O Brasil está em justa comoção
por causa da morte do cachorro Orelha, em decorrência de uma paulada lhe desferida,
supostamente, por quatro adolescentes de classe média ou ricos na Praia Brava,
no litoral de Santa Catarina. Numa sociedade marcada pela desigualdade social e
acentuada concentração de renda, o gozo dos pobres é o sofrimento dos ricos; o
gozo dos ricos é o sofrimento dos pobres. Daí o clamor pelo linchamento dos
jovens que mataram o cachorro Orelha.
Toda vida merece respeito,
pois se trata de uma rearrumação das cadeias de carbono que se eternizam.
O que assombra são as
manifestações em razão da bárbara morte de um cachorro quando a morte de 122 pessoas
no Complexo da Penha/RJ mereceu comemoração.
Li ontem, depois do almoço,
um pequeno livro do pedagogo Michel Ferreira Saraiva, intitulado A MENINA DAS
ALMAS. Michel é também humorista e suas postagens no Tik Tok e Instagran em “@papodepixta”
nos faz ganhar o dia. Em linguagem descontraída, ora se dirige ao amigo “Carrapeta”,
com quem “fala sério”, ora com o “Fumacinha”, amigo vacilão.
O livro do Michel não contém
humor. Está situado no contexto de um romance místico ou em algum estilo que
tangencia o realismo mágico. Do prefácio de seu livro se depreende o seguinte: “A
pobreza assusta. Aterroriza o quanto as pessoas, tantas pessoas, chegam a nem
notar o assédio cotidiano de suas próprias misérias. A exclusão é um terror. A
destituição que opera psicopatias neste Mundo... e no outro. O agarro
assustador à sobrevivência mirrada que molda meninas em formas de distorção...
A Falange dos Caveiras que restaura a ordem, reconduzindo à invisibilidade o
que, no alto do Morro, não merece ser percebido. A Falange dos Caveiras que, no
extremo baixo do Morro, desvela o sentido que pode haver no absurdo. O terror é
sufocante, porque a essência do terror é a tristeza”.
Michel que vive na
periferia fala da periferia. Nela a vida de 122 pessoas vale menos que a vida
de um cachorro.
Matérias jornalísticas
impressas, online e telejornais nominam os adolescentes como monstros. Sem
dúvida o que fizeram foi bárbaro. Mas nossa história está permeada de maus tratos
aos animais, às vezes a título de recreação, como as touradas e a Farra do Boi
que muitos defendem como componente da tradição de determinados povos.
Há quem tenha jardim em residência
unifamiliar ou condomínio e que não dispensa o sal para afastar lesmas ou sapos,
sem se dar conta de que se está desidratando o animal vivo.
É possível dizer que os
maus-tratos aos animais compõe a cultura brasileira. Mais ainda os maus-tratos às
pessoas humanas, notadamente, pretos e pobres moradores na periferia. Além do
esculacho e execução, o dia a dia de um trabalhador morador da periferia é de
maus-tratos. O modo como se transportam pessoas humanas de casa para o trabalho
e do trabalho para casa jamais seria admitido para o transporte de animais.
Em algumas etnias
indígenas crianças com deficiência física ou problemas graves de saúde podem
ser vítimas de infanticídio. Esta prática é vista por determinados grupos como
proteção étnica e parte da organização cultural de cada povo que a exercita.
As execuções que a política
de extermínio de pretos e pobres moradores das periferias das grandes cidades,
que sequer têm o direito de serem explorados pelo capital ou compor o exército
de reserva de mão de obra, não mobiliza as mentes e corações como faz a tenebrosa
morte de um cachorro.
A tortura e a morte do cachorro Orelha, que segundo a mídia era adotado, acarinhado e alimentado por frequentadores de uma praia no litoral catarinense, segue noticiada e
comentada. A paulada que lhe devem ter dado na cabeça tem sido considerada um
martírio decorrente da “diversão macabra por jovens ricos”.
Já há quem diga que dos
quatro jovens um é filho de uma desembargadora e outro de um desembargador. Tal
fato não é real. Mas do jeito que a coisa anda não faltará quem os aponte como
netos de ministros do STF. O judiciário é a bola da vez. E pouco importa a realidade.
O que interessa é dar asas à fantasia e ao delírio punitivo.
Há clamor, manifestação e
abaixo assinado pedindo a punição exemplar dos “monstros que martirizaram” o querido cachorro. Os adolescentes são chamados de assassinos, cujo crime não
pode ficar impune.
O caso é escabroso. Mas o
punitivismo o é mais e poderá resultar em consequências muito danosas aos
jovens pretos e pobres da periferia. Parcela da sociedade que se considera “progressista”
e defensora da dignidade animal, polarizando, se coloca no outro lado da moeda que
tem numa das faces o fenômeno designado de “bolsonarismo”. Esta parcela
sensível da sociedade está clamando pelo linchamento dos adolescentes, por
serem supostamente ricos e filhos de integrantes da oligarquia que se situa no andar
de cima da nossa estrutura social.
