sexta-feira, 20 de março de 2026

Que jornalismo é esse?

Sem perder o hábito da leitura dos jornais impressos, apesar da grande disponibilidade de notícias na rede mundial de computadores, há 16 anos não assisto a noticiário televisivo. Se começam, desligo, mudo de canal ou saio da frente da TV. Mas não assisto.

Em 2010, concluindo doutoramento em Ciência Política na Universidade Federal Fluminense (UFF), empreendi pesquisa sobre o noticiário televisivo em ano eleitoral e a contrariedade entre eles, reciprocamente, bem como as abordagens no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral. Igualmente analisei as repercussões nas pesquisas de intenção de voto. Pesquisar nos tira do senso comum e nos impõe a compreensão de que a realidade pode ser, por vezes, muito diferente do que pensávamos. Esta é a diferença que os gregos já faziam entre conhecimento e opinião, que chamavam de episteme e dóxia, termos que compõem as palavras epistemologia e ortodoxia.

A ortodoxia está presente na adesão rigorosa a crenças tratadas como verdadeiras e imutáveis, comum em contextos tradicionais e religiosos, denotando inflexibilidade, conformidade e conservadorismo. A epistemologia ou teoria do conhecimento é o ramo da filosofia que estuda a natureza, a origem, os métodos, a validade e os limites do conhecimento humano. Analisa a diferença entre conhecimento, opinião e crença. As crenças são próprias da ortodoxia enquanto o conhecimento é fundamentado em estudos e reflexões.

Todos temos algum tipo de crença, mas precisamos distinguir o que nos embala na vida com base com fundamento em conhecimento decorrente de estudo, reflexão ou ciência, daquilo que acreditamos, mas decorre de costumes e crenças não comprovadas.

Nascemos indivíduos e nos tornamos pessoas e cidadãos. No seio da família nos socializamos e obtemos os primeiros conhecimentos e valores. Na escola nos aprimoramos para a cidadania. Mas os meios de comunicação social são os que mais influem em nossa formação e opiniões. Jornais, Rádio, TV e, agora, as redes sociais são os meios pelos quais nos formamos e nos informamos.

As redes sociais não têm filtro. Trata-se de um mundo no qual qualquer um pode postar o que desejar, seja notícia fundada em fato efetivamente ocorrido ou fake News. As novas tecnologias permitem produção de imagens irreais, com rosto e voz das pessoas. Trata-se da tecnologia de deepfake (ou deep face), que utiliza inteligência artificial para criar vídeos, áudios e imagens falsas extremamente realistas. Isto é uma das maiores ameaças de fraude digital atualmente. Criminosos utilizam essa tecnologia para manipular a imagem e a voz de terceiros, com o objetivo de cometer crimes diversos ou difamar pessoas. De criminosos não podemos esperar comportamentos éticos. Mas das empresas de comunicação temos o direito de exigir adequada informação. Tais veículos hão de ser fonte segura de informação, produzida por profissionais e sujeita a controle editorial.

Enquanto terminava meu trabalho de doutoramento, em 11 de agosto de 2011 a juíza Patrícia Acioli foi assassinada por agentes do Estado, a mando de superiores hierárquicos, com armas e munição do Estado. O corpo da juíza ainda não havia sido sepultado e um jornalão carioca já a difamava, dizendo que mantinha relação perigosa com um policial. O que o machismo considerava relação perigosa fora o casamento da vítima com um policial que fizera sua segurança e do qual estava divorciada quando do atentado. Estabeleci contato com o jornalista e ele me disse que apostava todas as suas fichas, pois acreditava que o assassino fora o ex-marido e prosseguiu com matérias ofensivas à memória da vítima. O jornal O DIA adotou caminho contrário. Buscou se orientar por fontes seguras e saiu na frente na divulgação do que se apurava. Comprei e arquivei dia-a-dia ambos os jornais para registrar a cobertura. Quando finalmente o caso foi elucidado escrevi ao jornalista do jornalão, dizendo que perdera suas fichas e que deveria se retratar. Ele nunca respondeu a quaisquer das minhas mensagens cobrando uma postura ética. Prestei depoimento e emprestei os jornais que foram exibidos no filme “Patrícia Acioli, a juíza do povo”. Nele é possível ver e ler o nome do jornal e do jornalista que falseou o dever de adequada informação. As respectivas coberturas, da qual o jornal O DIA cumpriu seu dever de informação, aguçou-me a visão crítica sobre determinadas coberturas jornalísticas.

A análise do material coletado nos telejornais no ano de 2010 demonstrou-me que nem sempre o que assistimos no noticiário corresponde à realidade. Um escândalo de corrupção fabricado, envolvendo a então ministra Erenice Guerra e seu filho, assim como uma suposta violação de sigilo fiscal de opositor, foram determinantes para a ocorrência do segundo turno nas eleições presidenciais de 2010. Este tema foi reportado de 25 de agosto a 25 de outubro e aquele de 11 de setembro a 26 de outubro. Provocada a realização do segundo turno na eleição presidencial de 2010 o assunto desapareceu do noticiário. No ano seguinte o desmentido das falsas acusações foi feito em 17 segundos.

Atualmente o noticiário televisivo igualmente busca imputações a pessoas que já foram investigadas e nada lhes incriminou. Enquanto isto, outras que já confirmaram suas transgressões sequer são citadas. A experiência decorrente do estudo que empreendi me leva a questionar se determinados veículos de comunicação têm por finalidade a difusão das notícias, a obtenção de lucros pois são empresas ou se são partidos políticos e desejam influir no processo eleitoral.

