas, sob pena de prejuízo aos interesses sociais.
Publicado originariamente
no jornal O DIA, em 27/12/2025, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2025/12/7182406-joao-batista-damasceno-desorganizacao-institucional.html

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