O que aqueles que
promovem o linchamento dos adolescentes não percebem é que estão fazendo coro
com a proposta dos setores mais retrógrados da sociedade que defendem a diminuição
da maioridade penal, quando não possível o "exterminio" de jovens
pobres da periferia.
Vivemos momento de irracionalidade
e clamor por linchamentos, notadamente nas redes sociais. As informações
chegam-nos em turbilhões, sem possibilidade de captação adequada e processamento,
e falta-nos – não raro – conhecimento antes de manifestações. Uma mudança da
lei não atingiria os autores da morte do cachorro Orelha. A lei penal maléfica
não retroage. Mas seria tenebrosa no futuro. Um exemplo é a Lei Hedionda dos
Crimes Hediondos, editada diante do justo clamor de uma mãe que perdera a filha
e que se mantém fiel ao bolsonarismo demandando mais punições.
Os supostos malfeitores
são adolescentes. Há medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e
do Adolescente/ECA (Lei 8069/90) a lhes ser aplicadas, respeitado o devido
processo legal, o contraditório e a ampla defesa.
Mesmo para os praticantes
de crimes, portanto pessoas a quem se pode imputar prática de ilícito penal,
exigimos o trânsito em julgado para lhes considerar culpados. E isto até quando
o crime é hediondo. Não devemos fazer coro com os que defendem a política de
extermínio e a ressurreição da FUNABEM ou do Código de Menores. O ECA foi o
resultado de muita luta e a solução não está no linchamento ou punição exemplar
e individual de crianças ou adolescentes, mas na proposta de Anísio Teixeira,
Roquete Pinto, Fernando de Azevedo, Júlio de Mesquita Filho, Almeida Júnior,
Carneiro Leão e muitos outros no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de
1932.
Estamos colhendo a falta
de educação para a cidadania proposta no Manifesto dos Pioneiros da Educação
Nova de 1932 que jamais foi implementada, apesar dos esforços de Darcy Ribeiro
e Anísio Teixeira, jogado no poço de um elevador em 1971 durante o governo do mais sanguinário dos ditadores, general-presidente Emílio Garrastazu Médici.
Não poucos daqueles que,
embora se considerando progressistas, se colocam no verso da moeda, cujo
anverso é o fenômeno designado como bolsonarismo (na verdade escatologismo social)
em outros momentos da história rejeitaram a educação pública, integral (e em
horário integral), universal, gratuita e laica, sob o pretexto de que “escola
não é restaurante”. Neste momento prestam relevante serviço ao punitivismo e ao
linchamento cujo efeito jamais recairá sobre jovens de classe média ou filhos
de ricos, mas seria devastador para jovens pobres da periferia.
A cada dia fica mais
evidente o perfil autoritário e punitivista da nossa sociedade, com
características similares às que orientaram o fascismo. A execução de 122
pessoas no Complexo da Penha não mobilizou corações e mentes, mas de um cachorro se tornou clamor nacional. Devemos nos orientar por Paco Urundo, evitar fazer coro com os punitivistas, e esquivar
o mau tempo:
PARA ESQUIVAR O MAU TEMPO
“Em
primeiro lugar, não se desespere e em caso de agitação não siga as regras que o
furacão quererá lhe impor.
“Refugie-se
em casa e feche as trancas quando todos os seus estiverem a salvo.
“Compartilhe
o mate e a conversa com os companheiros, os beijos furtivos e as noites
clandestinas com quem lhe assegure ternura.
“Não
deixe que a estupidez se imponha.
“Defenda-se.
“Contra
a estética, ética.
“Esteja
sempre atento.
“Não
lhes bastará empobrecê-lo, e quererão subjugá-lo com sua própria tristeza.
“Ria
ostensivamente.
“Tire
sarro: a direita é mal comida.
“Será
imprescindível jantar juntos a cada dia até que a tormenta passe.
“São
coisas simples, mas nem por isso menos eficazes.
“Diga
para o lado bom dia, por favor e obrigado.
“E
tomar no cu quando o solicitem de cima.
“Dê
tudo o que tiver, mas nunca sozinho.
“Eles
sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde.
“Lembre
que os artistas serão sempre nossos.
“E o
esquecimento será feroz com o bando de impostores que os acompanha.
“Tudo
vai ficar bem se você me ouvir.
“Sobreviveremos
novamente, estamos maduros.
“Cuidemos
dos garotos, que eles quererão podar.
“Só
é preciso se munir bem e não amesquinhar amabilidades.
“Devemos
ter à mão os poemas indispensáveis, o vinho tinto e o violão.
“Sorrir
aos nossos pais como vacina contra a angústia diária.
“Ser
piedosos com os amigos.
“Não
confundir os ingênuos com os traidores.
“E,
mesmo com estes, ter o perdão fácil quando voltarem com as ilusões acabadas.
“Aqui
ninguém sobra.
“E,
isto sim, ser perseverantes e tenazes, escrever religiosamente todos os dias,
todas as tardes, todas as noites.
“Ainda
sustentados em teimosias se a fé desmoronar.
“Nisso,
não haverá trégua para ninguém.
“A
poesia dói nesses filhos da puta.”

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