 

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 21/03/2026, pag. 12. Link: 

 

sábado, 7 de março de 2026

Construtores de catedrais

Luis Vaía Monteiro foi o governador da Capitania do Rio de Janeiro de 1725 a 1732. Era rigoroso com o erário e com a tentativa de estabelecer regras de atendimento ao interesse público e da Coroa Portuguesa e ganhou o apelido de Onça. Não foram poucos os conflitos nos quais se meteu com os políticos locais e com os religiosos. Depois de um almoço, para o qual o convidaram, sentiu-se mal, caiu ao chão e morreu. Não havia necrópsia e não se sabe a causa da morte súbita. Maledicentes dizem ter sido envenenado. Embora fosse casado e tivesse seis filhos não se sabe do destino dado à sua família. Após sua morte, quando alguém lembrava da existência de alguma norma por ele editada, a resposta era certa: “Isto é coisa do tempo do Onça!”.

Em sua gestão, devido às invasões francesas ocorridas em anos anteriores, foram inaugurados os fortes da Laje e da Ilha das Cobras, visando a impedir novos ataques. Demonstrando a necessidade de combate à pirataria, conseguiu do rei português a incorporação da Ilha Grande à província que governava. Promoveu a interiorização da colonização fluminense com a fundação de São João Marcos, no Vale do Paraíba.

Luis Vaía, O Onça, era extremamente rígido no cumprimento das ordens régias e seus conflitos com os políticos e religiosos decorria, principalmente, do combate à cunhagem de moedas falsas, contrabando do ouro por caminhos não oficiais e apropriação das terras realengas, ou seja, pertencentes à Coroa Real, ou as compreendidas na Sesmaria doada para construção da Cidade.

A retomada da Ilha das Cobras, que estava em poder dos beneditinos, de onde tiraram pedras para construção do mosteiro e igreja de São Bento, foi um dos conflitos nos quais se meteu. O conflito da retomada atravessou séculos e somente foi solucionado no início do século XX, com reconhecimento de que é público, porque não estava compreendido nas sesmarias doadas aos religiosos.

Graças ao material retirado da Ilha das Cobras e das cerâmicas trazidas da Fazenda de São Bento, situada onde hoje é o Município de Duque de Caxias, os religiosos construíram um dos mais importantes monumentos arquitetônicos da Cidade do Rio de Janeiro. Todo carioca deveria conhecer ao menos a Igreja de São Bento e, se possível, assistir a uma das missas celebradas com canto gregoriano, a começar pelos professores de literatura ou artes, notadamente quando ensinassem sobre o barroco ou rococó e gongorismo.

Tanto a retomada da Ilha das Cobras, por um governador de elevado espírito público, quanto a construção do complexo artístico e arquitetônico beneditino expressam valores que havemos de cultivar. Dezoito anos após a morte de Luis Vaía, em 1750, subiu ao poder no Reino de Portugal o Marquês de Pombal, outro extraordinário homem público. Foi o Primeiro-Ministro de Dom José I até o ano de 1777, quando D. Maria I, A Louca, o sucedeu. Sucedeu, mas não governou. O Príncipe Regente foi D. João VI, dada a debilidade psíquica da mãe.

Tal como o Onça, Marquês de Pombal, igualmente contrariou os interesses paroquiais, da nobreza parasitária e de alguns religiosos. Era um estadista. Foi ele quem instalou o Tribunal da Relação em 1752, que hoje é o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, e transferiu em 1763 a capital do Brasil da Bahia para o Rio de Janeiro, visando a assegurar para a Coroa Portuguesa parte significativa do sul do Brasil que pertenceria à Espanha, por se situar além do Tratado de Tordesilhas.

Tanto no Estado quanto na direção das ordens religiosas é possível encontrar indivíduos e gerações capazes de feitos extraordinários. A construção das catedrais, no Brasil e no mundo, é exemplo disto. Algumas levaram séculos para serem construídas. Isto significou que aqueles que começaram as obras tinham a certeza de que as gerações futuras dariam continuidade aos encargos que lhes fossem legados. Por outro lado, decorreu da compreensão, de cada geração, de que a existência do que se faz transcende ao tempo de vida de cada um dos operadores.

Se o passado grandioso se pode fazer presente, igualmente as querelas. A propriedade da Ilha das Cobras foi resolvida no início do século XX, mas não faltam sacerdotes que ainda se mostram inconformados com a solução que reconheceu a titularidade do Estado. Conversando com um padre sobre isto ele me disse: “Aquilo é nosso”. Objetei dizendo que a questão fora resolvida. Ele replicou dizendo que a decisão, para ele e outros, não era definitiva e que esporadicamente lembravam que o Estado pode manter a posse, pois está consentida pelos proprietários. Retruquei dizendo que se consideram proprietários deveriam reivindicar na justiça ou ao menos requerer lhes fosse declarada a propriedade, ainda que não se dispusessem à retomada. Ouvi que não fariam isto e que se o fizessem perderiam e o assunto se encerraria definitivamente. Busquei concluir dizendo que eles jamais reaverão a ilha da qual um dia tiveram posse para retirada de pedras e construção do complexo arquitetônico. A resposta foi lapidar: “Agora não, mas daqui há 100, 200 ou 300 anos ...”. Dei-me por vencido. A existência de cada um de nós é curta, mas há instituições que se consideram eternas, pois falam em nome de valores que se pretendem infinitos.

A concepção temporal exposta nos parágrafos acima distingue aqueles que vivem a imediatividade da existência e os que arquitetam o futuro e dentre eles se destacam o Onça e o Marquês de Pombal.

 

Publicado originariamente no jornal O DIA, em 07y/03/2026, pag. 12. Link: https://odia.ig.com.br/opiniao/2026/03/7217772-joao-batista-damasceno-construtores-de-catedrais.html