sábado, 18 de abril de 2026

Brasil: Força Municipal, violência e mando local

 

 Brasil: Força Municipal, violência e mando local

O Regente Feijó criou a Guarda Nacional em 1831, após o golpe que destituiu D. Pedro I. É o registro que fazem os historiadores. Desde o início da colonização faltava poder público no Brasil. O poder era exercido pelos senhores de engenho. A ordem privada não facilitava a organização pública. As forças públicas existentes eram denominadas “ordenanças” e “milícias”.

As ordenanças eram o escalão territorial das forças militares de Portugal, entre o século XVI e XIX. A direção das ordenanças era atribuída aos mais notáveis das terras portuguesas, com enorme poder local e deram origem ao coronelismo que impregnou a vida política no nosso país. As milícias eram organizações militares municipais, mantidas pelos Conselhos locais e ajudaram a consolidar a centralidade do poder do rei. As milícias, em Portugal, eram organizadas pelas Câmaras de Vereadores e diminuíam a importância das tropas organizadas pela aristocracia que, por vezes, ameaçava a própria realeza.

No Brasil as milícias eram, também, organizadas pelas Câmaras Municipais. O Presidente da Câmara de Vereadores no Brasil Colônia exercia também o cargo de Juiz Ordinário e Intendente, equivalente ao atual cargo de prefeito. Assim, uma mesma pessoa exercia as funções legislativa, judiciária e executiva, além de ter a milícia a seu serviço. Era o potentado.

Em verdade o Regente Feijó não criou a Guarda Nacional. Ele recenseou as milícias e ordenanças existentes e distribuiu títulos de oficiais de acordo com a quantidade de homens que cada potentado tinha sob suas ordens.

A história do Brasil é uma história com violência. A expressão “entre a cruz e a espada” retrata a dois tipos de violências a que estavam sujeitos que não compusesse a classe dominante. Ou era subordinado ao poder da cruz, representada pela aristocracia religiosa, ou estava subordinado ao poder do potentado. Raramente o rei mandava um juiz de fora para sobrepor sua justiça à justiça local. E mesmo assim quando o juiz de fora ia embora a comarca cumpria suas determinações se quisesse cumprir.

As milícias garantiam o sono e as riqueza dos seus senhores. A população escravizada era muito superior à população livre. Quem não era escravizado era prisioneiro do medo. E o medo da classe dominante era usado para justificar a banalização da violência. Para a segurança da Família Real, chegada ao Brasil em 1808, foram criadas as atuais polícias, dentre as quais a Polícia Militar.

A chegada de migrantes pobres para substituir a mão de obra nas lavouras, a partir da abolição da escravatura, e a expulsão dos libertos para os centros urbanos, radicalizou o medo e o preconceito, até chegarmos ao atual estágio de naturalização da eliminação física dos indesejáveis.

A morte de 121 pessoas numa operação policial nos Complexos do Alemão e Penha, em outubro passado, foi a mais letal da história do estado. Depois da matança, o então governador foi cantar música gospel no altar de uma igreja em bairro nobre da cidade e foi aplaudido pelos religiosos presentes. A polícia mata muito, em serviço ou fora dele. Se não tivesse retaguarda não o faria. Há até uma justiça militar, somente para eles, para julgar seus crimes. É a única categoria profissional com justiça própria no Brasil.

Em São Paulo, um coronel da PM é acusado de feminicídio. Sua versão é de que ela suicidara. Com a esposa ainda agonizando, seus telefonemas foram para o comandante do seu batalhão e para um amigo desembargador. Posteriormente o comandante ordenou que praças fossem limpar o apartamento, o que pode ter apagado vestígios importantes para as investigações.

Em 2007 a polícia fluminense promoveu uma caçada à luz do dia e promoveu chacina nas favelas da Coréia e Alemão. Foi a primeira chacina à luz do dia no Rio de Janeiro. Em 2013, enquanto se discutiam se órgãos públicos poderiam ostentar símbolos religiosos, coloquei na sala de audiência do órgão judicial no qual trabalhava, uma charge do cartunista Carlos Latuff. Uma obra de arte com um homem crucificado sendo atingido por um tiro de fuzil disparado por um policial causou mais comoção que todas as mortes, efetivamente ocorridas. Um parlamentar que condecorava milicianos presos com honrarias da Assembleia Legislativa e mantinha familiares deles lotados em seu gabinete escandalizou-se com a obra de arte. A arte apenas denunciava a barbárie, que já se queria naturalizar.

A vida na periferia não tem valor. Uma mãe foi assassinada, na semana passada também em São Paulo, com um tiro disparado, friamente, por uma policial ainda em estágio. Mas em matéria de truculência já efetivada. Cinco crianças, entre 5 e 13 anos ficaram órfãs. A policial, mulher e negra, não considerou humana a outra mulher, nem lhe reconheceu o direito de viver.

Estamos retrocedendo nos marcadores de civilidade. A aprovação da lei, pelo Congresso Nacional, que autoriza a criação de guardas municipais armadas, nos fará retornar ao Brasil Colônia com suas milícias a serviço do mandonismo local. O povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas será ainda mais subjugado. Uma das características do fascismo foi a descentralização da violência do Estado a fim de servir ao poder central e aos interesses inconfessáveis. Mas poderemos mudar o curso da história, desde que não naturalizemos a barbárie.

