sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O equívoco do palco gospel

O "Palco Gospel", com shows de artistas religiosos, no Réveillon de Copacabana, foi um equívoco com bastante repercussão e acusação de discriminação religiosa e uso de verba pública visando ao proselitismo neopentecostal, enquanto eventos de outras matizes não tiveram apoio. A questão da preferência estatal por uma religião ou grupo religioso remonta à formação social brasileira. A adoção da religião oficial do Reino de Portugal era o principal critério para autorização de migração e aquisição de propriedade nas colônias portuguesas. Muitas cidades brasileiras se formaram no entorno de igrejas e capelas em terras apropriadas pelos padres ou doadas para o santo. A propriedade imobiliária na Cidade do Rio de Janeiro está contaminada por esta confusão. A sesmaria dos jesuítas é anterior à sesmaria da cidade. Os limites entre uma e outra jamais foram estabelecidos. Aquela deveria começar a partir do Rio Guandu, mas os padres disseram que o Rio Guandu, aludido na carta de sesmaria lhes outorgada, não era aquele que corre na Baixada Fluminense e que deságua na Baía de Sepetiba. Mas o Rio Comprido que corre ao longo das avenidas Paulo de Frontin e Francisco Bicalho e deságua na Baía de Guanabara próximo à Rodoviária Novo Rio. Com isto puderam alienar terras que eram públicas e foram estabelecidos alguns engenhos: Engenho Velho, Engenho Novo, Engenho de Dentro, Engenho da Rainha, além de outros, distantes do Campo Grande e da Fazenda de Santa Cruz.

Luís Vaía Monteiro governou o Rio de Janeiro de 1725 a 1732 e foi extremamente rígido na defesa do patrimônio público, tendo atritado diversas vezes com religiosos e políticos. Morreu de possível envenenamento e, posteriormente, quando alguém se referia a alguma norma por ele editada a resposta era: “Isto é do tempo do Onça”, seu apelido.

Proclamada a independência e outorgada a Constituição de 1824 esta dispunha que “a Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior do Templo”. A construção do Templo Metodista do Catete, em terreno privado adquirido pelos fiéis, foi um desafio à ordem jurídica vigente no Império.

A Constituição de 1988 dispõe que ao poder público é proibido “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”. Exceto eventuais colaborações de interesse público e, portanto, não confessional, a fé, expressão particular e pessoal, deve ser colocada em campo distinto do que é público e comum a todos. O mote para a separação poderia ser o ensinamento de que se deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Diante da infiltração religiosa no seio das instituições que deveriam ser republicanas e laicas não há quem se disponha ao necessário rompimento dos laços de dependência eleitoral. Não há escândalo envolvendo o erário que não tenha participante da denominada “bancada da bíblia”. Ora uns, ora outros. Mas sempre há membro do grupo marcando presença.

A mistura de poder público, religião, campanhas eleitorais e interesses privados de pastores e padres foi objeto de manifestação pública do líder trabalhista Leonel Brizola. Muitos dos que condenam o direcionamento da manada eleitoral para outras candidaturas ou partidos foram os que incentivaram a mixórdia em tempos passados.

Matéria do jornalista Maurício Thuswohl, publicada em 31/03/2000, intitulada “Brizola pede fim de influência religiosa”, noticia que ele pedira ao então governador do Rio que pusesse fim à influência dos pastores protestantes no governo estadual: "O governo tem de ser mais discreto, está vivendo um protestantismo exagerado", disse. Brizola citou especificamente a Cehab (Companhia Estadual de Habitação), que manejava um dos maiores orçamentos do governo e vinha sendo alvo de denúncias de irregularidades.

Segundo a matéria, Brizola também teria manifestado descontentamento com a atuação do então subsecretário do Gabinete Civil ligado politicamente à então vice-governadora, também protestante, e era o responsável pela distribuição do Cheque-Cidadania, que concedia mensalmente 30 mil cheques de R$ 100,00 a famílias carentes. Dizia Brizola: “O cheque do pastor é dinheiro público". Os dois pastores citados por Brizola acabaram condenados pela justiça criminal e lhes foi imposto cumprimento de pena em regime fechado.

Naquele período de embaralhamento entre religião, poder público e campanhas eleitorais, um pastor luterano foi convidado para um evento religioso num templo protestante. Ao chegar avistou uma autoridade pública sentada em lugar de destaque no púlpito. Não pensou duas vezes. Deu meia volta e se retirou. A Teologia dos Dois Reinos de Martinho Lutero, reformador protestante, não admitia a confusão entre estado e religião. Por ela, o reino espiritual é governado pelo Evangelho visando à salvação e o reino secular/temporal é governado pela lei e autoridade civil visando à ordem e à justiça. A separação entre igreja e Estado pode nos livrar de conflitos religiosos e transformação do nosso país num Brasilistão. Que cada qual monte o seu palco e faça o seu show, com recursos próprios. O que é público é de todos e não pode ser apropriado por um grupo específico.

 

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 24/01/2025, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2026/01/7197584-joao-batista-damasceno-o-equivoco-do-palco-gospel.html

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