 

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 18/04/2026, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2026/04/7238008-joao-batista-damasceno-brasil-forca-municipal-violencia-e-mando-local.html

sexta-feira, 3 de abril de 2026

VIOLÊNCIA POLICIAL EM ESCOLA PÚBLICA

VIOLÊNCIA POLICIAL EM ESCOLA PÚBLICA

Duas ocorrências recentes no âmbito de instituições de ensino demonstram o beco sem saída no qual está a educação no Brasil. Em Nova Iguaçu, numa faculdade particular, um aluno do curso de Direito despiu-se, integralmente, em sala de aula, e exibiu as genitálias para a professora. No Colégio Estadual Amaro Cavalcanti, no Largo do Machado, Zona Sul do Rio de Janeiro, um policial militar esbofeteou uma aluna e agrediu outro que tentava abrandar a hostilidade.

A difusão, sem critério, das instituições de ensino superior, no Brasil, por empresários ávidos por lucros, tem propiciado a matrícula de todo tipo de aspirante a um canudo. Pessoas sem qualificação que lhes habilite ao ensino superior ingressam, com facilidade, em instituições sem compromisso com a produção e difusão do conhecimento. Os “empresários do canudo” promovem a “democratização dos diplomas”, mediante pagamento.

O evento no Colégio Estadual Amaro Cavalcanti foi pior. A presidenta e um diretor da Associação Municipal dos Estudantes Secundaristas do Rio de Janeiro/AMES e um representante do Diretório Central de Estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro/DCE-UFRJ compareceram à escola pública visando a colher assinaturas num abaixo-assinado requerendo fosse investigado um possível assédio praticado por um professor. A direção da escola, sem adequados métodos pedagógicos chamou a polícia para impedir a atividade estudantil, o que resultou na agressão aos estudantes.

A presidenta da AMES foi esbofeteada. O secretário da entidade levou um soco na boca. O autor da agressão foi um policial do BPChq/Pmerj, Batalhão de Choque da PM. Não é despreparo policial. Eles são adestrados para isto e a redes sociais registram depoimentos vangloriosos da truculência aprendida para a “luta contra o mal” ou para o que entendem seja o mal. O chamamento da polícia, para assunto que não demandava a força repressiva do Estado, foi o reconhecimento pela direção da escola de que não tem qualificação para resolver problemas educacionais por métodos pedagógicos e educacionais. Sou professor há décadas. Se um professor precisa de polícia para interlocução com alunos é porque lhe falta habilitação para a função. As autoridades são acatadas pela legitimidade de suas ações. O uso da força é a fraqueza da autoridade. Numa escola, sem a ameaça de mal físico, o método há de ser o diálogo e os professores precisam usá-lo, sem o que não estarão preparados para a função docente.

A palavra diálogo tem origem grega, formada por “dia”, que significa, “por intermédio de” e “logos”, que significa “palavra” ou “razão”. Diálogo é a busca do entendimento por meio da palavra. Implica uma troca de ideias buscando o esclarecimento, o entendimento mútuo e a construção dos sentidos do que se deseja expressar. Mais que para transmitir informações, o diálogo se destina à busca do entendimento e o consenso racional entre os indivíduos. Da discussão, racionalmente posta, nasce a luz.

Participei no início dos anos 80 da refundação da AMES, ainda sob a ditadura empresarial-militar. Foi no Clube Municipal, na Tijuca. Naquela época alguns policiais participavam de grupos de extermínio, chamados esquadrões da morte. Mas atuavam na periferia e nas madrugadas. Somente em data recente o aparato repressivo do Estado passou a matar durante o dia e a promover chacinas. E somente agora tenho ciência de que estudantes são esbofeteados por policial militar dentro de uma escola pública estadual, mesmo ciente de que estava sendo filmado. Trata-se da banalização da violência policial. As bofetadas que a estudante levou do policial militar, dentro da escola, ardeu no meu rosto.

Em São Paulo, um policial militar é acusado de matar a esposa. Nas conversas de WhatsApp, colhidas na investigação, ela reclamava da falta de respeito porque ele lhe teria batido na cara. Ele respondeu dizendo que sendo macho alfa a tratava como deve ser tratada uma fêmea beta. A hierarquização das relações humanas é a fonte dos abusos. Os tapas na cara de uma aluna, dentro de uma escola e sob filmagem, proferidos por um policial militar, pode ser o indicativo da possibilidade de violações mais graves à segurança, à vida e aos direitos dos cidadãos em circunstâncias menos publicizáveis.

A violação à integridade física e dignidade dos alunos agredidos pelo policial militar não há de ser imputada tão somente ao agressor. Quem de qualquer modo contribui para uma ocorrência há de ser por ela responsabilizado. A direção do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti tem, também, responsabilidade, por haver convocado o uso indevido da força para questão que deveria ser resolvida pedagogicamente. Assim, demonstrou desconhecer a Lei do Grêmio Livre, vigente desde 1985, bem como os princípios propostos no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932, redigido por Anísio Teixeira, que inspiraram o educador Darcy Ribeiro. Darcy e Anisio Teixeira foram os autores da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, somente editada no Brasil, tardiamente, em 20 de dezembro de 1961. Darcy, que tinha compromisso com a educação, foi o autor da atual LDB, editada no mesmo dia e mês daquela, no ano de 1996.

Diretoria de escola não é função para burocratas, nem para agentes do aparato repressivo do Estado. As funções são diversas. Educar é preparar para a vida e para a cidadania, tarefa para professores. Formar é colocar em forma, tarefa para adestradores. Adestradores formam vassalos úteis, jamais educam para a liberdade e para a cidadania.

 

Publicado originariamente em 04/04/2026, no jornal O DIA, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2026/04/7231029-joao-batista-damasceno-violencia-policial-em-escola-publica.html